Era para ser uma História de vida, mas virou um medíocre conto

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Era para ser uma História de vida, mas virou um medíocre conto

                         As flores do pêssego

 

Eles eram meus melhores amigos. Poderia dizer que era o mais próximo do grupo ou que me tornei o melhor amigo deles. Relembro as frases de outro amigo as quais diziam que família não se escolhe, mas amigos podem ser escolhidos. E eles me escolheram. Mas como lidar com isso tudo – inclusive com amizade – se eu ainda não conseguia entendê-los em sua principal luta?

(…)

A casa estava sempre cheia de amigos no final de semana. O grande jardim se abria em plantas selecionadas pela sua história e ascendência. Tinha um pinheiro que havia sido dado de presente no quinto aniversário de casamento; tinha a figueira que tinha sido trazida do sul; tinham as patas de elefante que se enfileiravam recepcionando todos os carros que ali chegavam. Elas todas tinham histórias porque cada um dos amigos se revezavam em trazer uma espécie nova e longínqua de lugares diferentes. Podia-se dizer que cada planta tinha seu testemunho assim como o meu; e cada novo galho, a cada nova estação estávamos lá todos juntos.

(…)

Sinto a necessidade de falar da verdade de cada um. Todos já se foram nesse momento. Eu ainda resisto por insistir que ainda vale a pena me lembrar dos grandes amigos que eles eram. Seria difícil para eu registrar além do que acontecia em nossas reuniões; as mesas sempre repletas de cerveja, vodka e muitos amigos.

O primeiro encontro foi por causa de um outro amigo que nos apresentou e, em tom pitoresco, os apresentou como um casal diferente. A árvore que meu amigo trouxera era uma muda de ipê amarelo. Ricardo, o mais velho, recebeu com os olhos brilhando o pequeno pedaço de vida enrolado em papel escuro, sobreposto por um outro papel amanteigado. As flores ainda indefinidas pareciam com qualquer tipo de planta, mas antes que o convidado se manifestasse, Rafael antecipou-se em dizer que era um ipê amarelo. Às vezes me perguntava como ele sabia dessas coisas. E talvez aí já surgisse a primeira característica dele, a antecipação e a capacidade de desvendar as coisas. Por isso nunca deixei que ele me desvendasse desde o começo, pois saberia que não admitiria o comportamento com o qual ele baseava sua vida. Por enquanto todos nós tínhamos um mesmo vício: a conversa solta em meio aos copos de cerveja. E foi nesse momento de descontração, paradoxalmente, parece que me deixei fechar-se um pouco; não revelei minhas primeiras impressões das coisas na primeira reunião. Observara tudo como se fosse normal para mim a incompreensão das coisas. As mãos se tocavam como se gatinhasse o bebê em solo desconhecido, pronto para se alinhar e depois conseguir as coisas por si só. Há sempre uma necessidade de descoberta, só assim nos tornamos humanos. E era de humanidade que precisava me encher naquele momento. Lembrava-se das minhas aulas no mestrado sobre alteridade. Essa coisa do outro, do mundo esteticamente diferente do outro. E lá estavam eles repletos de si. Enquanto eu me sentia o estranho, o fora do eixo. Mas qual era esse eixo que, naquele momento, deixava-me claudicante, como quem se equilibra sobre uma corda sobre um precipício de desinformação.

Não vale a pena, no momento, revelar o conteúdo dos diálogos, vez que ainda não me sentia preparado para comentá-los antes de minha própria transformação. O que deveria ser transformado? Continuei durante toda a cervejada, equilibrando-me nessa corda bamba, e ficava difícil imiscuir-me no diálogo deles.

(…)

Eles sempre ficavam em casa. Nunca deixavam de sair para emendar as festas dos outros. Os outros sempre saíam para as suas festas particulares. Mas eles ficavam na deles. Enquanto isso, eu ficava pensando como seria aquela vida. Como poderiam manejar os pensamentos, os desejos – em pensar nisso relembrava de minhas experiências normais e frustradas –, as coisas divididas, os anseios díspares. Lembrei de minha psicóloga falando sobre individualidades. Como se pode ser individualista quando uma perspectiva de continuidade se conforma sobre as diferentes camadas tectônicas do ser? Eu pensava que poderia conseguir as coisas do jeito que me propus a fazer: pela normalidade, pelo revés dos que os meus medos revelavam, pelo o que já tinha conquistado. Nunca imaginaria que eles conseguiriam se entender nessa confusão de sentimentos, nesse trabalho de ourives de uma relação nascida para ser bruta.

Mas o que poderia eu saber de felicidade se para mim o que tinha vivido era uma relação monogâmica centrada no outro, na maestria como ele falava, na elegância de suas dedos nos ares. Eu vivia eternamente a vida dele. Não tinha tempo para a individualidade. O que era isso pelo amor de Deus?

(…)

Eles tinham recebido uma muda da fruta do conde. Eu sempre gostei de fruta do conde. Trepava no antigo pé da escola e comia até a aula terminar. O mais velho deles tinha mestrado em Literatura e a força com que manejava a enxada parecia de um estivador comum. As costas largas lhe davam ainda toda a masculinidade que restara naqueles tantos anos de vida. Parecia ainda o jovem que nunca perdera o viço. Os músculos se dispunham como se fossem desenhados, cada nova investida contra a terra revelava outro músculo, cada novo músculo me distanciava do pensamento do que aquele homem seria capaz. Era forte. A certeza vinha também acompanhada da maestria como lidava com a terra; de longe aquele homem nada parecia entender de letras. Era um exemplo raro do que sempre tínhamos na cabeça quando se falava em homens-perfeitos. Mas éramos amigos e isso distanciava – isso é mais claro hoje – ainda meus pensamentos da possibilidade de conhecê-lo senão fosse pelo caminho da amizade. E por esse caminho percorri todas as nuances dessa amizade que se construía em mim e ao redor deles. Tornei-me, aos poucos, uma espécie de confidente especial.

(…)

O mais novo era o mais difícil. Tornar-me amigo de Miguel foi a parte menos incentivadora. Possessivo, mau, mais novo. Sempre tive certa falta de empatia com os mais novos. Sempre arrogantes com o conhecimento adquirido no dia anterior, sem ácido em seus comentários. Era a única pessoa, a princípio, que me fez pensar que aquele projeto não poderia dar certo.

Olhei para o pé de pêssego asiático e determinei se em 5 meses não florescesse as primeiras flores eu me distanciaria de todos eles. O pêssego tinha tudo para dar certo.  Fui otimista em ter escolhido o pêssego. Se tivesse escolhido o pé de lichia, aquela terra não teria sido fértil.

As flores  não nasceram até a festa de aniversário do mais velho. Passaram-se 7 meses e ninguém se deu conta das flores de pêssego tampouco da festa.

1 Comentário

  1. Não quero entender-me, pois colocaria em jogo toda uma brincadeira que Deus me fez preparar. Estava lúcido e completo. Mas eis que estas coisas boas não se misturam.
    E tive que passar por cima de mim mesmo para mostrar o quanto há de mim em mim ainda.
    Não quero ser rude ao poucos que me ouviram e entenderam o momento.
    Eu ainda erro ao acertar.
    Mas quero acabar com estas assunções de Jesus em algumas futuras situações.
    Perdoem-me aqueles aos quais eu não tiver me deixado bem claro.

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