A água limpa do poço

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A água limpa do poço

Permita-me usar o espaço mais uma vez para exorcizar meus monstros e demônios. Não passa de um exercício diário de uma análise compulsória sem diagnóstico abalizado, senão pela própria necessidade do impulso para a vida. A vida normal, diria, pois a vida perfeita ainda é um desafio ainda mais inatingível. Conformo-me em alcançar uma vida normal em paz comigo mesmo.

E peço desculpas por ainda usar um espaço tido como mais literário do que confessional, embora essas dimensões se misturem na mais alta exegese e poética na prosa narrativa. No entanto, esta é uma outra discussão. A questão, em seu ponto mais importante,  é versar sobre pequenos dramas, também inerentes a boa e tradicional literatura, dramas particulares – talvez universais.

O meu conto pessoal tem a ver com decepções amorosas, amores de verão, amores eternos (sei que prometi não falar mais de amor), pequenos amores, expectativas e as relações diretas e indiretas com a dinâmica dessas relações interpessoais. Como controlar essas dimensões do gostar e do cair; do querer e da compensação; do prosseguir e do parar? E aí entro numa seara não só dos meus amores, mas das relações com o ser humano. Decepção tem a ver com o lado humano, ou com o lado desumano.

Tento não perder o fio da meada ao tocar nesses assuntos que se convergem e divergem numa estreita relação com temas negativos. Temas negativos? É, tristeza, decepção, espera (sim, espera pode ser ruim), frustração e desejo contido. São posturas inadequadas com o padrão de quem se alinha aos princípios da objetividade, da praticidade e de um egoísmo valorizado para realização e persecução de empreendimentos e satisfação pessoal. Nada desses temas negativos afetam a vida das pessoas normais. Mas não sendo normal, eu me preocupo com essa exigência de estar sempre alegre. Somos estimulados a ser muito fortes, enquanto o choro se transforma em fraqueza genuína.

Então me deixem chorar. E isso não tem nada a ver com morte, com desconstrução, com ruína (sim, ruína de ruim). No entanto, é parte desse prosseguir, a queda… a reviravolta, o gosto doce de uma superação vem logo em seguida.  E não é exercício de um desejo de resignação típico de quem se atola no buraco; é mais válida a visão das estrelas do que a permanência da sarjeta – parafraseando Wilde.

Tem um livro sobre essa perspectiva do poço. Existe este fundo escuro, longo e impossível de sair; no entanto, também existe a luz do dia ou da luz da lua – perspectiva de esperança, o lógico para o absurdo. O absurdo da vida e a claridade da morte. A vida é uma preparação para a morte, já dizia o escritor. E por que se preocupar se para viver eu choro um pouco, eu me perco do caminho, eu me decepciono ou me isolo? São instâncias do viver. Destarte, dou-me o direito de ser imperfeito nesses dias de poço.  São fôlegos de vida, podem acreditar.

Sei do poço, mas sei também da corda que resgata a água limpa do fundo.

2 Comentários

  1. Lucas disse:

    Lindo post! Simplesmente lindo!

    Ontem sufoquei um “te amo” a caminho da fala. Ele subia, inflado e inconveniente pela garganta, quando as mãos inescrupulosas do medo tiraram-lhe a força. Doeu engolir aquela vontade de gritar meu amor, mas hoje o alvo daquele “te amo” me escreveu o que tive medo de dizer. O tal “te amo” me pegou novamente: precoce e hediondo como somente ele pode ser quando se encontra alguém merecedor.

    Por que vacilamos tanto para expressar o amor, mas somos tão ágeis para sussurrar nossas maldades ao pé do ouvido dos nossos cúmplices? Amar é assustador; falar de amor, quase obsceno.

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