A formiga e o desenho desumano
03/08/2016
Livros do escritor Roberto Muniz Dias
03/08/2016

Um belo texto obsessivo

Demorei a escovar os dentes hoje, o que comprova meu pequeno descaso comigo mesmo. Mas isso é irrelevante para quem se esquece de si mesmo por muito tempo. No entanto, para quem se dizia vaidoso, este desleixe podia ser algo relevante. Porém, eu já não sabia o que seria relevante pra mim. Prostrei-me diante do computador avidamente na escolha das palavras. Compulsivo, olhando para as possíveis rimas entre as palavras. E quando tenho tempo para mim, mexo apenas despretensiosamente os cabelos assanhados.

A persecução dos sonhos vinha confusa nas linhas da história e no esquecimento do meu tempo. Tive que levantar para iluminar o sol que já tinha ido embora – ainda existia alguma preocupação comigo por causa da visão que poderia ser prejudicada. Mas era rápido. Liguei a luz e pronto, voltei para a escrita. E claro, esqueci-me de mim novamente. Mas não era estar ali alguma maneira de me colocar no meu próprio mundo? Como poderia manipular tanta coisa se não pudesse lidar comigo mesmo?

E para não dizer que estava tão desleixado comigo, mantinha uma taça com cerveja ao lado esquerdo. Isso revelava que não poderia estar tão desligado de mim. Para manter este ritual, tinha que manter algumas cervejas na geladeira, geladas, e tinha que me levantar para buscá-las. No entanto, não entendia que isto era cuidar de mim. Estava apenas cumprindo um ritual. Talvez eu tivesse me esquecido de mim mesmo, considerando eu mesmo um autômato, um instrumento para conseguir escrever a história, como se qualquer desvio fosse uma perturbação ao processo.

E se me perguntassem sobre o que estava escrevendo. Bem, eu não saberia dizer. Isso prova que era apenas um instrumento. Estava escrevendo para distrair. E talvez estivesse dando certo, porque consegui me distrair por tanto tempo, escrevendo a esmo, preocupado com rimas dentro de uma prosa. O que seria isso? Talvez não fossem rimas, mas a importância das palavras que pudessem dizer algo para mim. Mas na escrita eu não conseguia entender. Mais uma vez os dedos por entre os cabelos e nada de entendimento.

Era um exercício cansativo este de pensar. Os dedos agora repousavam sobre o teclado. Olhar perdido em alguma notícia. O olhar levemente desviado para a esquerda me mostrava uma forma vazia – a cerveja já se esvaía. Queria. Não queria me levantar. A personagem já estava alcoolizada de tanto esperar, ou seria escrever? – continuava reste ritual como se pudesse se esquecer de tudo. A luz já iluminava a sala por inteiro. Os cabelos desgrenhados já lhe davam um charme despretensioso. O tempo não mais o cobrava.

Olhava atentamente para o reflexo na tala do computador. Achou feia a imagem. Arrumou os cabelos recuperando alguma autoestima perdida na procura da rima. Deixou de escrever para entender por que estava triste. Quis mudar a história. Mas já tinha dado um final para ela. A linha final dizia que algo tinha sido recuperado. Sem ao certo saber, levantou-se para apagar as luzes. Ainda um brilho iluminava o seu rosto. A história parecia ainda o perseguir. Desvencilhou-se do brilho inebriante. Seguiu em direção à geladeira, no intuito de satisfazer alguma esquecida e ligeira, mas relevante, necessidade.

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