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Cores e dores ou vice e versa

Engraçado que demorei tanto tempo para aceitar minha transformação, desde a mais tenra idade; os pequenos traumas, as pequenas vitórias, descobertas estranhas. Mas consegui viver até então, passando por diversas mudanças: os pelos, a voz, os órgãos genitais. Embora tudo mudasse, eu me aceitava plenamente. Aprendi o que era fenótipo. Cresci. Estacionei em mudanças externas. Agora vinham mudanças internas. Não sabia, a priori, lidar com elas vez que nem as entendia. Eu precisava de uma explicação ou fundamento. Passei muito tempo procurando respostas para perguntas muito difíceis. Algumas respostas chegaram a mim de forma simples, outras requeriam outras mudanças em mim. Isso se devia como os outros me viam. Era importante esta afirmação do grupo ao qual pertencia. Por mais que estas dúvidas fossem dolorosas, eu tinha que conviver com esta angústia. Depois aprendi que tanta dúvida e angústia acumulada me causaram problemas psicossomáticos e até físicos. Às vezes sentia uma dor mesmo forte dentro de mim. Era muito forte ao ponto de provocar um desentendimento interno, um desajuste que revirava minhas entranhas e meu próprio existir. Por muito tempo aprendi que existia culpa por detrás do que sentia – ao exagero de nominá-lo pecado. Aí doía mais esta condição de ser. Briguei comigo mesmo e o apaziguamento vinha com a sublimação. Meu pai me pediu sublimação. Eu aprendi que sublimação exigia uma alternativa ao meu transcurso em dúvida e pecado. Mas não significava algo bom, tranquilo, pacífico. Minha luta passou a ser externa, verbal, corporal. Eu procurava ainda um fundamento, mas era um fundamento para a felicidade. Nos embates linguísticos, meu Pai e eu brigávamos pela sublimação e pela liberdade respectivamente. Embora eu não soubesse que a luta dele era por minha liberdade: a liberdade contra o preconceito dos outros. Não nos entendíamos porque ele também não sabia lidar com minha diferença. Então desisti de brigar, de apanhar de seu cinturão. Saí de casa para que pudesse experimentar a vida em si, com todas as suas cores e dores. Reconheço que encontrei o preconceito que meu Pai tanto lutava contra, mas acabei por apaziguar minhas condutas internas e externas. Equilibrei. O preconceito vivia seu espaço, enquanto eu vivia o amor. Achei o amor em minha vida. Parecia que estava pronto para viver o que todos viviam. Casei. Sim, casei. Tive até filhos emprestados. E me separei, quando não foi possível enfrentar os problemas que qualquer casal poderia passar. Eu passei. E tantos anos se passaram. Parecia que navegava na direção certa. A bússola interna conduzia aos lugares certos, apesar de nem sempre se sentir tão achado. Perdia-me na solidão também, como qualquer um se perderia. Fazia parte do processo de crescimento. Cresci e amadureci. Vi alguns sucessos e conquistas e sou testemunha contemporânea deles. Felicidade? Seria um objetivo? Acho que ela aparece quando estou sorrindo, quando estou liberto, quando estou bem comigo mesmo. Mas hoje em dia, tem sido tão difícil ser o que sou. Há um recrudescimento da ignorância ou seria culpa de nossa visível felicidade alcançada? A grande parada que ostenta seus corpos, cartazes e que ainda luta pela continuidade do progresso. Não podemos parar o progresso social e humano. Não há mais tempo para guerra. Mas parece que vivemos um novo holocausto, silencioso, novamente discriminatório. A eugenia. Não somos vistos como aperfeiçoamento, esta mais para amaldiçoamento. A culpa e o pecado emergiram novamente, quando afogados por uma necessidade de respeito e igualdade. E agora reaparecem reivindicando a eugenia disfarçada de prenúncio de desgraça. Lá vem de novo aquela dor, mas que contunde mais quando eu ainda descobrira minha vocação humana. E agora parece que há um movimento contrário, para que meu devir seja interrompido por uma vontade divina que aprendi que mais libertava do que aprisionava. Vivo de novo a contradição de discursos, como se tivesse que performar uma polifonia, uma dualidade de vozes dentro de mim, que exigia de mim a camuflagem. Camuflar? Agora? Depois que estabilizei o homem que sou em mim, que descobri o amor, que entendi meu propósito devo voltar a um estágio de enrustimento da alma? Pedem para que eu volte ao armário, mas como se nunca me escondi dos monstros lá dentro. Sempre os encarei como verdadeiro destino desta condição humana: o enfrentamento da dor e de qualquer forma de cerceamento de liberdade. Logo agora, que meu falecido Pai entendeu que não havia flagelo, nem dúvida… Não pode ser. Logo agora que consegui chegar perto da felicidade. Logo agora que posso continuar minha experiência de vida numa prole escolhida entre o amor e a caridade, ou altruísmo ou, verdadeiramente, vocação para a paternidade. Não. Não pode ser. Querem que me guarde, que me cale, que deixe de ser feliz e por quê? Apenas porque entendi o meu devir? Não. Não pode ser. Querem novamente o extermínio impune pelo ódio. Nem me conhecem, nem sabem o que eu contribuí com minha arte, minha carne. E vem agora me exigir o silêncio de me corpo? Não é assim. Não é na ponta de uma faca ou na ponta dos dedos que vamos deixar de expressar nossa vivência. A violência é burra, ignorante e covarde. E de pensar que a cada dia um dos meus é obrigado a silenciar seu corpo, sua expressão, sua experiência de vida. Não. Não é assim, pois eu lutei muito para esse estágio atual – ainda que não saiba verdadeiramente desse nosso propósito –, mas não tive que refutar a existência do outro. Aliás, eu acredito numa divindade alegre, completamente alegre. Ela está mais para um olhar direto para nós, do que um olhar de soslaio. Eu acredito numa liberdade inominada – daquelas que não precisamos colocar rótulos porque estes valorizam e assim descriminam os que a tem e que a entendem. Aí, segregam. E eu nunca segreguei minha alma de meu desejo humano, pelos menos não deixei. E não vai ser hoje, cônscio de minha condição liberta e humana que hei de deixar de viver minha experiência neste percurso da vida. Ela não prescinde de meus gostos e desgostos, ela apenas necessita de um sopro, um impulso para frente. Diante do futuro. Somos para o adiante e não para a dor que o passado causou!

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