A Loucura do Não
25/05/2009
Sobre os seriados gays
28/05/2009

Seriados Gays

Bons tempos aqueles do Queer as Folk. Nenhum de nós saía, no sábado à noite, sem antes de assistir ao capítulo inédito da semana. Ficávamos todos reunidos, como que na expectativa da final de um campeonato de futebol, esperando – pelo menos eu- pelo Michael. Era um misto de identificação e amor platônico. Mas era um misto de sentimento de pertencimento e viabilidade; ainda que fosse ficção, havia a possibilidade.

            Era exagero esperar que a atmosfera de Pitsburg, onde se realizavam as tramas do círculo de amigos gays- embora fosse filmado em locações no Canadá -, mas isso é outra estória, tivesse as mesmas intempéries de nossos grupos tupiniquins. Mas têm.

            O fato é que, embora Brian fosse o comilão infalível, o exagero de sua personagem dava certo reconhecimento da identidade gay. Tudo isso, por conta da simples caracterização de sua existência como um elemento gay, em que pese a similitude como os garanhões estereotipados da cultura heterocêntrica. Isto dava às cores fortes de Brian um valor existencial, ainda que o assumíssemos que não era um modelo a ser valorizado. O que importava era reconhecer-se gay.

             Em contraponto, como que uma espécie de compensação pelos exageros de estilização do protagonista acima citado, existia a figura doce e equilibrada do Michael. Ah! Ficava entusiasmado com a possibilidade da existência desse tipo de homem na vida real. Mas, às vezes me perguntava se não tinha inveja de seus, sempre bem escolhidos, namorados. Talvez fosse acalentador saber, que mesmo na ficção, embora os tons exagerados que também existiam nele, eu queria ser o Michael.

            No entanto, o intuito dessas palavras é iniciar o debate – talvez apenas expressar minha opinião – sobre as tentativas incipientes de se fazer uma série gay no Brasil.

            Tive contato, por meio de algum veículo de comunicação, com a produção do primeiro seriado gay-themed no Brasil. A inicitiava partiu do dramaturgo carioca Caesar Moura e Gerônimo Granja, produzida pelo Eu Mesmo & Cia Carioca. Em resumo, o mote da produção carioca relata em tom intimista-reflexivo, a vida 4 amigos homossexuais que trabalham num prédio comercial em Ipanema (RJ) e que tem como quartel general: a Farme de Amoedo.

A proposta me deixou bastante curioso e , uma vez que escrevo, mandei uma mensagem parabenizando a iniciativa e, também, propondo uma participação ou como co-roteirista, uma ponta como ator. Infelizmente não obtive resposta. Mas enfim, era apenas um comentário de um post premonitório do projeto. Hoje parece que a coisa está mais adiantada. Os produtores divulgaram alguns trailers sobre os personagens. O interessante é observar que a coisa é tratada de forma bem realista e com um olhar maduro sobre a condição gay. Um dos personagens se pega pensando em sua vida, uma vez que já atingiu os 30 anos e os questionamentos existências da cultura gay – e por que não de forma geral -, que o fazem refletir sobre sua condição humana. Vale a pena conferir as descrições pessoais dos personagens no sítio: http://farme40graus.blogspot.com . Gostaria muito de fazer parte disso tudo de alguma forma.

            Ontem, mexendo na internet, deparei-me com uma outra proposta de seriado gls. Este se chama os caRIOcas. Bem sugestivo o título da série. Toma como o centro dos acontecimentos bafônicos a cidade do Rio de Janeiro. O palco central de toda a cena cultural e gay brasileiras. Aqui vai uma crítica as escolhas do pano de fundo para estas estórias, mas não deixa de ser um atrativo para a comercialização destes produtos de forma mais convincente. Em que pese a crítica, o Rio não poderia ser cenário melhor.

            Nesse congênere, a cena é bem diferente. Pelo trailer, há certo tom cômico na trama. Ela se desenrola também entre um grupo de amigos diversificado e com temática sobre os problemas de assumir-se e ser gay. A paisagem da cidade maravilhosa não pode ser esquecida, uma vez que ela é o cenário de algumas cenas que caracterizam a cena gay: a praia, a pegação, a ferveção, o flerte; e por que não dizer a moldura perfeita para as bucólicas cenas de romantismo. Há ainda , uma espécie de triangulo amoroso que retrata essas cenas de homossexualidade no contexto da bissexualidade de homens casados. Inclusive a cena no trailer, traz como o personagem bissexual um ator global.

            Fico muito feliz e excitado com essas iniciativas. Trazer aquela atmosfera de identidade com o mesmo grupo, da possibilidade e de reconhecimento da humanização do indivíduo gay, enfim, tudo isso, além de proporcionar um olhar nostálgico sobre nossas referências; essas iniciativas reafirmam a cor local. Os valores do carioca, de certa forma representando toda a sorte de problemas universais, mas com o sabor dos trópicos, torna a proposta digna de nossos elogios e incentivos. Mesmo que a mensagem reflita os valores e culturas cariocas, todas as mazelas do indivíduo gay serão matizadas e retradas – pelo menos é o que se percebe. Rio – para os gays – não é só a Farme de Amoedo , tampouco as calçadas de Copacabana. A vida cultural gay do Rio, como de qualquer cidade grande brasileira, numa construção dos macro e microcosmos, também resvala na favela; no gay assalariado da zona norte.

            De qualquer forma, mesmo que o pano de fundo seja o Rio, viver a experiência de se ver num seriado específico, para mim, é fazer repensar o Michael em mim. No entanto, para muitos outros, ela clareia as dúvidas; permite ao enclausurado sair do armário armado com mais orgulho e faz do jovem aceitar-se como pessoa humana, como outra qualquer.

 

P.S. Tentei acessar o site dos Os cariocas: www.oscariocas.tv , mas não consegui acesso. No entanto, pode-se fazer a busca no google e colher mais detalhes.

P.P.S. Para os produtores, se houver interesse gosto muito de escreve e tenho protagonizado um olhar próprio sobre nossos maiores temores. Portanto, se precisar de ajuda nos roteiros, deixem seus recados.

1 Comentário

  1. Kiko disse:

    Queer as Folk foi um marco, realmente. É lamentável que a série não tenha chegado ao Brasil em dvd, o que reflete nitidamente o preconceito e a falta de interesse das produtoras em relação à comunidade gay masculina, visto que a série lésbica The L Word não demorou a chegar. Mas ver lésbicas se beijando num país machista é fetiche. Ver homens se beijando é pouca vergonha…
    Por isso temo que CaRiocas e Farme 40 graus não saiam do piloto. Vamos ver o que acontece. Torço pelo segundo, que me parece ter uma produção mais caprichada e um roteiro menos estereotipado, embora um tanto clichê, pelos teasers disponiveis na net.
    MAs como você disse, é importante que os valores, sentimentos e mazelas do gay como indivíduo sejam retratadas. As preocupações do gay carioca são as mesmas de todo gay brasileiro, quiçá do mundo. A única diferença é o pano de fundo, caótico, é verdade, mas ainda lindo e apaixonante por Natureza. Palavra de carioca 😉

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *