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31/08/2016

Contornos

 

 

Eu já falei sobre isso: sou um homem dos contornos. De preto eu contorno o desenho que faço, depois eu pinto, encho a forma. Vez ou outra, eu pinto e contorno a forma. De um jeito ou de outro, estou tentando limitar minha ação. Seria isso? Por que então tenho que dar um contorno a estas formas?

Hoje fiquei absorvido por este pensamento, enquanto eu contornava o desenho solto de uma revista. Estamos tão líquidos que escoamos por entre estes espaços abertos – diria o filósofo sobre nossas identidades e sobre nossas disposições sobre o enfrentamento do ordinário. Eu me sinto um pouco escorregadio, escorrendo pelas beiradas abertas deste desenho da revista. Sutilmente vou contornando os espaços, os retângulos, os triângulos e todas as formas em que vou me transformando. Quando já não tenho saída, sou uma figura disforme, mas controlada, sem possibilidade de me esvair. Estou preso naquele autoexílio, criado com o objetivo de refletir sobre a trajetória a que estamos destinados a seguir.

The whole picture é então descrita com tantos detalhes e a vida parece retida naquele desenho todo contornado com seu (meu) medo e sua (minha) angústia de não resistir ao mundo. A minha filosofia da solidão a todo custo, como forma de superar algumas tragédias, começa a dar sinais de falha e ruína. Quanto mais me isolo, mais escrevo, mas mais me distancio de uma necessidade de compreensão. Dia desses vi um vídeo de Nietzsche, com o olhar perdido na sua loucura e na demência de alguma doença que lhe afetara a mente. Traído pela própria necessidade de pensar. E, antecipando minha demência, enxergo-me de alguma forma correlata, tentando ainda dizer o que sinto, mas igualmente incapacitado de expressá-la. Cansado.

Volto à revista. O desenho continua lá, mas eu entendo que tenho alguma necessidade de mudança, como se desenhasse um caminho de escoamento. Para onde eu iria agora?

Seria possível desfazer o que fiz com o desenho anterior? Recusar minha própria natureza artística e ontológica de ser? Como é este desfazer? Como é sentir ao avesso?

São respostas que procuro sempre nesta estética de ser – copiando o ser foucaultiano. O tempo, sim, este tem sido grande culpado destas análises. Observo as pessoas sem tanto ânimo para entendê-las enquanto perfazem um percurso tão previsível diante do que os outros preconizam. Diagnosticar a loucura talvez seja uma forma de superar os contornos e deixar-se fluir por estes caminhos desconhecidos. A euforia da imortalidade ou de uma coisa maior tem-me (nos) deixado tão propensos a um imediatismo, um tanto quanto mais perecíveis, embora uma tecnologia biônica nos prolongue a existência. Sinto-me tão mais perto de um fim, quando não posso controlar este porvir. Deixar de lado os contornos de minha pintura me deixa paradoxalmente inerte. Eles têm sido uma forma de enxergar o mundo e desfazer deles significa partir para outro desejo, que irá me consumir até a dúvida de novo.

Aí me pego contornando outra forma da mesma revista. Repito o ato involuntário da provocação que quero entender como artística e acabo redundando numa condução onírica, um subterfúgio para a realidade que criei. Mas na audácia do traço eu posso também criar um caminho novo. Aberto. Aberto para o mundo como uma alternativa para essa compressão de ser humano o tempo todo. Mas, certa forma, a repetição me deixa novamente em volta com os mesmos problemas. Somos todos repetição de uma linha tracejada.

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