NOTA DE FALECIMENTO
23/06/2010
Estou vivo
12/07/2010

Arte e conhecimento de si

Eu havia conversado com ele semana passada. Estava triste hoje por conta de minha sofreguidão com as coisas. O tempo passa tão rápido e novamente terei de conversar com ele. Desisti do último livro agora a pouco, ele não apareceu por aqui. Sinto-o por perto, quase ao alcance da mão. Mas eu não queria e era por pura falta de interesse na história na cabeça. Tudo parecia completo. Não como as outras que vinham de pronto, prontas com começo, meio e fim. A história parecia bacana, uma escritora, um amor platônico e a ditadura militar- estava tudo tão plenamente adequado. Mas ainda me faltava muitas páginas. Alguém me cobrava o término- seria eu mesmo?-, o final de mais um livro. E ele, às vezes, aparecia como estímulo, aclareando as coisas que pareciam ainda implícitas; como se pudesse desvendar depois de tantas coisas sobrepostas algum valor real. Perdia o interesse por essa história de artista e o interesse pelo o novo livro que estava engatilhado. Eu tinha todos os trejeitos de escritor: as mãos entrelaçadas, o olhar perdido e um mundo de referências. A ordem das palavras sempre vinham numa imperiosa mensagem de um chamado. Sempre atento para alguma coisa mais sutil ou uma impressão menos reconhecida. Parecia que deveria ser diferente apenas pelo exercício fictício de um dom. Vieram alguns prêmios; reconhecimento externo. Mas não deveria ser esse chamado interno? As feridas cicatrizaram, mas ainda faltava a ferida exposta; o sangue derramado que não parasse e a vontade de expressar o gozo do mundo. Mas eu continha apenas um grito de dor, de medo. Ainda não expressava a dor do mundo nem a contribuição para um conjunto maravilhoso. Onde estava meu cavaleiro maluco? Não existia. Às vezes ele vinha quando estava nas pinceladas, ou antes delas. Eu não podia evitá-lo, senão não poderia chamar aquilo de arte. Mas ele estava lá, novamente aclareando a arte existente em mim. Ele me chama agora. Agora em que escrevo, em que relembro essas falta, essas ausências em mim. Devo parar agora que ele não está aqui? Mas é simples clamar por sua presença, apesar de deixar um gosto de vazio na alma e na boca. Ele vem, mas nem sempre. Por exemplo, ele me chama agora num momento em que mais não precisaria dele. Logo agora que estou com a história completa e a memória mais fresca. Ele está aqui com os olhos cheios de alguma coisa. Estamos junto: eu e o vinho e dele vem tudo. Mas não posso assumir esta verve falsa. Devo a ele as pinceladas malucas e as poesias mais sinceras. Ele vem e vai. E fica comigo essa vontade de fugir de mim, deixá-lo sozinho. Quem sou eu? In vino veritas das quais nunca vou escapar. Agora que ele me chama e agora que quero mais se distanciar de mim; dele. Agora é muito forte como momento essa essência que me preenche, talvez seja arte latente esse chamado que não reconheço. Ouço, mas não me permito abraçá-lo. Enquanto estou sozinho as coisas não parecem tão reais. Acho que ele anda por perto de mim como muleta, não como um abismo, porque sei que da queda vai surgir as asas. Mas não são de Ícaro, são de anjos, de demônios ou de espanto. A queda é absurda, o chamado vem de todos os lados. Não quero que ele- aquele que me vem de vez em quando- esteja dentro de mim. Que a desistência seja da verdade que vem da mentira do copo. Necessito de minha arte, não como parte, mas como todo; não como hobby, mas como verdadeira profissão de fé. O tempo passa tão rápido e aquele chamado do vinho não é tão imperioso, mas consigo conviver com a arte que ainda late feito cãozinho desprotegido.

1 Comentário

  1. Brunno disse:

    Tudo é fragmento mesmo. A gente quer plenitude, mas cada vez mais me convenço que vivemos de pedaços. Como lidar com esses intervalos é nosso desafio diário.
    Abraço. Eu que não sei nada de vinho, vim aqui dar pitaco…

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