Entrevista ao MLE (Movimento pela Liberdade para Educar)

Catarse
04/03/2015
Escritas em curso no WATTPAD
30/04/2016

Entrevista ao MLE (Movimento pela Liberdade para Educar)

Literatura e Diversidade Sexual

Texto de Elisa Dourado
Revisão de Renata Aquino

Na contramão da atuação de parlamentares que vêm tentando limar as discussões de gênero em sala de aula, um projeto inovador luta pela manutenção da escola enquanto espaço de pluralidade e discussão: o projeto Literatura e Diversidade Sexual, do autor Roberto Muniz Dias, contemplado pela Bolsa de Fomento à Literatura da Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Uma verdadeira ‘caravana da literatura’ percorrerá seis cidades – Belém, Manaus, Fortaleza, Teresina, Brasília e Goiânia – elaborando oficinas, palestras e outras atividades para discutir questões sobre diversidade sexual e de gênero com estudantes do terceiro ano de escolas públicas.

O idealizador do projeto, Roberto Muniz Dias, é escritor, professor, graduado em Direito e Licenciado em Letras Português e Inglês e mestre em Literatura pela Universidade Nacional de Brasília. O piauiense radicado em Brasília é um dos nomes de destaque da literatura LGBT brasileira. As atividades propostas por Roberto são divididas em três dias: no primeiro, os estudantes, professores e a comunidade escolar dos colégios selecionados participam de uma palestra introdutória, em que o autor trata da questão do bullying nas escolas, apresenta dados de violência discriminatória e esclarece as dúvidas mais frequentes em relação a conceitos como identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico. No segundo, cada aluno recebe um kit com 5 livros do autor que abordam temas que vão da descoberta da sexualidade à poliafetividade. Nesses dois dias, são construídas oficinas de escrita ou de teatro.

As cidades foram escolhidas por representarem regiões tradicionalmente deixadas de lado dos grandes circuitos culturais. São regiões que apresentam grandes déficits de leitura entre jovens, segundo dados do III Retratos de Leitura no Brasil. Conversamos com Roberto ontem (12/04/16) e, no meio de tanta turbulência política e expansão do conservadorismo no legislativo de todos os âmbitos da União, escutar o seu relato proporciona um verdadeiro sentimento de alívio.

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MLE: Como surgiu a ideia do seu projeto?

Roberto: “Isso remonta a 2012, quando eu era sócio da editora Escândalo. A gente recebeu um convite de um professor do interior do Ceará, a cidade de Itatira, o Wesley Sales. Ele, professor de matemática, sensibilizou-se com o assunto e fez um projeto com esse mesmo nome (Literatura e Diversidade Sexual nas Escolas). Ele fazia um trabalho de conscientização dos alunos de diversos temas sobre sexualidade e leituras de matérias que fornecemos a ele. E ficou a ideia. Aí vieram os editais do Ministério da Cultura.”

Segundo Roberto, a bolsa originalmente tem como objetivo estimular a produção literária no país, promovendo e dando destaque aos autores selecionados. No entanto, Roberto decidiu usar os recursos do edital para realizar um projeto que tivesse um alcance e um impacto maiores:

“Eu já assumi isso pra mim. Não vou ficar conhecido, meu trabalho não vai ficar conhecido como escritor. Mas, talvez como esse mediador do assunto. Espero que haja um efeito cadeia. No segundo encontro em Manaus, por exemplo, os alunos vieram para a oficina. A oficina na verdade é limitada a menos alunos, mas eles vieram e eu abri. Os alunos vieram, não pude negar a participação deles.”


MLE: Em algumas cidades contempladas no projeto, há PLs tramitando nas Câmaras Municipais como em Manaus e Goiânia contra a inclusão de discussões de gênero em sala de aula. De que modo isso interferiu no seu trabalho?

Roberto: Não chegou a impedir. Mas em Goiânia, a Secretaria de Educação mandou um ofício solicitando a avaliação prévia do material. Eu respondi prontamente e mandei pra eles a cartilha que a gente confeccionou, com a explicação do projeto e do que são constituídos os nossos debates e a oficina de escrita. Ainda estamos esperando o parecer deles para poder ir a Goiânia. Houve problemas com a coordenação em outros locais. A resistência provinha principalmente em relação a questões religiosas.

MLE: Como era o procedimento de escolha das escolas?

Roberto: Primeiro, fiz contato com as Secretarias de Educação e professores, com bastante antecedência. Em Teresina, a primeira cidade visitada, já havia um Núcleo de Diversidade que trabalhava com o acolhimento de alunos diferentes, alunos com deficiências, alunos LGBT, enfim. Foi muito interessante, os alunos estavam muito motivados e participaram de forma plena. Eles foram fazendo a propaganda, falando, e isso trouxe a comunidade pedagógica e escolar para as atividades. Isso me ajudou a consolidar a metodologia de procedimento nas outras cidades: o primeiro encontro com a presença da comunidade escolar, os outros mais restritos aos alunos. Eu fiquei muito impressionado com a boa vontade dos professores em relação à temática e com o interesse dos alunos.

MLE: Você poderia contar um pouco mais sobre as atividades desenvolvidas?

Roberto: Em Belém desenvolvi mais a atividade de Teatro; os alunos participaram bastante. Foi muito interessante, muito rica a experiência. Em cada encontro existem situações muito particulares. Em Belém foi muito tocante. O ambiente é muito acolhedor, receptivo, é um espaço de fala dos alunos, principalmente na oficina da escrita, é uma verdadeira empatia, os adolescentes se sentem aptos e encorajados a falar sobre si. Eles são provocados a escrever sobre os temas que foram tratados. E teve uma aluna que manifestou publicamente as dificuldades que enfrentava por sua sexualidade diferente. Essas coisas acontecem espontaneamente. Em Manaus, a última viagem, também foi muito interessante. Eu ampliei o primeiro contato, houve participação de mais professores e alunos, foram oito horas no primeiro dia. Mantive a mesma dinâmica em relação aos livros, cada aluno recebe um kit de cinco livros além da cartilha com a explicação das atividades. É sempre assim: há um primeiro encontro, com a palestra e, se der, com a leitura de trechos dos livros. Depois, as atividades: a oficina de escrita ou o teatro.

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Cartilha com explicação sobre as atividades – fonte: Facebook do projeto

MLE: Sobre os efeitos da sua passagem: na página de Facebook do projeto há um post comemorando as respostas positivas dos colégios em Teresina e em Manaus. Você poderia falar um pouco mais sobre isso?

Roberto: Eu fiquei muito feliz por saber que em Teresina o pessoal da Escola Estadual Benjamin Batista tomou a iniciativa de fazer com os alunos a encenação e a montagem do meu texto. Eles estão continuando com as discussões depois da minha passagem por lá. Isso é muito legal. Também vão fazer grupos de leitura da Trilogia do Desejo. Em Manaus, Escola Estadual Nossa Senhora Aparecida me relataram da criação de um grupo de leitura e discussão dos textos.

Em Manaus aconteceu outro momento emocionante: uma menina de 16 anos se levantou e declarou ser travesti; e por todas as razões que eu estava colocando no momento – geralmente eu inicio a palestra com estatísticas sobre a violência de cunho discriminatório – ela não deveria estar ali: a escola acaba sendo um ambiente que segrega e exclui os alunos, quanto mais diferentes, mais difícil a convivência. Ela levantou e se declarou travesti; e isso foi muito bonito, porque ela é um exemplo vivo do que eu estava lá teorizando. Foi um momento emocionante. Quem é LGBT sabe do que eu tô falando, porque vive isso na pele todos os dias, na rua, em casa, na sala de aula. Quem não é, às vezes não tem conhecimento desses dados.

Sobre isso, acho muito importante confrontar as pessoas no sentido de colocar elas face a face com a problemática apresentada, assim elas criam empatia. O que acontece muito é que existe um senso comum que afirma, por exemplo, que gay é afeminado. Que a “ideologia de gênero” vai mudar os seus filhos. Então não há uma reflexão. Quando falo de gênero, mostro que não e uma questão LGBT, é uma questão de Direitos Humanos. Eu desconstruo essa ideia de que os estudos das questões de gênero estão ligados apenas ao mundo LGBT. Eu tento fazer isso desde o começo: Gênero não é ideologia, ideologia é o machismo. Os estudos e as teorias de gênero são estudos culturais em relação ao comportamento do que é ser feminino e masculino.

MLE: Sobre a tal “ideologia de gênero”, também discutimos o mau uso dessa expressão em outros textos e vídeo no nosso blog. 

Roberto: Nas palestras, também conversamos sobre a violência linguística, como a violência pode se perpetuar de maneira mais sutil dentro da linguagem. A ideia que eu tento transmitir é: respeito com o tema, não é brincadeira. Os alunos até agora foram muito receptivos, interessados, reflexivos. Tem sido uma experiência muito interessante. Eu inclui a Lei Antibullying, a Lei 13.185/15(lei que responsabiliza a escola e família por omissão em casos de bullying) nas minhas palestras. Eu falo disso porque essas questões são muito presentes no cotidiano escolar e fomentam lá pra frente essas ações de violência homofóbica. Se temos cidadãos conscientes desse processo, da violência que começa com a discriminação da escola, talvez possamos diminuir esses números nas estatísticas. Tudo isso é discutido no projeto.

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ESCOLA QUE AGREGA E DISCUTE

Conversamos, também, sobre a escola enquanto espaço do confronto de ideias, do encontro entre as diferenças. Sobre esse aspecto, Roberto é contundente:

“Não tem mais como esperar do professor uma postura inerte, que ele não observe a pratica social que o aluno traz no convívio da casa, da rua e da escola. Não tem mais como o professor se manter inerte em relação a esses assuntos. O professor não pode ser um arcabouço de valores retrógrados. Ele precisa rever os seus conceitos em relação ao abrigamento do aluno. A questão da escola hoje em dia não é mais a centralidade do professor. É a horizontalidade. O professor tem que ter essa consciência. E é difícil, porque alguns são arraigados desses preconceitos, de gênero, religião. A questão do ensino religioso na sala de aula, na escola, ela é de caráter obrigatório, mas a matricula é facultativa. Só que a gente sempre pensando na questão da religiosidade a partir da polarização entre protestantes e católicos. E esquece das outras. O aluno quer ter conhecimento sobre religiosidade, não sobre uma única religião. Isso tem que ser discutido. Eu soube de um relato da Secretaria de Educação de um estado que um professor fazia orações em sala de aula, que os alunos tinham que fazer essa oração. Enfim, é preciso repensar esses espaços. A escola tem que ser um espaço de diálogo. Então se eu quero falar de ensino religioso, que eu fale sobre todas as religiões, as religiões de matriz africana, outras perspectivas, não só a cristã.(…). Tem professores que levam todo tipo de preconceito pra sala de aula. Quem sofre com isso é o aluno. Por isso faço questão de que nesses primeiros encontros haja a presença dos professores. Senti resistência por parte de alguns professores. Numa dessas palestras, por exemplo, participou uma senhora que funcionava como bedel. Ela era ouvinte da coordenação. Só que a professora que estava comigo, me dando suporte, teve a clarividência de fazer uma avaliação final feita pelos alunos e os demais participantes. Foi muito positiva a avaliação.“

O PAPEL DA LITERATURA NA FORMAÇÃO DA CIDADANIA

MLE: De que maneira a literatura pode contribuir na formação cidadã dos alunos?

Roberto: “Isso eu te respondo prontamente. É a questão da representatividade: quando a gente se vê na história de uma forma positiva, em que seus problemas são enfrentados, mas existe uma perspectiva de respeito, de futuro, isso muda muito pra quem tá se descobrindo. Porque o que se repassa no senso comum é a convivência difícil com quem é LGBT, porque é o diferente que tem problemas. Então, se eu tenho uma literatura representativa de forma positiva em relação a esse sujeito, eu vou ler com outros olhos, vou tirar qualquer resquício de culpa, de medo. A literatura com seus protagonistas, enfatizando uma representatividade positiva em relação a esses sujeitos, é muito importante para esses alunos, adolescentes que estão criando a sua identidade como seres humanos. E para o que se enquadra nos parâmetros, vamos dizer, tradicionais, é uma questão de observar o outro. Esse exercício também é construídor de direitos, de respeito, de convivência. Tem esses dois vieses.”

Essa semana, a viagem segue a Fortaleza, depois a Brasília e Goiânia. As muitas histórias coletadas durante a caravana serão material de livro a ser elaborado. A conversa com Roberto, junto com as notícias sobre as escolas ocupadas no Rio de Janeiro, são um sopro de ar fresco.

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