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A redentora do Brasil

Ela entra como se fosse apenas mais uma a usar a palavra. O silêncio que acompanha seus passos antecipa uma dança inesperada. O porte não tem a indumentária de um colosso, mas suas palavras têm poder da pedra de David- certeira e argumentativamente mortífera. Ela começa com a indulgência de que todas essas pessoas são, por uma razão além do altruísmo, erigidas com o mais tenro e edificante dos sentimentos- ao final ter-se-á a noção do vem a ser isso. O discurso é simples, se rebuscamento ou falácia. E sua estatística é real, contundente, não metafísica. É constrangedora. Os números 930 indicam sua indignação, diante dos reais algozes. Mas sua fortaleza vem do sotaque forte e inteiriço como rocha bruta, mas lapidada pelo tempo, o tempo das expectativas. Como ela consegue enfrentar os leões de sua inexorável cova, com apenas esses três dígitos? Quantas pedras lhe restaram para golpear o grande monstro de nossa falta de política para com a Educação. “ Seria eu a redentora desse país?”- ela se convence de que não seria a pessoa certa. Sem forças, sem a alimentação correta para o dia de cão para enfrentar; como poderia enfrentar os pequenos Golias diários, tendo que se justificar sempre pelo fraco alcance de sua meta para a aula do dia? Seu discurso se inflama. Levanta o contracheque como se pesasse o peso da humilhação. Mas quem é tributário disso senta-se com suas indumentárias caras e se empapuçam com seus perfumes franceses. Como lidar com essa realidade- ela se pergunta enquanto tenta organizar e continuar seu discurso. Que estatística forte ela apresenta diante de nós. Que aconteceria se “eles” (professores) deflagrassem uma guerra civil por direitos. Seria justo como é justo a sublevação dos povos árabes e a estrangulação de um sistema de opressão insustentável. Como ensinar, se o peito se enche de uma revolta genuína e justa? Como se locomover entre os três turnos para multiplicar um pão estéril que é o seu mísero salário? Como ensinar a palavra futuro? Ela se aninha na sua pequenez, mas se avulta com grande lucidez- e altivez- para não falar com impropriedade. E os números dos outros? E as estatísticas mirabolantes para mascarar a velha e conhecida realidade – a inércia herdada de todos os governos e governantes? Quão leviana esta propaganda de que tudo depende do ensino dado pelos professores, como se fossem os verdadeiros culpados de toda a precária logística que o governo reserva a estes eles. Não preciso criar palavras e romancear esta realidade, este discurso do vídeo acima. As palavras da professora são fortes e lúcidas. São embaladas por uma violência crua de sua realidade. E o cenário que ela pinta – está mais para contornar os traços -, é um cenário local? Que tipo de país é esse? Eu falo com a voz íntima que este texto permite, mas minha voz se enfileira no mesmo discurso, vez que meu mestrado me levará para a sala de aula. E o que nos resta dentro desse recinto redentor. Estamos fadados a salvar o mundo com poucos recursos ou sem eles? Só nos resta a guerra civil? Ou a reinvenção do mundo e a mudanças dos parâmetros sociais e, conseguinte, valorização dos professores, em detrimento dos astros, celebridades e autoridades forjadas numa hierarquização de valores que beiram a amoralidade? Ela tem de pagar o carro, para se deslocar de um trabalho para outro; tem uma filha para bem educar; tem que se alimentar. E sua estatística fala mais alto do que qualquer filósofo, pedagogo, cientista social que o valha. A estatística da fome, da miséria, do esquecimento, da desvalorização do professor. O número é 930. Mas ela tem nome, não se esconde por detrás de um cartaz, ou de uma mensagem anônima. Ela mostra o rosto. Ela é tem uma revolta justa – não somente sua. Seu nome é Professora Amanda Gurgel.

Parabéns Professora Amanda Gurgel!

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