O travesseiro da rua

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O travesseiro da rua

A sua cabeça doía como se carregasse todo peso do mundo. Não. Não tinha a ver com a garrafa de vinho que repousava silenciosa em sua frente vazia e solitária. Era a dor que vinha do pescoço e se irradiava por toda sua cabeça. Noite mal dormida. Fora de casa. Sem o calor e desvelo do outro. Sem o travesseiro de casa. E o que deveria ser o travesseiro, era o braço do sofá de dois lugares. Mal cabiam-lhe as pernas; mal cabia-lhe o corpo sem forma que agora se desenhava naquele micro espaço sem conforto. Conforto? O pensamento ia em direção a Ricardo. Mas este já não estava ao alcance dos braços.

 

Acordou sobressaltado como se quisesse acordar de um pesadelo. Mas ele inventara o pesadelo. Sacudia a cabeça numa tentativa de fazer tudo apagar de sua mente. Quem tinha culpa? Ele se perguntava e respondia com as palavras do psicólogo “nesse sentido os dois são culpados, pois em nenhuma relação pode-se atribuir a uma das partes a vitória.” Aquelas palavras se repetiam na sua memória e também nas últimas linhas do bilhete: a culpa diagnosticada é sua. Mas ele não tinha certeza do que realmente desejava. Sentia-se sufocado pela presença do outro. Já não se entendiam. O papo mantinha-se comercial. A cama apenas para descanso.  Onde eles estavam naquele momento ainda juntos? Perguntas e mais perguntas se faziam que nem os feixes de luz que entravam intermitentes por entre as frestas da janela do hotel vagabundo no subúrbio.

Não sobrara nada. Tudo ficara na casa do outro. E olhando para si, nada tinha sobrado mesmo. Apenas um orgulho imprestável. Nem ao menos recordava o que escrevera. Queria apenas deixar claro que não podiam mais ficar juntos. Não. Não houve traição. Pelo menos ele se orgulhava de tê-lo amado até o último momento e de sua parte nunca houve outro que interferisse no relacionamento deles.

Tentou levantar-se, mas um certo torpor tomava de conta dele. Agora era o efeito do vinho tomado de uma vez só, no gargalo, criando coragem para manter-se distante, isento, correto em sua atitude. A coragem lhe deixara quase morto, a cabeça vazia, e agora apenas zanzava por aquele pequeno quarto escuro, frio. A coragem apenas lhe aparecera naquele momento, logo, logo o álcool tomara de conta dele provocando a mais profunda indiferença quanto a sua vontade inicial. Tentou levantar-se, estendeu a mão como se pudesse dizer: me levanta Ricardo, me levanta. Mas sua mão parecia dança no ar escuro daquele quarto como se quisesse alcançar um vulto imaginário que pudesse parecer familiar. Tentou levantar-se e dizer que ainda o amava, que estava errado, que poderiam ter tentado mais uma vez. E então, relembrava-se do psicólogo a falar sobre isto, sobre aquilo. Alegrava-se com as palavras a seu favor. Viu? Ele pensava internamente. Eu não sou ruim. “Eu consertei as palavras para que não te magoasse.”- repetiu para si mesmo, engasgando com a saliva e acordando de mais um pesadelo.

Levantou-se, tentando equilibrar o corpo diante de um pequeno reflexo seu que se fazia na distancia de um anteparo de vidro. Mal podia se enxergar, mas se sentia mal por ter sido covarde. Covarde? Ele assumia uma culpa inconsciente, mas logo se livrava dela pensando na altivez da coragem. O novo. O novo seria essa nova fase; essa dor de cabeça; essa dor de estar sozinho e assumir parte dos erros. A dor diminuía e a realidade aparecia em toda parte; nas cores acinzentadas dos móveis, nas paredes escurecidas pelo tempo, nas vozes inaudíveis que se confundiam em sua cabeça. Um som parecia invadir os pequenos espaços abertos da janela, da porta, do vão. A música entoada era conhecida apesar da voz desafinada, o refrão na voz da anônima repetia a canção dos dois.  A poesia recrudescia memórias divididas, resgatava momentos divididos; os dois. O que eu fiz? Ele se perguntava entre um soluço de choro e outro.

A dor não parecia ter fim e confundia-se agora com a realidade mais nítida do que até os últimos minutos. Estar sozinho lhe dava a dimensão de sua responsabilidade assumida. A vida nova teria de ser resolvida assim nas emendas que iria fazendo dia após dia; noite após noite.

Pensou na outra garrafa de vinho. “Onde estava a outra garrafa de vinho?” Onde estava o substituto para a atitude daquele momento? Ele procurava a garrafa como se pudesse escapar daquele dia, como fez ontem. Ele imaginava que poderia invadir um outro sonho e sair daquele momento de dor, de dor física. A ferida causada parecia maior do que as chagas divinas. Quis gritar, quis suplicar entendimento; talvez fé para acreditar que poderia suportar aquilo sozinho. Porém, ele não queria acreditar em sua coragem, era mais fácil submetê-la ao vinho, afogá-la nesse estado de enlevamento de onde a alma alcançaria certa placidez. “E o dia seguinte?” Parecia se perguntar antes de perpetrar contra si aquele ato. Internamente, ele respondia que no dia seguinte o travesseiro da rua já não mais seria o mesmo de ontem.

 

 

2 Comentários

  1. Luciano Cilindro de Souza disse:

    O personagem deste conto se debate, como os amantes modernos, na tentativa de descobrir uma maneira de satisfazer sua pulsão natural de ser amado sem abdicar da consciência, numa overdose de consciência. Não só o desconforto de um travesseiro e de um sofá apertado, ele parece acordar com fome de redenção, com um ovo cozido (representando a potencialidade do renascimento) muito quente nas mãos, e tenta descascá-lo. Sente a dor, apesar da autossuficiência nas mãos, e seu terapeuta peca gravemente sem lhe indicar algo que amezize a dor. A gente fica esperando que o ovo esfrie, mas, não esfria. Ele continua descascando, as cascas saem devargazinho, mas, saem, ele consegue tirar. A pele das mãos começam a soltar pedaços literários maravilhosos. A esperança vai surgindo ao longo do texto, apesar de parecer que não. Por que esse ovo não esfria? Em que caldo foi cozido? Em que microondas foi aquecido? De onde vem esse tormento que não passa? O próprio personagem é culpado? Em sua concupiscência não adquiriu a paciência de esperar esfriar? Ou as forças modernas, que exigem a falsa perfeição física e emocional, aliadas à falta de princípios como respeito ao ser amado, fidelidade, compaixão, compromisso, tolerância, exigem dos amantes overdoses de consciência ou, no extremo oposto, astúcia altamente purificada e eficiente? Não li todo o conto, mas, espero que esse ovo esfrie, que o personagem viva seus conflitos sobre um travesseiro mais digno… Espero que o autor destile pra nós saídas emocionais eficazes em seus personagens, muito embora a qualidade do texto já nos inspire muito amor à literatura e ao autor.

  2. Klaus disse:

    Real, cotidiano, acertado. Tange a nós mesmos, me nossas crises emocionais várias. me vejo humano e igual. Obrigado!

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