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Mais um dia

Acordei como se pudesse transformar o mundo de  minhas  pequenas coisas ainda não realizadas. Pensei que pudesse mudar tudo com apenas um pensamento. Tudo ilusão, pois como dizia Tennesse  Williams: ” o contrário da morte é o desejo.” E o que poderia ser isto se não um desejo antecipatório, mas sem saber o complexo final de tudo? E novamente citando o escritor: ” há um tempo certo para partir, mesmo quando não há lugar certo para ir.” E qual seria esse tempo e esse lugar? Estou começando a ficar velho e a pensar claramente na minha obra, na beleza que vai, na  opinião dos outros, no lugar que vou escolher como definitivo.

Se questões como “você é  o que bebe,  como, veste, etc”, como não posso pensar no que realmente sou independente do que já comi, bebi, vivi?  O que sou além disso aqui? E essa vontade de ter sonho mantido a todo custo; até que o último suspiro? “Nunca desista de seus sonhos”, diz a capa do livro mais vendido.

Mas parece ter um tempo definitvo para essas coisas, principalmente para se buscar a felicidade. Agora me lembro de como eu me sentia feliz, quando pela primeira vez morei sozinho, quando comprei o primeiro móvel da pequena sala. Fiz a festa do sofá. Convidei os amigos que sempre me interpelavam por qual circunstância haviam de celebrar. E quando entre vinhos e mobílias vazias, apontava seriamente para o sofá. ” Era para ele que celebrávamos.” E tudo parecia  meio sem sentido para eles. Não para mim, que agora reforço a memória nesses registros do momento, e que sinto que a cada dia sou salvo por um devaneio presente. Como hoje  que vi o sol pela  seis da manhã. Parecia vivo! E me chamava atenção de que ele poderia ir-se naquele  momento, e como minha vida (nossas vidas) estão condicionadas ao seu brilho, ora espontâneo, ora – isto pode acontecer – temperamental. E chego a conclusão que somente essas linhas é que me salvam.

Ainda assim sobrevivi ao epitáfio do sol, olhando como se pudesse desafiá-lo, mas era uma luta sem fim – a não ser que ele desistisse e na desistência dele nós dois definharíamos para sempre. Mas estou de pé, em que pese os tapetes puxados, as ventanias dos Deuses e o desejo ignóbil do ser humano de ignorar a vida. Vou sobrevivendo dia após dia como se aprendesse mais uma lição com o sol. Acordo e vejo que o dia não se repete – porque poderia ser igual se estivesse prostrado pela solidão -, mas o dia não se repete mesmo.

Agora tenho aulas que me darão um futuro posto de mestre o qual me importa o status – coisa que já venho desfrutando: mestrando em…Mas não importa, o que importa é o que ganho dia após dia, nesse vagar de descontinuidade que me dá um certo sentido.Ainda não explorei todos os lados que deveria caminhar. Sinto uma lacuna indescritível. No entanto, não se parece com falta do que fazer, realizar. É apenas uma falta que nos impele ao breve paladar do complemento. Tudo parece ser um simples encaixe. E nem falei de como uso meu sexo, porque já sei o que fazer dele, e não é por isso que ganho ou perco meu dia. Sim deve haver algo mais concreto.

Cada vez me distancio e me aproximo, na linda dialética da vida, do pensamento de Tennesse, numa inconstância que imagino ser o desejo da vida – o quer que seja sua significância.

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