O que te encanta?
19/10/2011
A Revista TRIP de outubro
25/10/2011

Desabafo de um amigo intimo!

Quero andar comigo mesmo para ver se consigo suportar meus defeitos. Os outros têm apontado muitos. Mas eu sempre me importei com minhas decisões, não estava muito preocupado com opiniões alheias. Nem ao menos tinha medo de encarar o espelho.

Depois que reiteradas vezes, em que a causa de um término de namoro resultava em dedos em minha direção, comecei a suspeitar de minha sinceridade.

Comecei a entender que não sou eu o dono da verdade, que não tenho que corrigir os vícios de linguagem, tampouco interromper os pensamentos dos outros. Tenho que ouvir, que assumir erros, a assunção de uma verdade de fora, outra. Eu tinha que fazer isso. E, estranhamente, isso parece com esse momento de ficar sozinho – mesmo que diante de meu computador – e parar o ritmo do que achava certo.

É difícil esse jogo com você mesmo, esse de arrumar arapucas para saber se verdadeiramente você cai nelas. Ando meio descrente desse meu “eu” catastrófico no qual me assusta a ideia de me mudar por completo e não fazer valer a máxima que norteava minha vida. Qual é essa bendita máxima? Acho que vou deixar essa pro final. Final?

A primeira coisa a fazer consiste em identificar os erros. Quais são meus erros? Poderia resumi-los no fato de eu ser muito chato, as coisas operam do meu jeito, levo tudo ao pé da letra, sou sensível demasiadamente, sou pessimista, tenho um sorriso forçado. E meu cheiro mais parece embriagar do que excitar. Com tudo isso só posso ser um superchato. Quem deveria de suportar tantos defeitos? Lá no fundo, admito que tenho assustadoramente me suportado – sem espelhos, sem reflexos em paredes de vidro, nos óculos dos outros…nos olhos dos outros. Acho que é isso! Poxa! Como deve ter sido duro para eu aceitar tudo isso. E não quero falar de qualidades. Logo quando pensava que sinceridade fosse a minha maior e melhor qualidade, eis que a vejo minando rapidamente. Não quero me ver agora no reflexo de um espelho – alem de estar mais velho estou quixotescamente imponderável.

Mas como terá sido tão ruim assim viver comigo mesmo, se tenho suportado o encargo da vida sem reclamações mais complexas. Se tenho amigos, tenho um celular que toca e que invariavelmente seria para dividir com um amigo tolas impressões da vida? Frugalidades que preenchem a vida de um certo sentido teleológico, isso tem sido o recheio de minha vida.

E agora, acuado, entre duas razoes que se acometem,  de uma doença chamada cumplicidade alheia, sou taxado de sério demais, de chato demais, de opinioso demais. É errado ter opiniões próprias? Minha professora de português me ensinou a fazer sempre uma leitura critica dos textos, meu pai sempre me alertou para confiar desconfiando, minha mãe me deu esse lado da escrita. Por que devo abandonar, de vez, esses ensinamentos?

(…)

A caminhada se prolonga com esse meu eu mesmo. É por demais silencioso esse vagar do pensamento concentrado em mim – é egoísta demais, penoso demais. Queria um espelho para ver se me reconheço; se tenho ainda aqueles olhos que mamãe sempre se dobrava as minhas chantagens. Eram chantagens? Será que eu já sabia manipular os desejos alheios ao ponto de só garantir minha felicidade? Não sei. Mas mais uma pergunta se amontoa às outras nessa caminhada que parece estar – sem tentar me apropriar do poeta – cheia de pedras. Agora resta saber se devo chutá-las ou construir minha torre. Mesmo assim, não consigo identificar ainda quem de fato sou eu!

5 Comentários

  1. Caro Erick, parece mais visceral!Sepulcral!Irreal!
    Obrigado!

  2. Nossa existe uma grande intensidade ao falarmos de nós, ainda mais pela ótica de um espelho que as vezes perdemos o foco e deixamos de olhar com certa frequência. Que está sensação intensa, de olhar triste, possa ensinar a quem lê, somos o que somos e não precisamos nos mudar, nos moldar, e vendo isso deixaremos o outro chegar perto de nós como ele é.
    Parabéns meu querido! Adorei.
    Beijos em seu coração.

  3. Beingerik disse:

    Mudar as vezes é necessário, mas não é fácil…

  4. Brunno disse:

    Eu não sei se tenho distanciamento suficiente para falar, mas esse será um problema sério para nós e nossos textos…
    É curioso sempre ler seus escritos, mesmo quando falam de algo que conheço há mais de 20 anos, como você e sua inquietude. Até para mim que conheço as variações, você sempre encontra um modo redizê-las, de lhes emprestar novas cores, tudo para parecer que são novas, embora sempre tenham morado aí. Eu, na verdade, gosto desse seu exercício constante, você tem um talento único para se expressar, parece uma fonte inesgotável.
    Parabéns.

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