A Espera ( Esperança?)

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A Espera ( Esperança?)

A espera me leva a pensar na peça de Beckett onde os dois mendigos esperam, esperam..pela presença de Godot. A peça é o ensejo para tratar de assuntos filosóficos; Deus como Godot uma tautologia para God ( Deus em inglês).

Mas, enfim, estou nessa espera como se aguardasse pelo Deus, que resolveria tudo, mas nunca aparece para estreitarmos os laços de amizade. “Nada a fazer” diz uns dos personagens. E eu estou aqui nessa espera na qual não há nada a fazer, pois esperar depende dos outros. O outro dever se manifestar com a negativa ou a afirmativa. E a sequência da evolução é reacionária aos mandamentos do esperado. Devo continuar? Devo desistir? E por isso estanco ou me catapulto. O fato de esperar sem ter as notícias necessárias nos coloca em eterno estado de duas instâncias: da assunção do trabalho bem feito ou da insegurança na confecção do que nos propusemos fazer, realizar. O mesmo quando acontece com o pôr-do-sol, a iminência da permuta de perspectivas, o dia deixa de ser claro para a existência da noite. E como pode ser danosa essa troca. Os estados emocionais se alternam na possibilidade e na impossibilidade. Ah! A espera! Como pode ser angustiante a espera!

Mas pode ser uma perda de tempo produtiva. A espera pode representar uma parada no processo de criação; uma reflexão para o trabalho realizado. É o tempo para a revisão dos atos, da palavra.  Pode ser também um momento para a reavaliação dos processos constitutivos de uma prática ainda em aperfeiçoamento. A prática pode ser reorientada, planejada novamente. Por essa razão, a espera revela uma outra perspectiva em toda uma existência desviada ou extraviada.

No entanto, quando esperamos dos outros o sim ou o não, ficamos reféns de uma aprovação ou de uma reprovação, a aceitação ou a recusa. Sendo assim, ficamos no eterno aguardar das coisas e suas repercussões. “Nada a fazer”, ainda parece o mais adequado a se fazer. Tanto que a leve mudança nos personagens, como quando Pozzo e Lucky aparecem, os rostos dos mendigos se enchem de esperança, logo frustrada pela resposta que não vem ou ainda quando o menino aparece para dizer que Godot não aparecerá esta noite. Que não seja assim em relação as minhas expectativas. Ainda me resta esperar, ainda que demore. Apenas não desejo por uma vida toda esperar, senão o momento necessário para a resposta afirmativa e para que, nesse ínterim, reavalie, reflita, aprenda e amadureça.

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