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A pele que habito

A pele que habito ‏

 

Não sei se falo de recortes, de introspecção, de obsessão, de transexualismo ou de vaginoplastia…
Não sei como começar essa resenha sobre o novo filme de Almdóvar, A pele que habito. Mas sei que o filme é surpreendente. RoteiroSempre trazendo um artista com um charme notável na arte de interpretar.
Fiquei a pensar como seria mudar 180 graus em minha vida. Mudar meu interior. Acho que metalinguisticamente o filme fala sobre essa necessidade, em um ponto de nossa vida, de mudar, mesmo que por intervenção de terceiros – talvez vocês entendam ao final do filme ou a ler este texto.
Antônio Bandeiras retorna ao posto de galã. O tempo fora-lhe justo ainda mostrando certa, agora, a elegância de seus cabelos ligeiramente grisalhos. Mas este elemento ganha vida e realça os tons de psicopatia que Almodóvar quis lhe dar. Deu certo. A obsessão caiu-lhe como um delicioso segredo.
Segredo é o fio condutor deste filme tão inteligentemente costurado. As peças parecem retalhos soltos, nem precisa dizer que lá na frente vão se constituir o tecido de idéias e teses suscitadas no início.
O filme não é linear. Transporta-nos no tempo, como se fossemos verdadeiramente costurando as histórias do passado e presente.
Bem, não costumo narrar a história, mas dar certa ordem é interessante para entender o desalinhavar dessa costura.
Antônio Bandeiras é Robert um respeitado – não se descarta a déia de ser excêntrico – cirurgião plástico que anuncia sua descoberta. Uma pele, construída em laboratório, que se adapta à pele humana e se transforma numa pele mais resistente. Desnecessário dizer que é uma pele que não enruga. Chama-se Gal – mais tarde descobre-se que Gal era a última esposa dele.

Procurando a linearidade das coisas, entra em cena a moça cativa do médico, que não precisa muito para entender que se trata de um sequestro vez que não é espontânea sua estada por lá. Esta moça veste uma roupa especial que cobre todo seu corpo, uma segunda pele. Passa o dia a escrever em paredes, costurar retalhos em bonecos e praticar yoga.
O doutor Robert a mantém presa e, apesar de ter um controle monitorado por ele e por uma senhora cuidadora, uma espécie de enfermeira, ele adentra o quarto, sempre trancado sem muita resistência por parte da moça. Percebemos que a relação de cativeiro criou laços mais fortes do que a de um paciente e médico.
Admiração e atração encenavam uma ligeira aproximação entre criador e criatura. Seria uma versão moderna de Mery Shelley – O Frankstein? Pensei nisso agora. Deve have uma relação porque no final a condição quase sub-humana do cativo em que sempre aflora um ódio interno mortífero.

Bem, continuando com a história. Então o filme dá indicativos de que esta senhora – que é o grande trunfo de Almodóvar – tem um certo desafeto por essa paciente. Ficamos sabendo disso quando seu filho, vestido com roupas de carnaval, travestido de uma onça ou leopardo, entra na mansão. Dá-se entender que este filho fora criado numa favela, fala um portunhol o que nos leva a crer que tenha nascido no Brasil. Mas em pouco tempo, num desjejum feito pelos dois, na cozinha, o noticiário da TV revela o rosto do filho como suposto ladrão de uma joalheria. De repente, mãe e filho se desentendem, fato que comprova que nunca foram unidos, e ele a prende a mãe a cadeira com cordas. E diante dos monitores de TV que acompanhavam a paciente 24 horas, percebemos que ele, ao olhar para a mulher, vê certa semelhança com a antiga esposa do Dr. Robert. Ele encontra a chave da porta. Entra no quarto monitorado e estupra Vera, a cativa. Antes que possamos entender o passado na pouca conversa entre o estrupador e Vera, Dr. Robert entra no quarto e mata o leopardo ensandecido. O abraço entre a vítima e o Dr. Robert nos leva a crer que não mais existirá o cárcere da cativa. As portas seriam abertas.
Então o filme volta em seis anos no passado. Para explicar alguns fatos. Antes disso somos convidados a conhecer a história do Dr. Robert pela senhora enfermeira que depois de ter visto o filho assassinado, conta toda essa história para Vera. O que nos deixa estarrecido com o que seria o princípio da sociopatia do doutor.
Acho que vou deixar esses detalhes pro arremate final; a derradeira costura.
Bem, voltemos ao passado então. Uma festa num casarão. Dr. Robert confraternizava com amigos e a filha ao longe se refestelava com os amigos. De repente todos estão numa espécie de suruba juvenil, no quintal deste casarão. Dr. Robert sente a ausência da filha no salão e empreende uma busca a filha nesse grande jardim. Entre tantos corpos hedonistas, encontras os rastros deixados pela filha: os sapatos, a jaqueta…enfim o corpo desfalecido da filha. A acordá-la a moça tem um ataque nervoso. No futuro sabemos que a moça reconhece no pais a figura do estuprador. Mais na frente sabemos que a moça enlouquece se suicida jogando-se da janela, que nem fez a mãe – revelação que vou esconder para aqueles que assistirem ao filme.
O filme parece mostra seu mote, ou seu propósito aqui: o pai começa uma perseguição para descobrir quem estuprou a filha. Ao descobrir o cara que a estuprou, segue-o e o sequestra. Mantém-no cativo. Até que reveladoramente o Dr. Robert em conjunto com uma equipe de médicos fazem uma misteriosa cirurgia de vaginoplastia.
Acho que já falei tudo. As imagens vem a cabeça num vórtice. Você não acredita que ele tenha feito a cirurgia, que tenha-o (a) mantido em cativo e tenha se apaixonado por essa Frankestein moderna. Almodóvar confunde e clareia uma relação que a doutrina penal já descrevera: a paixão surgida entre seqüestrador e seqüestrado. Mas ele vai além das medidas que conhecemos. Ele nos embriaga com tanta emoção que fica difícil de duvidar de nossas próprias idiossincrasias.
Seu falar do restante , ou esclarecer mais pontos ficará sem motivação ver o filme. Por esta razão recomendo que vejam a película e apreciem as interpretações magníficas da moça cativa, da velha enfermeira e do esmero lapidador de Almodóvar, nesse filme surpreendente.
Ah, não tente adivinhar o fim. Assista!

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