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NOTA DE FALECIMENTO

Ele tem a sensatez do bom companheiro, aquela parte em mim que o outro não encontrou com o esforço e o término da relação. Mas subsistia uma espécie de macumba ainda desfeita: o quadro. Este era a reminiscência de uma tranquila saudade, parada, pendurada…um suicida e um alçapão. E ele me prometeu desfazer essa lembrança. Vou ter de volta a minha arte do desespero. As telas eram o refratário do que o psicólogo falou sobre morte. A morte das coisas boas. Então deve ser devolvido o trabalho porque, para eles, prefiro a felicidade- minha inclinação cristã assim manifestada-, e a felicidade deles é minha paz dependurada naquele quadro. Então que se extirpe essa lembrança boa, das coisas boas, da pincelada última; o último carinho com a tinta e o derradeiro elogio rodeado de carinho.

Ele parece ter a placidez que não há no artista louco. A palavra azada no momento em que existia o desespero da perda; ou da posse. Se as bandas se encontram, eu era apenas a faca que as fendeu e a cola que refez a remenda certa. Sou isso. É tudo que posso ser agora.

Devo seguir continuando no “go go ahead” do Rufus, agradecendo pelo aprendizado amargo dessa experiência; especialmente desses últimos desdobramentos em que me sobeja a loucura da falta; ou a sensatez do iludido. Nada de racional vale como modelo agora. Sé me falta a própria herança que me dei; o prazer de minhas pinceladas egoístas que ainda enfeitam a tua parede- agora- desolada que é não devido a sua felicidade atual, mas advinda de minha desgraça mágica. Esta que impulsiona para frente, para a assunção de erros e não da repetição. Antes era o amor, a paixão dos corpos. Hoje tudo isso se reinicia de alguma forma. Em mim findou-se. No novo companheiro ela se renova nos princípios do amor-tampão, aquele que cura a ferida momentânea, aberta na ilusão de que qualquer ilusão dignifica a segunda tentativa. Eu ainda vou no go go ahead do Rufus, pedindo que você “olhe nos olhos de medusa, olhe nos olhos de medusa e esqueça aqueles que estão chorado.”

Estou então chorando pela nota de falecimento que registra o lamento último, o fato de existir a perda, o resgate impossível.

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