Leitura Dramática “Uma Cama Quebrada” de Roberto Muniz Dias no I DIGO Festival Internacional da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás
18/08/2016
Os pés unidos pelo sol
25/08/2016

Para você que ainda me ama

Pus todas as luzes sobre o pequeno pedaço de teto que nos protegia. Servi-o primeiro. A taça sobre a mesa redonda de vidro, atravessado pelos feixes de luz. Depois pus minha taça sobre a mesa e as duas agora se atreviam dizer algo. Mas antes que algo acontecesse, retirei a minha antes que desistisse de tudo. Então foi mais fácil agora começar a beber.
E seria mais difícil se você estivesse aqui – aquele que já me ama –, seria ainda mais incontrolável esta necessidade de ti. Mas eu me dou por satisfeito pela sua intenção de presença aqui. Só assim posso murmurar o que gostaria de te dizer neste momento que nos reservei, embora somente eu possa registrá-lo.
Por alguns minutos as luzes piscaram. Fiquei ainda mais sozinho sem o calor daquelas pequenas estrelas a me guiar os sentidos perdidos. Parei para olhar a instabilidade de meus pensamentos naquela ausência-presença de calor e luz. Sua taça sumia; sua taça voltava a existir. E nesses lampejos de visões, seu rosto aparecia e sumia como se fosse um delírio.


Mas continuei o ritual assim que as luzes permaneceram vivas. Ajeitei a taça que parecia ter se movido. Ajustei-a ao caminho de mesa. Reparti o queijo. Esperei o que não aconteceria. Mesmo assim continuei. Peguei o livro sobre a cama ao lado. Abri na página marcada. Li o trecho do livro que leria se estivesse aqui. Não era um poema. Era um pedaço escolhido ao léu. Terminei a leitura. Administrei mais três taças do vinho divido.


Depois de sentir que poderia te dizer toda a verdade, pus-me a entender o que eu falara. Fiquei parado relembrando cada palavra que havia proferido. Cada uma tinha um peso. Mas eu as deixei vagar por entre as luzes como vagalumes; e cada vez eles se distanciavam, bem como as luzes começavam a querer desaparecer. E seguindo o ritual, tomei sua taça de vinho. Esperei mais alguns minutos, horas, passagens de tempo.


As luzes se apagaram e, por um momento, eu pude sentir suas mãos ao redor de mim, embalando meu sono ou, contraditoriamente, me deixando pensar que não estava sonhando sozinho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *