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Um gozo para viver

Toda noite, antes de dormir, ele se entregava a Onan. Era quase automático! Nesse automatismo ele perdia um pouco de si (o que seria restaurado no dia seguinte), mas era nessa perda de fluido que ele se refestelava por ser só ele mesmo. Não precisava de um mortal. Onan se ia, e ele ficava sozinho num pensamento quase onírico sobre existência. _ O que fazer agora vazio?

Ele se cobre violentamente com o lençol da ignorância. Perde completamente o sentido do instante. Ele se enche de uma escuridão e silêncio profundos. Não há prazer nesse logo depois.

Ele faz isso para tentar viver o outro dia que é sempre um recomeço. A vontade de  desistir se vai no impulso para fora: a vida vai embora no chão do quarto escuro. Nenhum anteparo, nenhum receptáculo. Apenas o vazio misturado com o  prazer ignorado.

E ainda debaixo das cobertas, que escondem seu rosto (não sei dizer que feições aparenta ter), acha que aquilo é viver. O desperdício parece um alívio ao que nunca redundará em vida. Não interessa a ele se a terra (ou a meia) se engravida com sabedoria. O que interessava a ele era que, na perda, ele encontrava, todo dia , um vazio para ser sempre preenchido.

2 Comentários

  1. tiagosoraggi disse:

    Desta vez tu foi fundo demais, revelando carencias muito bem guardadas de seu fiel leitor… esse vazio que se acha que se pode preencher… ah… quanto mais se enche mas se acha espaço… sera que isso é sinal de vida? enquanto houver espacos vazios, há vida? pra preenche-lo? com a propria vida?

    E agora? como durmo?

  2. Nossa, foi baseado em mim e no meu onanismo?…risos… mas, se não fosse ele, o que seria nesta vida onde ninguém mais tem tempo para o próximo? Nada a ver, só para contar, lembrei-me do conto do João Silvério Trevisan, que está entre os 100 melhores contos brasileiros, chamado “O Onanista”… talvez, dentro de nós mesmos e no que é espirrado na meia, nos lençóis estejam boa parte da nossa verdade…
    Beijo,
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

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