Minhas mães e meu pai (The Kids are all right)

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Minhas mães e meu pai (The Kids are all right)

Sobre a teoria da Identificação já falei em posts anteriores. A questão de enxergar-se do outro: na página seguinte, da letra, da tela.

E outra teoria se forma. Não é nova, mas pertinente. Como se portar diante do novo, quando nos confrontamos com a possibilidade de sairmos da clausura de nossa segurança?

Talvez seja isso que observo nas entrelinhas. Por que o fica claro sobre o que tematiza o filme THE BOYS ARE ALL RIGHT, ou como ficou no Português MINHAS MÃES E MEU PAI, que conta a história de dois irmãos que procuram o pai doador do sêmem que gerou em cada uma de suas mães Joni e Laser, filhos do casal Nic e Jules, respectivamente a brilhante  Annette Begining e  Julianne More. A história poderia ser assim resumida. Uma história que funcionaria como clichê não fosse a intenção real do filme.

O pai procurado é o charmoso Mark Ruffalo que empresta o estilo largado, ligeiramente irresponsável, bon-vivant ao personagem Paul . Este é o verdadeiro fio condutor ou desviante dos caminhos preparados pelas mães preocupadas com os rumos da criação dos filhos. Não se pode negar o componente estrutural do casal, que se reflete no novo molde de familiar hodierna. A família tradicional, mormente a americana, vive em crise conceitual. A família tradicional americana reflete e reverbra a figura inanimada do pai presente-ausente-vazio personificado no personagem Homer Simpson do cartoon Os Simpsons. Não é a toa que estudos têm sido empreendidos na análise sociológica da alegoria existente neste personagem. Mas esse não é o assunto deste post. A condição vivida pelos filhos do casal protagonistas do filme poderia ser facilmente apontada e pontuada pela instabilidade ou anormalidade do casal lésbico- especialmente pelos censores ortodoxos da família tradicional. No entanto, a existência dos problemas na adolescência pode ser observada em qualquer família, digamos, tradicional- convencional.

A tomada inicial é a reprodução de uma cena comum na vida de muitas famílias. A reunião a mesa numa hora de refeição é campo propício para as reflexões diárias, um resumo das atividades e um reencontro da família separada pelo tempo,trabalho, escola. Enfim, a cena inicial reproduz a vida almejada dentro de uma família: a estabilidade emocional.

Mas não poderia ser diferente nessa família ainda não convencional. No entanto, as cores do drama são intensificadas pela ultrapassagem da linha de conforto que norteia a vida do casal lésbico modelo e dos filhos criados sob a mais rígida educação. Mas a linha não impede as falhas, o desgaste, o outro. E assim, esse outro invade o espaço, na pele do charmoso Paul. Esse elemento novo é simplesmente o doador de sêmem do qual surgiu os filhos do casal lésbico. A aventura de Joni a procura desse Pai-doador redunda no encontro com Paul que se sente interessado em ser procurado por sua filha Joni.

Enquanto isso, adentra-se no mundo apartados e desiguais das famílias vividas pelo casal e pelo solteirão Paul. As vidas são entrelaçadas pelo envolvimento dos filhos que gradualmente inseriam o Pai no contexto familiar. Esta imersão adentra numa seara que questiona a estabilidade da concepção na qual o casamento gay se estabelece numa antítese do que une o casal hétero. Nesse aspecto, as tensões do casal lésbico que entra em crise tem como elemento ocasionador a fragilidade de Jules e o interesse de Paul deixar a vida mundana e assumir uma família.  O triângulo surge como uma verdadeira válvula de escape, para as inseguranças de Jules e o desejo recôndito do Pai-doador-do-sêmem. Aqui o filme encontra seu ápice, causando uma constatação inquietante cuja revelação instiga a se repensar a questão de nossa sexualidade.

No final, diga-se de passagem, a atuação de Annette Bening pode render-lhe um Oscar, a maturidade da relação é retomada na assunção da divisão das culpas, da qual sempre a atenção ao parceiro é sempre um dos caminhos para o reforço da relação.

Além da mensagem geral sobre nosso comportamento diante do novo, repensando os valores que compõe nossas escolhas; outras questões se perfilam no desenho desta história. Questões como a liberdade no casamento; a prudência na solteirice devem ser analisadas. No filme em tela, a sensata conclusão que temos é que o amor que se erige dentro de uma família nunca terá sexo. As vidas poderão ser apartadas, mas o que sustenta qualquer tipo de relação é a eterna observância da existência e permanência do amor

 

2 Comentários

  1. Celso FAria disse:

    Já tinha visto a crítica, mas agora não tenho dúvida. Vou ver. Parabéns pelo texto.

  2. Obrigado caro Amigo Celso.
    O filme é excelente, claro se você abstrair os clichês. No entanto, vendo as atuações, especialemente de Bening, o filme é um ótimo drama.
    Além de por em questão alguns temas recorrentes, mas nem sempre notadas, sobre relacionamentos.
    Obrigado novamente,

    Abraços,

    Roberto Dias

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