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Intimidade e cobrança

Intimidade e cobrança

 

Não sou perito no campo do amor, das relações interpessoais, mas no auge de meus trinta e poucos anos, tenho certa experiência nessa seara.

E está acontecendo, ao mesmo tempo, uma coisa interessante entre mim e meu amigo. Não tem nada a ver com a transmutação desta relação, ainda continuamos bons amigos. A questão que nos une agora é saber quando cobrar uma atitude mais séria em caso de relacionamentos amorosos.

Sou buscado para orientar como fazer nesses momentos em que o fortuito de uma relação – vez que no momento em que lidamos de forma séria com o ocasional, nominamos isso relação – torna-se demandante. Em outras palavras, quando duas pessoas começam a descascar a pele que envolve o íntimo, elas começam a se conhecer melhor, e começam a exigir obrigações – mútuas ou unilaterais. Isso não é nenhuma descoberta. Mas passa despercebido pela maioria das pessoas. Às vezes nem damos conta de nossas intimidades divididas, talvez nos percebamos cobradores de alguma coisa a mais. Porém, nem sempre somos levados a refletir sobre isso. Somos demandados a apenas viver isso.

Aqui acolá damos conta de nossa irracionalidade e automatismo do mundo em que vivemos e paramos para pensar um pouco. Este é o momento em que nos encontramos agora. Momento em valoramos nossas atitudes nas relações amorosas e partimos para uma atitude mais séria conosco. Esta sapiência nada tem a ver com velhice, mas com amadurecimento; este presume-se incipiente, porquanto ainda propenso a aperfeiçoamento; quanto à velhice, ela nos traz genuinamente a sabedoria. Pois bem, nesse exato momento, entendo que qualquer prolongação de uma relação, dita séria, leva-nos, naturalmente a um postura diferenciada, de questionamento e valoração contínuas.

Não existe uma regra para essa percepção – por isso reforço os conceitos de velhice e amadurecimento –, mas uma condição interna estipuladora de um começo. Normalmente, essas valorações de juízo e de “tempo perdido” coincidem com o passar do tempo. No entanto, ainda poderia estar alheio a isso mesmo agora. Perdido nas folias da vida, a todo tempo, em todo lugar, ad infinitum. Mas o momento é de reflexão.

Quando entendemos o outro, dividimos experiências, encontramos afinidades, perguntamos sobre os detalhes, os observamos, elogiamos, entramos no universo fechado do outro, sorrimos, brigamos, discutimos, afastamos, bebemos todas, nos isolamos…retornamos, e repetimos o ciclo; é porque alguma coisa se aproxima do insólito. A isto chamamos de intimidade. Parece estranho, mas é assim que ela se dá. E aí é que entra a questão da cobrança.

Invariavelmente se você passou por esse ciclo, que pode ser sazonal ou contínuo, já se percebeu nesse jogo de interesses. Tais interesses são indisfarçáveis e inarredáveis, e por essas razões, damos importância ao outro de uma forma especial. A companhia é importante, a opinião é importante. Encontramo-nos arrodeado da outra pessoa e isso nos autoriza a questioná-la, observá-la, preocupar-se com ela. Todas essas manifestações operam um novo momento em sua vida, ocupando certo espaço, tempo e importância. Por mais que sejamos orientados sobre o amor-próprio,  e que isso tenha a ver com certo egocentrismo, sempre existirá uma parte faltante – o desejo freudiano –, uma insatisfação dessa parte que foi “emprestada” com estima e que é difícil de retomá-la imaculada.

Sem filosofar para não ser prolixo, tampouco descambar em outros assuntos, eu e meu amigo temos procurado entender esta cobrança, não como ultimatum, mas como um verdadeiro corolário dessa atitude mais racional- que confesso não somos doutrinados a praticar. Intimidade e cobrança (causa e efeito ou um fenômeno reflexivo) sempre andarão juntas mesmo para os mais descompromissados dos casais existentes. E quando nos deparamos com casais perfeitos, em que essas instâncias não existem, podem ir a fundo que um dos dois, ou dois, mente a respeito de seu amor próprio, ou de seu amor para com o outro. Nem mesmo em uma verdadeira amizade, esta dupla se prescinde.

 

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