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Autoanálise

            Estou aqui fiel ao computador; ou melhor, ao reflexo do visor do computador. Nele vou começar a implicar comigo mesmo, começando a me perguntar se sou normal. Dizem que sim; e por mais que saiba que essas coisas mexem conosco, relembrei-me uma passagem de minha vida na qual aprendi algumas mensagens sobre autoestima. Algumas delas retratam que a personalidade deve ser demonstrada naturalmente, infligida mesmo quando da necessidade da mentira.

            Bem, personalidade tem a ver com caráter; algo próprio da pessoa. Decerto há as personalidades de caráter conturbado, de conflituoso embate pessoal, de depressão, de instinto criminal. Há aquelas, também, conturbadas com experiências traumáticas e experiências infelizes. Mas no fundo, permanece no criminoso, no maníaco depressivo, no frustrado emocional algum resquício de sanidade mental que o liga ao mundo atual, mesmo num último momento. Esse laço psico-temporal mantém implicações com as manifestações correntes. Esse liame com a natureza humana obriga-o a dirimir atitudes violentas, atos mais danosos; bem como o faz desistir de um crime, por exemplo, tentando o desfazer. O arrependimento surge como uma força maior; um arrebatamento da personalidade intrínseca do ser humano no reconhecimento da sua personalidade pretérita, incorporando sua verdadeira persona. Então fica em nossa memória o registro do exagero, do bizarro e do possível conserto. É assim que funciona a cabeça quando o travesseiro é esse elo psico-temporal. Aí, me pergunto: quem nunca teve sua personalidade extrapolada por não se deixar senhor do momento? Muitos vão marcar sim nesse quadrado: 

            Meu reflexo na tela espelhada do micro insiste em perguntar enquanto escrevo: “– Você é ciumento?” Dia desses, outro consorte, num outro momento passado de minha vida, deu-me como presente um pequeno livro sobre ciúmes. O presente me pegou de arroubo; um sentimento interno de descontrole invadiu-me, causando certo rubor em minha face.

             No entanto, às vezes, temos que agir como se fôssemos normais e reagir como se tudo fosse uma brincadeira. Encarei o desafio – agora me lembro de outro ensinamento sobre autoestima: sempre ouvir acerca de nossos defeitos –; pus-me a ler o pequeno manual. Lá, em pequenas e breves palavras o livro resumia seu pensamento em se fazer tudo com moderação, o famigerado meio-termo.

          Então, pus-me a perguntar como amar em conta-gotas…? Ela, a autora, não falava. A partir de então, deixei meu amor desacorrentado, livre de minhas intolerâncias, meus medos… Enfim tudo que de ruim havia em minha forma de amar. Segui a cartilha do amor sem ciúmes do pequeno livro que ganhei. No final de uma longa relação sem preocupações e usando do amor que liberta – segundo o livreto de como viver que ganhei – acabei despertando em meu consorte o desejo de conhecer outras pessoas, a aventura do amor libertário. O amor libertário no qual o compromisso se encontra na clandestinidade; na discrição das paredes do quarto; no comedimento das palavras sutis; no simples fato da existência, entre outras cousas menos relevantes. Ainda assim a primeira pergunta subsiste – insiste o reflexo.

            Respondo ao meu inoportuno amigo com um exemplo rasteiro como forma de garantir uma percepção clara de minha objetividade. Você não empresta uma peça intima de seu vestuário não simplesmente por causa de higiene, sim por causa de um cuidado extremo das coisas que são suas. Walt Whitman dava seus melhores livros para seus amigos, mas aí subsista um senso de compartilhar conhecimento. Existem pessoas que emprestam as coisas (livros, discos, calcinhas, cuecas, cd’s… namorados) com muitas reservas, por quê? Onde fica o amor libertário da fulana psicóloga?Apenas para não dizer que sou muito louco, admito meu pouco desconhecimento sobre meu lado mediúnico, que me leva ao ponto máximo da projeção astral e quem me conduz ao estado alfa das coisas para confessar que não sou ciumento. Quem não for Buda tampouco seguidor ferrenho de sua filosofia que marque com um “X” nesse quadrado:   

             Prossigo na minha autoanálise. Sei de meus defeitos d’alma, mas quem não os tem. Todos nós somos diferentes. Hoje em dia, proclama-se tanto a favor do respeito às diferenças. José Ângelo Gaiarsa já mencionara em seus estudos – quando escrevia sobre amor – esse aspecto de querermos as coisas como queremos e não admitimos a natureza explicita de cada ser humano. De fato queremos sempre ser Proclusto; com nossa mesa medidora de nossos anseios personificados na pessoa amada.

               Aprendi – digo isto olhando para o reflexo desafiador – que se aprende com a Vida. Quando se é velho e se admite a experiência da vida, há dois tipos de pessoas: a primeira coleciona rugas de tanto arrependimento por viver de forma adestrada; a segunda, em que pese às rugas, vive sempre contando causos da vida, de sua vida. Esta vivida com todos os sabores e dissabores que ela promovia, tentando apenas viver. Quem quiser ser a segunda pessoa, por favor, marque.

            Curtas palavras de autoestima enchem suas gavetas e você não sabe o que fazer com todas elas. À vezes bota no bolso; outras tantas guardam nos bolsos dos outros. Esquece-se de por em prática um arsenal de impropérios que te dizem o que é certo e errado. Mas internamente sua conduta assumida é certa e guia se tornando dono de seus próprios erros e acertos. A vida continua e os méritos de algumas conquistas são celebrados de forma pomposa. Mas as quedas são inevitáveis; essas barreiras que nos tornam mais seres humanos; pensam ser necessária, mas são apenas provas medíocres.

            A vida não deveria ter caminhos, mas possibilidades de ver sempre novos caminhos.

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