Para você que ainda me ama
21/08/2016
Contornos
27/08/2016

Os pés unidos pelo sol

pes

 

Ele começou a se perguntar como as coisas poderiam ter sido se tivesse feito de outra forma. Pensava ainda com o sorriso recuperado; questionava-se como poderia ser tudo diferente, ainda que se enchesse de alegria desmesurada.
E se o sol se escondesse, como ele pareceu se esconder deles naquela tarde idílica. Por um momento eles se sentiram sós. O sol estava encoberto; tímido; receoso. E se ele tivesse aparecido. O sol então apareceu redondo, como se houvesse desenhado numa tela de aquarela multicolorida. O Céu ao redor pareceu-lhe a moldura correta. E se o sol desaparecesse…talvez o outro perdesse o presente que guardou para o outro. O sol não poderia ter sido mais maléfico, ele pensava com a câmera a postos.
De repente, o céu se descortina ainda mais. O dois se encheram de vida com o calor quente do brilho intenso. Os dois se esticavam para que o calor os atingisse por completo. Ele não quis saber da foto. Deixou-se tomar por aquele calor e esticar a pernas para que ao fundo enxergasse seus pés. O outro em solidariedade espontânea, daquela que só se encontra entre os amantes verdadeiros, posicionou-se na mesma disposição do namorado. Os pés se encontravam no infinito com sol os unindo por seus inúmeros braços, selando ali uma união de duas vontades antes dispersas pelo mundo.
E se o sol não tivesse aparecido? Seu pensamento se perdeu por entre o colorido do céu que envolvia os dois sonhadores.
O dia começara a recepcionar a noite, num abraço que trazia o vento morno e acolhedor da brisa marinha. Ainda os dois se lembravam do pôr-do-sol que os presenteou. O gosto doce da vida permanecia nas bocas que estavam sedentas do beijo.
E se ele não tivesse a ideia de…e se…Ele começava de novo suas ponderações do acaso. Hoje estava só relembrando apenas das lembranças boas. Mas mesmo assim diante da sua compreensão do grande erro, da discussão do último dia, da perda das coisas boas, ficou perdido na ponderação filosófica infrutífera: e se…
As coisas poderiam ter sido diferente. O outro, no afã de sua raiva, revelara o plano final. Estava preparado como tudo antes houvera sido programado. O amor, a vontade de ver, o carinho primeiro, tudo relembrava como resgate da primeira noite. E se ele tivesse sido mais paciente? Começava a se perguntar naqueles pensamentos que não param de se multiplicar. E se ele tivesse evitado uma brincadeira sem sentido? O outro havia preparado acompanhá-lo até o aeroporto para a partida inevitável, inexorável, indesejada. Preparou como tudo houvera sido preparado. E ele pensava nisso como se fosse verdadeira manifestação de carinho. Só podia ser carinho, ele pensava nisso enquanto seu pensamento se alternava nas lembranças anteriores. E se não tivessem discutido na praia, antes da partida prematura das coisas infindáveis? Essa questão lhe invadiu como um sonho.
E se o outro tivesse deixado a música rolar? Que música seria? Ele não saberia responder se não fosse o sonho que tivera. Então, a mão esquerda descansava na perna do outro. Repousava como um grande urso hibernado, nada poderia tirar aquela mão do lugar tranqüilo. Mas os rostos se perfilavam na estrada conhecida do caminho de volta. As mentes dos dois começavam a reinventar um começo. Mas estacionavam na lembrança contundente das palavras arremessadas. O som do silêncio penetrava como faca de fio venenoso. Então, a música começa a entoar uma melodia de paz. A mão pesada aliviava o fardo para se transformar naquela sensação de carinho restaurador. A música falava de triste partida; de amor de início e de paixão desmedida. Misturavam-se tudo naquelas cabecinhas de meninos-homem, mas nada poderia mudar aquelas duas vidas. A música, de qualquer forma, falava de uma história conhecida. A letra aprofundava um sentimento imaturo que perfurava os dois com a mesma violência de lança mortífera. E parecia que ela cobrava uma ação de qualquer um dos dois. E se ele retirasse a mão pesada, ou se movesse levemente para que o outro entendesse do que tudo se tratava? A música repetia o refrão sobre paz, armistício. A mão movia-se levemente tentando alcançar a atenção do outro, levemente ela se movia como se quisesse falar alguma coisa. Mas parecia inaudível.
E se tirasse a mão? Ele pensava como um plano maior do que o silêncio mortal. A música reiniciava a segunda parte, falando de perdão absoluto sem remoer as palavras ditas; sem a ladainha dos motivos; sem a nobre menção de quem errou. E se ele falasse primeiro, ele pensava intimamente olhando para os bambus cinzas, outrora verdes, que anunciavam o caminho da partida. Mas eles permaneciam silenciosos enquanto as velocidades dos bambus aumentavam pela visão periférica e o tempo para os dois se calava.
E se os dois se beijassem, acabando assim com a disputa inglória, a vantagem desmerecida, a famigerada consciência egoísta da razão das coisas.
E os dois se beijaram no impulso mais nobre que o amor pode revelar. As mãos perdidas em seus corpos quentes sedentes de explicação nenhuma. Apertaram-se como se fosse despedida mesmo.
E se ele perdesse o avião daquela noite, os bambus ficariam verdes como da primeira vez? A lua teria aparecido em sua imensidão de mar prateado-luzente? A música teria terminado em: Eu te amo? A mão teria ficado estacionada para sempre?
E se houvesse tempo para que os pés se encontrassem antes do pôr-do-sol? Ou depois? Onde descansariam na conjuntura daquele sentimento revelado? Eles teriam outra chance?
E se os dois partissem juntos daquele ponto em diante para uma praia longínqua onde pudessem viver de outra forma todo o sentimento de vontade mútua?
Mas um truque da vida quisera que eles ficassem separados. Antes de toda e qualquer ponderação da filosofia questionadora; antes de qualquer afirmação dos desígnios do destino- ou da coincidência-, antes que o pensamento voltasse para os flashbacks inevitáveis; antes que pudesse perder a imaginação, e por fim, antes que pudesse perder o poder do sonho, ele pegou na mão dele. Aceitou o convite para ir a praia. Os dois se perderam no verde-azul do mar, retornando a terra com a renovação do perdão mútuo; com votos renovados de amor insipiente.
Deixaram de lado as conjecturas sonhadoras e afirmaram entre si o pacto silencioso, daqueles que os amantes verdadeiros selam , quando eles se entreolharam no fundo dos seus olhos, deixando para o futuro o poder de decidir se verdadeiramente se destinavam um ao outro.
E se eles foram felizes? …o caminho para a felicidade é incerto, mas eles começaram acertando no primeiro erro.

 

Conto do livro Errorragia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *