Diário de Bordo de Paraty-Parte final.
14/08/2010
CABEÇA A PRÊMIO ( de Marco Ricca)
23/08/2010

Pai nosso de cada dia

Há quanto tempo eu não encontrava as palavras do Senhor. No sábado, o que me restava era uma grande ressaca, ao domingo sobrava as dores de cabeça. Mas a vida de boêmia parece acabar até mesmo para Rimbaud que pensava ser eterno, senão pelas suas poesias.  No entanto, acordei com a palavra de Jesus na TV. Sentei-me para ouvir o pai nosso,  mas antes veio o sermão, que não foi daqueles mais inspiradores. Porém a mensagem era de respeito ao estrangeiro, a boa convivência, a paz em forma mais genérica. Falou-se dos israelitas como eram fechados e depois do exílio, transformaram-se em pessoas receptivas. Enfim, a ladainha que sempre deve ser ouvida nessas cerimônias.

Mas foi bom entrar um pouco dentro de mim ao ouvir os cânticos, aqueles sinos celestiais que de certa forma me transportam para o além de um segundo que não é este do mundo solitário que vivo. Pensei logo em minha mãe e as missas de domingo. As mãos dadas, a preocupação eterna com o se portar dentro da igreja. A sua atenção receptiva de sempre bem tratar os outros.

Mas o transe sempre vem quando rezamos o pai nosso. Aquela sensação de que sempre teremos alguém para nos proteger de momentos ruins. Peço a ele em oração íntima que me ajude,  pois independente ou não de ser bem recebido- mesmo que o sermão seja de acolhimento dos estrangeiros, e nisso entra toda sorte de pessoas- na casa de Deus. Eu me msinto um pouco aliviado em entrar em contato com o grande Pai. Sim, porque sempre necessitamos de um pai, para o abraço, para um carinho, uma direção. E eu me ressinto disso tudo. Faço minha reavaliação nesse curto espaço de tempo com Jesus, pedindo perdão por tudo e suplicando por uma graça.

 A minha cultura fora por muito tempo assim, na indulgência das pessoas. De sempre estar atolado em desgraça para ter pretexto para ir a missa e pedir perdão. Sair de lá leve como o vento em pradaria distante. E era sempre assim que saía, como se Jesus ficasse lá distante, sempre em casa. Ele parecia criança rebelde que não podia sair por conta do castigo ou das grades que o prendiam. Mas eu o queria todo dia do meu lado.  Queria Deus como se fosse o grande pai da missa; que tentasse resolver meus problemas por antecipação. Porque ninguém quer sofrer.

Mas ainda em minhas lembranças de domingo; todo domingo era assim; essa saudade dele, de estar presente como se fosse um amigo e não mais um pai. Queria que toda essa forma de castigo a mim dada fosse transformada em história de papel. Queria a missa todos os dias, mas que o menino Jesus pudesse passear comigo quando o padre dissesse: ide em paz e que o senhor vos acompanhe. Mas ele nunca está aqui comigo. Queria que esse grande pai saísse para tomar um sorvete comigo. Queria que ele saísse de nossos sonhos e dissesse: “quer viajar comigo? Estou tão carente de companhia.’

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