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Ensaio sobre o dia dos namorados

 Ensaio sobre o dia dos namorados

 

            Preciso de um corpus para a feitura dessa escrita crítica. Sim, é uma opinião crítica, contrária a onda amistosa do amor, feita sob o arroubo de uma sequência frustrante de  relacionamentos, confessadamente fracassados, mas que não tiram de mim  a característica empírica da experiência, da sobrevivência.

            Algumas obras, principalmente na música, fazem-me pensar neste assunto. A propriedade das palavras que reproduzo a seguir parece corroborar qualquer argumento assertivo; mas parto deste princípio pacífico para a tormenta de meu argumento. As palavras são de tom Jobim, Wave:

 

Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho…

O resto é mar
É tudo que não sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho à brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho…

Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade…

Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver…

Vou te contar…

 

            Parto desse princípio quase aristotélico de uma verdade íntima do poeta que parece ser incontestável, bem no início, nas primeiras premissas do poema – as últimas linhas grifadas da primeira estrofe. A primeira premissa afirma que o amor é fundamental. Como se a vida fosse apenas uma delírio do poeta de em tudo ver apenas o amor. Porém, além do amor existe a própria vida, e vida, não precisa ser expert, não é só amor.  O fundamental, eu contra-argumentaria, é viver a vida bem vivida. O amor, no sentido empregado no texto: de não estar sozinho, ou seja, ter alguém, é uma falácia. Não digo que não seja necesário para a vida, como uma parte integrante, mas não como essencial. Talvez devéssemos fazer as coisas com amor, apesar de saber que algumas coisas sem o amor também funcionam; perícia, dedicação e competência são outros elementos valorativos de um trabalho, de uma obra, enfim de alguma realização humana. Amor é fundamental, assim como a água, o ar, a terra que pisamos, a amizade, a esperança. Enfim, poderia passar uma eternidade elencando o que é fundamental na vida, sem mencionar, que este amor é tão relativo.

            Superada essa primeira premissa, vamos ao segundo verso: “ é impossível ser feliz sozinho.” Partimos da ideia de que sem o “amor” do poeta, não é possível ser feliz sozinho. Então, como tenho vivido meus dias de solteiro? Eterna lamúria? Seria uma eterna busca de satisfação pessoal esse outro, que assumo ter sido escopo nos últimos anos? O que seria isso senão mais um constructo social para afirmar características outras de fundamentação de uma existência em sociedade? Eu acho que poderia aprender, como tenho feito, a buscar uma alternativa para a felicidade compartilhada – como quer o poeta e como quer os outros que nos cercam – sem provocar um juízo interno de depreciação do que realmente foi perquerido ou alcançado. Os de fora diriam ser frustração. Não me afasto dela, mas entendo que a frustração é parte de um amor não alcançado e não a falta dele. Ele está sempre perto, mas para a “falta” dele existe a alternância de algo entre amor e contentamento. O que seria? Para isso teria de saber o que é realmente esse amor fundamental.

            O amor é bom, não há dúvida nisto. A questão é atribuir a um outro a rendição de nossos traumas. Saber viver é fundamental, com amor ou sem esse amor, é uma questão optativa que vislumbra a felicidade. Amor nem sempre é meta, é meio.

Saber viver esse dia 12 de junho é uma questão de convicção íntima. Estar sozinho é um meio de adquirir a sua felicidade. Não à toa o aforismo “meglio solo que malo acompanhagto” constutui também uma máxima verdadeira. Não menos falaciosa, mas não tão insidiosa. Saber amar, além de tudo, é saber viver.

1 Comentário

  1. Que interessante essa questão, Roberto! Adorei o texto. Minha opinião é que problematizar essa questão com base em um dualismo não nos fornece uma resposta satisfatória do problema – se é que existe uma resposta. Às vezes, achamos que só há uma resposta, um caminho, mas podem existir caminhos contraditórios. É possível sim estar bem sozinho, e sentir a necessidade de ter alguém. Por quê não?

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