Raroquerer Haraquiri
28/07/2016
Um belo texto obsessivo
03/08/2016

A formiga e o desenho desumano

Eu vi primeiro, no azulejo do banheiro, o rosto indefinido de meu herói.

De repente lá estava ela, perfazendo a linha do meu pensamento.

 – Por que você me desafia?

 A arbitrariedade é minha. Só minha. Eu estava naquele olhar perdido tentando entender a minha dúvida.

Mas não conseguia entender a intenção daquela figura amorfa.

E então aquela intrusa veio andando, como se me obrigasse a entender seu desenho.

 Maldita!

Fez-me perder o desenho de um herói favorito. Logo agora que quase resolvia minha dúvida para com o meu medo.

Ela, então, começou a desenhar um cachorro com mãos humanas. Sim, eu podia ver aquela aberração na minha frente. A pequena formiga ia desenhando, dividindo minha atenção no que antes era a mina ilusão e que, agora, me trazia esta desilusão.

O cachorro com mãos humanas invadiu minha mente perturbada com a salvação. A formiga se despedia num traiçoeiro descuidado do olhar.

Eu me via sozinho naquela imaginação. Perdia meu herói, e ganhava uma imagem completamente diferente. O cachorro, que parecia chupar um dedo, esvaía-se na minha tentativa de recriá-lo. Mas em vão eu conseguia retomar o ponto de partida da formiga.

Restava uma leve e desesperadora tentativa de entender nossas criações.

A formiga sumiu sem ao menos me responder ao delírio de sua criatividade…

E nunca mais eu consegui refazer o desenho de meu herói.

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