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O último colóquio com o sol

O sol me disse que ia parar de brilhar. Perguntei por que a mim essa confissão. Que esperasse minha formatura, o encontro com minha mãe ou ao menos me deixasse sentar a penteadeira pela última vez. O que faria ele me perguntou. Pedi que me desse mais tempo para pensar; uma lua seria pouco tempo para raciocinar.
Peguei a xícara com o café ainda morno que esperara pelo término de nossa conversa. Ficamos pouco minutos nesse colóquio. O suficiente para esfriar o café e me causar a maior aflição de minha vida. Seria o mais novo filme de Win Wanders uma premonição antecipatória? Eu falara que gostaria de ver esse filme. Seria um castigo? Castigo? É, poderia ser se eu fosse um cristão normal. Mas eu era um cristão já arrependido de tudo. Não, não seria o grande complô que sempre me cercara. Não tinha nada a ver com o que sempre imaginara em minhas anotações pueris; aqueles papéis amarelos.
Ele não voltou a falar comigo. E disse que não tinha a ver com carpe diem. Tinha a ver com sabedoria. Mas eu nunca tive que decidir com cabeça. Sempre agi com sofreguidão. Nunca guardava o vinho para o dia seguinte. O que faria? A geladeira estava vazia. Sem vinhos nem alimento; nem alento.
“Eu me esquentaria ao ponto de uma ebulição extraordinária. Não sobraria nada. Incorporei os desejos revoltosos do Deus criador!” E me disse que não esperaria muito. Que eu teria tempo suficiente para tentar encontrar uma saída. Logo agora, que eu queria tanto a vida, depois de ontem, da notícia do câncer. E a minha pequena hortelã na garagem: morreria seca; os galhos ressequiriam em questões de milésimos de segundo. Deixaria minha hortelãzinha lá sozinha?
Que notícia daria a minha melhor amiga: o câncer ou o plano maléfico do sol?
Pedi uma nova audiência. Queria falar para ele sobre minha hortelã, meu câncer. Quem salvaria primeiro? Pedi que ele não queimasse tudo de uma vez; que purgasse seu ódio com vagar. Pedi que reconsiderasse tudo, que não se esquentasse tanto. Ri de minha própria piada sem destinatário, ri de mim na tentativa de entender o que era vida realmente.
O dia passou, a noite chegou, mas logo estava para ser o dia. Mas houve um eclipse, uma mudança repentina em tudo. O dia se escureceu. O que mais poderia fazer sem o calor do sol e o brilho de minha pequena hortelã? Pedi que ele aparecesse. Não achava meus olhos na escuridão daquele despautério solar. Não podia dar um passo a frente. Não havia estrelas, nem a lua, tampouco um asteróide desatencioso. Não havia um pensamento a se considerar. Nada parecia funcionar. Nem baterias havia por perto. Comecei a sentir um frio na alma. Mas não sabia se era o esfriamento final ou o sinal do câncer a despertar dento de mim. Pelo menos o sol não se queimou por inteiro. Deixou que sentíssemos falta pela sua ausência.

1 Comentário

  1. tiagosoraggi disse:

    Qual a morte que dói mais? a morte da asusencia? sera que morrer doi, será que queima?o que sei deste maravilhoso texto é que a morte amorna, alenta… Me senti morno o tempo inteiro! estava acalentado por estas palavras perfeitas e quentes!

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