AGENDA na Parada do ORGULHO LGBT de São Paulo
23/05/2016
16º Prêmio Cidadania em respeito à diversidade
30/05/2016

A experiência do DIGO

 

 

A experiência do DIGO foi um marco para a região centro-oeste  na perspectiva da discussão de assuntos como inclusão, diversidade sexual, expressão artísticas e culturais , bem como acerca de direito e cidadania. Claro, sem falar, sobre o cinema como meio de manifestação cultural, social e mediador das tantas discussões tão caras a nossa contemporaneidade.

 

A abertura oficial do evento contou com a participação da Vereadora Cristina Lopes Afonso que imprimiu à palestra um caráter de cunho pedagógico. A luta e as conquistas da população LGBT foram tematizadas com propriedade, pontuando os principais registros do movimento ao longo das últimas décadas do século XIX até o presente. Sua fala foi tão sincera quanta contundente, representando a luta de pessoas com históricos de preconceito, violências de gênero e sexo.  O evento começou com pé direito ao priorizar este histórico de conquistas pessoais e históricas.

Depois veio a doce voz sedutora da cantora Cacau Mila, artista local com simpatia que contagiou e emocionou todos presentes. De repente, todos estavam cantando com ela. Ponto positivo para a valorização da produção local e dos artistas autorais. Show memorável. Queria bis!

Saí da sala, depois de tirarmos a já tradicional self grupal. Momento em que oportunizei contato com a Dra. Cristina para falar sobre meu Projeto Literatura e Diversidade Sexual, aproveitando para viabilizar o projeto em Goiânia, vez que tive problemas com a SEDUC para desenvolver as atividades. Deixei com ela a cartilha do projeto e reforcei a importância de seu discurso na promoção de direitos d@s LGBT.

Desci para a participar da Oficina de Curta-metragem com o Professor Cláudio Bosco. Já estava atrasado, mas foi uma experiência inusitada. Me inscrevi na oficina com a esperança de realmente entrar em contato com este universo. Foi uma experiência tão insólita quanto difícil, porque mesmo que tenha facilidade com a escrita, a dinâmica da criação de um projeto fílmico é completamente diferente. Fiz a oficina ao lado de meu amigo cineasta Joe W. Bridges, que também contribuiu com suas impressões desde a elaboração da ideia inicial. Não foi fácil. O tema dado era Diversidade. Nada mais apropriado. Queríamos uma coisa pedagógica, que pudesse ensinar o engendramento do olhar para o Outro. Desistimos. Então, depois de várias discussões, saí o nosso (meu) – surpresa e orgulho – o primeiro curta-metragem. Foi emocionante debater, elaborar, construir um roteiro, storyline, claquetes, enfim filmar. Fiz uma ponta; experiência múltipla.

Foi o momento também para reencontrar o ator Mário Cardona, que conheci – embora ele não relembrasse de pronto – anos atrás na cidade de Teresina por conta de um projeto de dança que ele desenvolvia com uma cia de dança local. É uma pessoa doce, versátil e paciente. Digo paciente porque (ele participou da oficina de curta-metragem também) ele se portou como um gentleman – postura de bailarino que é – diante da pressão em se filmar em poucas horas um vídeo temático. Esse contato foi tão rico e promissor. Tão logo pudemos conversar, saímos com a linda e articula Bia (Beatrice Labaig) que nos levou para um barzinho nas proximidades. Conversamos sobre tudo. Falamos de projetos. Falamos do passado e de como crescemos durante este tempo nas carreiras artísticas. Filmes v foram feitos. Amores foram vividos.  E novos projetos foram formulados. Tempo propício para conversamos sobre a leitura dramática na qual Mario participaria, e antecipo, me presentearia com uma apresentação linda – mais tarde falarei sobre isso.

No dia seguinte, momento para a mostra competitiva e assistir aos filmes que foram selecionados na programação. Não é o caso de falar dos filmes, que tiveram algumas expectativas frustradas, mas que mostraram a pluralidade de desejos e corpos. A estética do prazer, do inusitado, do improviso e da plástica foi  usada e abusada pelos cineastas. Alguns filmes promoveram discussões acaloradas e de pronto já causaram disputas nos votos logo após suas exibições. Estava na torcida por dois filmes. Um deles por conta do Mário e o outro por conta do ator Tiago Rener, que também faria a leitura dramática de meu texto. Coração divido, mas ansioso para o dia seguinte.

 

A Volta da Pauliceia Desvairada : Poster

Fui convidado para duas atividades neste Projeto. O diretor Cristiano Sousa  apostou na parceria e prontamente aceitei o convite. Aliás, cada pessoa que participou deste evento merecia um aparte para relatar o quão elas se empenharam nas suas atividades, voluntariada, de forma ética, prestativa e eficiente. Todos cordiais e solícitos. Este registro não poderia deixar de mencionar estas características da organização. Tudo correu de forma organizada e pontual. Pois bem, uma das atividades era uma parceria com o cineasta e documentarista Lufe Steffen, que levou para a exibição não competitiva o seu documentário A volta da Paulicélia Desvairada. Assisti com o entusiasmo de quem via sua própria história contada. Lufe resgatou momentos em que eu frequentei com maior frequência a capital paulistana e nas quais encontrava o desejo dividido de viver uma sexualidade sem culpa e receios. Era um momento de descobertas e devaneios. O resgate de Lufe foi nostálgico por trazer memórias de lugares e pessoas que conheci durante aquele tempo de ponte aérea Teresina- São Paulo. Um filme necessário pela sua nostalgia e registo antropológico.

Gazelle - The Love Issue : Foto

Mas antes que pudesse participar do debate com o Lufe, sentei-me para ver o documentário Gazelle – The Love issue de César Terranova, mostrando a vida e os agitos do personagem alter-ego de Gazelle Paulo. O filme me tocou de uma forma. Entre tantas viagens do comissário de bordo Gazelle Paulo; ele aporta, depois de tantas andanças, em Teresina, minha cidade natal. Meus olhos começaram a marejar. Não bastasse reviver os lugares e as lembranças, Paulo, que narra o filme, relatava seu arrependimento de não poder viver e acompanhar presencialmente a rotina de seus entes queridos. Isso desencadeou em mim um choro copioso. Assumi a figura de Paulo que saiu cedo de Teresina por “achar que sua arte não comportaria em Teresina”. E não somos assim, tão grandes para caber no mundo? Não tinha ele que viver o mundo? Bem, eu senti a angústia da incompreensão e da necessidade de viver o mundo. Gazelle é um artista incomum, com personalidade singular. Saí, da sessão em completo desarranjo. O filme é singelo, forte e glamoroso. Fui direto procura-lo no facebook. Mandei mensagem para ele:

Completamente apaixonado por você, seu trabalho, sua sina, sua vida.

Recentemente, assisti à Gazelle e descobri que além do talento, temos algo em comum, ou melhor, muitas coisas em comum. Fui aeroviário, VASP e TAM, sou artista e Teresinense.

Cara! Você me fez chorar sobre nossa condição de cidadão do mundo, da fuga de Teresina pela incompreensão de nossa alma e pela necessidade de viver o mundo lá fora. Confesso que chorei na sua mais bela descrição da covardia que nos invade, quando percebemos que abandonamos, por algum tempo, nossas famílias neste novo caminho, e ao voltarmos somos apenas lembranças do que fomos e não pudemos ter.

Como artista, que também sou, quando custeamos, às duras penas nossa arte, somos tocados por este chamado.

Bem, são tantas coisas que Gazelle me tocou que tomei a liberdade de escrever-lhe algo.

Espero um dia poder bater um papo contigo. E quem sabe tirar umas fotos!

Grande beijo!

(But before I went to participate in the debate with Lufe, I sat down to watch the documentary Gazelle – The Love issue by  Caesar Terranova, displaying the life and the hype of the alter-ego of Gazelle Paulo. The film touched me in an intense way. Among many of Gazelle Paulo’s trips, he returns to Teresina, his hometown and mine too. I started to cry. Nonetheless he revives the places and memories, Paul, who narrates the film, reported his regret of not being able to live and follow the routine of their loved ones. It triggered in me a copious crying. I tried to walk in Paulo’s shoes who went out early the city to “find that his art did not fit in Teresina”. And aren’t we so big to not fit in the world? Wouldn’t he be able to live the world? Well, I felt the anguish of incomprehension and the need to live in the wild side. Gazelle is an unusual artist with an unique personality. I came out of the session in complete disarray. The film is simple, strong and glamorous. I went straight to facebook, searched for him and sent this message to him:

Completely in love with you, your work, your fate, your life.

Recently, I watched the Gazelle- The Love Issue and found that in addition to the artistic talent, we both had something in common, or rather many things in common. I worked at some air companies, VASP and TAM, I am also an artist and Teresina is my homeland as well.

Darling! You made me cry about our world citizen condition; escaping from Teresina and its tiny atmosphere, and the need to live in the outside of the ordinary life. I confess that I cried when you made the most beautiful description of cowardice that invades us when we realize that we abandoned, for some reason, our families for the new path to come, and when we return we are only memories of what we were and we could not archieve.

As an artist, when we make art, we are somehow touched by this inner call.

Well, there are so many things that Gazelle touched me that I took the liberty to write you something.

I hope one day we could have a chat. And maybe take some pictures!

Big kiss!)

Bem, o grande finalle chegou, o dia da leitura dramática de minha peça Uma cama quebrada. Antes disso, ensaiamos demoradamente. Virei diretor só pra ter que acompanhar o trabalho dos meninos. E como foi linda a preparação, as ideias em conjunto sendo trabalhadas com a experiência de cada um como se a colcha de retalhos (ou de chita que o galo colorido ganhou) fosse sendo alinhavada com despretensão e delicadeza. Hesitei com algumas partes que sempre me disseram ser dispensáveis. No entanto, Mário reforçou a importância das mensagens ali embutidas, importantes para a compreensão da dinâmica das personagens. Acho, que desde a leitura neste ensaio, ganhei mais motivação para entender o texto e vê-lo como algo pronto que precisava disso: novo fôlego.

Pausa para registro da leitura de Mário Cardona que emocionou a todos. Fazendo a personagem Pedro num momento de reflexão do que vivia, enquanto os atores Jonas Queiroz, Gabriel Torquatto, Tiago Rener e Rodrigo Ungarelli perfomarvam as personagens centrais. Atuações marcantes, profissionais e vibrantes. Mário imprimiu sua persona. Na fala final, já entrou em cena com os olhos chorosos. A voz embargada demonstrava toda a dramaticidade de Pedro. Incorporou o texto. Foi lindo. Foi emocionante. Ali eu percebi a força do texto. A cena final me deixou perplexo. Fora ensaiada e tudo mais, mas não sei como descrever aquela cena. Preciso rever tudo. Preciso sentir aquilo de novo.

Este festival foi um encontro de pessoas que vivem da arte de uma forma genuína e de real entrega. Todos envolvidos têm uma alma artística. Todos acreditavam na arte. Eu posso  não ter registrado um outro nome, mas não foi esquecimento. Cada um está registrado na memória afetiva e fílmica da minha câmera interna. O filme será guardado da forma mais segura possível, nem intempéries, nem o tempo vai deletar esta lembrança.

Que venha o DIGO 2017.

2 Comentários

  1. Gazelle Paulo disse:

    Querido Roberto, muito obrigado por palavras tao carinhosas. Kisses, Gazelle Paulo

  2. Mario Cardona disse:

    Roberto querido! Saudades… Que maestria e simplicidade em relatar sua experiência no DIGO! Digo essas duas palavras pois com elas, você fez, simples assim, passar também todo um filme do DIGO na minha memória… que surpresa e emoção com suas carinhosas palavras sobre mim… Para mim, te reencontrar no DIGO, foi um experiência totalmente enriquecedora! Sabe daquelas coisas que não se explica muito… tipo assim… aquele nosso primeiro encontro muitos anos atrás lá em Teresina – PI não valeu, foi escrito com um lápis qualquer e talvez alguma borracha do tempo quase apagou… era apenas um protótipo do prefácio desse último encontro, e creio de muitos outros que poderão vir. Seu texto “Uma Cama Quebrada”, me fez crescer como artista e ser humano. Sempre acreditei no amor e agora tenho novo ânimo para nunca desacreditar! Beijos, Mario Cardona.

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