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INTERLÚDIO

Interlúdio quer dizer trecho musical entre dois atos, duas cenas, numa peça dramática. Quer dizer, também, intervalos. E são as vozes de Dennis e de Lázaro que se intercalam em seus dramas particulares. E assim se revezam

James Mcsill

estas vozes dos protagonistas que se assemelham aos jovens protagonistas de Romeo & Julieta de Shakespearre. Famílias diferentes, histórias diferentes, religiões diferentes. E, em Interlúdio, Romance do escritor James Mcsill, a religião é um forte elemento que conduz a caminhos opostos a vida dos dois jovens apaixonados. Mas não é a religião que conduz a Deus, é a religião fundamentalista que estigmatiza, que discrimina, que segrega. O pano de fundo para essa a história de amor, diferentemente de Shakespeare que se concentra nas paisagens de Veneza, dá-se em diversos lugares, como no Brasil, na Europa, nos EUA, e principalmente nos espaços das almas apartadas.

A cada página do livro de Mcsill conhecemos, com riqueza de detalhes, a história de Lázaro e Dennis, unidos pelo acaso proposital de um postal misterioso. Lázaro se anunciava professor de Inglês e acompanhante. Então, são unidos pela famigerada ligação do algoz de suas vidas o comandante Betts- pai de Dennis. É com a ajuda dos amigos que eles contam para viver clandestinamente o romance proibido.

 A história é alinhavada, à cada página, pelo intricado jogo de pequenos interlúdios dentro própria história; pequenos crimes são revelados; pequenos dramas são desvendados pelos personagens. Tudo se condensa numa narrativa densa, instigante e dramática. Os personagens ganham vida a cada reconstituição do passado. A memória é um grande recurso utilizado pelo escritor para revelar os desejos e sonhos dos protagonistas. O tempo é outro elemento utilizado, no qual os pensamentos são revelados na constância das reminiscências e da realidade.

 A história em si é perturbadora nas passagens em que o Pai de Dennis, John, inflige ao filho seu fundamentalismo radical contrário a homossexualidade do filho revelada no amor incondicional por Lázaro. O abuso sexual, o prego que atravessa os olhinhos de Joãozinho, são cenas inesquecíveis. Os recursos utilizados pelo pai pra distanciar os amantes são quase inimagináveis, levando a práticas obsoletas de psiquiatria, como a lobotomia, para fazer com que o filho esqueçesse o amor latente. Dennis sofre nas mãos do pai. Lázaro sofre com a distância. Os dois sofrem com as informações truncadas; com corações vinculados.

 Cada voz do livro é ouvida com amplidão, com um eco dentro da alma. Reverbera dentro de nós leitores as vozes dos protagonistas que tentam se ver livres de um passado, ao mesmo tempo, feliz e opressor. Nas entrelinhas observa-se o antever de uma grande história de amor. Colocamos-nos a postos para antever a vitória do amor, em que pese os percalços típicos dos grandes histórias de amor. E mais uma vez o amor não tem sexo; não tem religião. As determinações maniqueístas revelam que no embate o bem, racional, sempre vencerá no final. E ainda sobre a história das vozes, intercalas nesse interessante interlúdio, o tempo é o grande ator. O tempo passa, muitos anos se passam, e o amor parece ainda intacto. Lázaro, a certa altura, pondera: “Que mundo era aquele em que vivia, que acabava e recomeçava sem aviso?” Mas sabiamente, o escritor conduz a história para que o aviso do final feliz estivesse mais perto do que ele podia imaginar. Lázaro, como que renascido de suas chagas reencontra o amor. E mesmo que sua outra metade, Dennis, se recusasse a lembrar de tudo que havia acontecido, devido às sessões de lobotomia, o amor e a lembrança estavam guardados na memória emotiva.

 Interlúdio é, na minha opinião, um romance épico que reconstroi a história de dois homens unidos pelo amor e separados pelo preconceito. São gigantes como Atlas, carregando o fardo da culpa e da dor sobre as costas, sopesando cada dor como aprendizado. É uma oportunidade para refletir que a justiça de Deus não tarda. E ainda, que o Deus, sempre benevolente, perdoa aqueles que nunca entenderam o amor. As almas se repartem para que, depois dos embates emocionais, depois das lutas diárias com a vida; a reconfortante e redentora força do amor prevaleça.

1 Comentário

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