Café Society
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As divinas mãos de Adam
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Desconstruindo o dramaturgo

Eu tenho que me despir de mim mesmo para funcionar dentro deste novo papel de criar vozes, corpos, melodias e caracteres psicológicos, fisiológicos. Eu tenho que ver a personagem não como eu sou, mas como ela é. Como disse o ator Rodolfo Lima, eu não sou condescende com meus personagens porque neles estão minhas idiossincrasias.  Constantin Stanislavski falava de seu professor e da sua capacidade como ator, de criar feições, entonações e trejeitos para cada um de seus personagens.  O pupilo se assustava com a mágica que Tortsov, ao passar um pano no rosto, mudava a voz, a feição para compor diferentes pessoas.

Estou neste processo de escritura de uma forma assustadoramente desafiadora. Eu tenho escrito de uma forma compulsiva, tentando criar personagens que saiam de mim – como forma inspiradora de insatisfações e angústias, tais quais algumas de Woody Allen – mas, ao mesmo tempo eu tento dar a elas cores específicas que nunca eu senti, como se elas – as personagens – pudessem ser elas mesmas. É um desafio para o criador. A história tem que entrelaçar uma trama específica em que a condução da história não enrede pessoas tão parecidas, previsíveis. Uma análise de carpintaria teatral poderia enxergar poucas nuanças entre as personagens. Por isso tenho procurado enxugar o rol de papeis dentro de minhas peças, resumindo-as a um maniqueísmo que é fácil de identificar: Eu e o Outro?  Não necessariamente bem ou mal. O antagonista é aquilo que não somos. Então seria fácil inventar o que sou e o que não quero (ia) ser. Então é assim que vejo meu trabalho?

Esta autorreflexão não é uma mea culpa, mas uma análise de como as personagens tomam conta deste processo de observar a si – e indubitavelmente de observar a filosofia dos outros. Obviamente, partindo da tese que crio o protagonista em cima de mim, vou elaborar os outros pela minha experiência literária e da práxis diária. A arte de escrever para o teatro é pura observação de costumes sobre os arquétipos da vida – poderia resumir assim Shakespeare. É muito superficial este resumo ao Bardo Inglês, mas onde poderíamos colocar as características dos amantes, dos invejosos, dos sonhadores e assassinos? Bem, isto é uma outra discussão. Uma personagem pode ser odiosa e espirituosa, depende do clima, da atmosfera, da provocação.  Podemos tê-las todas numa personagem, mas estas mesmas características não podem revelar quem o dramaturgo é? Quem seria Shakespeare nas suas peças? Ninguém?

Atuação é outra coisa. É como falou o professor Constantin, observando a melodia numa simples frase. E isso quem faz é o ator. Tanto quanto o dramaturgo, o ator deve observar uma cadência e uma candência nas suas falas. Há muitas formas de se dizer: Eu não consigo viver sem você!

Mas concordo que não dá para escrever sobre todas suas angustias o tempo todo. Há uma saída pela felicidade, pelo cômico. E há um pouco disso nas minhas peças, embora eu não seja o cara sorridente, alegre que nem veadinho no gramado de uma primavera exuberante. Pode parecer um tanto quanto pretensioso falar de uma “obra” incipiente que aventura na experimentação. Mas faço agora, compulsoriamente, esta navegação dentro de mim, tentando enxergar o que há de mim em cada personagem que criei.

Confesso que em Raroquerer Haraquiri, resgatei Germano lá do livro que escrevi em 2014. Uma forma de trazer ao texto teatral a preocupação filosófica da personagem isolada no seu processo criativo, na dificuldade financeira e na indefinição de sua vida sexual e afetiva. Mas o exercício literário neste livro foi propositadamente criar, criar tudo que pudesse em cima desta personagem. Quando pensei no texto da peça, que não tinha nada a ver com o Germano, do livro, inventei um ser igualmente dúbio, conflituoso. A androginia veio de uma leitura realizada em Teresina pela atriz Silmara Silva. Aquela ideia anterior de uma identidade fixa, logo se desfez. A atuação da atriz me fez enxergar uma figura à procura de uma própria identidade, e se ela cambiasse entre o que entendemos por masculino e feminino, melhor ainda. Por isso as indumentárias da personagem alternam uma gueixa e um samurai. Não apenas pelo estereótipo, mas pelas suas idiossincrasias. O exercício de observação da lapidação da personagem pelo ator vai incorporando aquilo que eu não havia cogitado. Era-me possível adivinhar qual sobrancelha o ator usaria para expressar a dúvida? Embora eu pensasse na sua respiração, a força com que ele imprimisse sua voz é algo também sentido e passível de se controlar. Mas o texto acha um caminho pelo sentimento do ator.

O que tenho observado, é que diante de tantas experiências com o “meu texto”, embora eu pontue nas rubricas a intencionada manifestação do sentimento, ela tem sido alterada em cada nova direção. Isso é bom ou ruim? Acho que me parece razoável contar com esta vida própria do texto, não?

Nas As divinas mãos de Adam, a personagem Rita foi pensada numa pessoa conhecida. Era próprio dela, em qualquer tipo de conversa, revelar todas suas ideias e pensamentos. Ela não surgiu de nenhuma situação em que eu tivesse que demonstrar meus sentimentos de ódio e de ojeriza pelas outras pessoas. Simplesmente ela estava construída. O que posso dizer em minha defesa – isso soa tão sutil quanto ingênuo– é que não há nada de mim nesta mulher. E embora o ódio dela se firmasse num arquétipo de medeia, há ali um contraponto ao que eu pudesse ser na personagem principal. Novamente o maniqueísmo se manifestaria nestas personagens. Mas na confusão do que é bem e mal, certo e errado, eu já não me reconheceria em nenhuma destas personagens.

O corpo, a entonação, a vestimenta, a plasticidade, a força e a beleza das personagens já tiraram qualquer resquício de mim nesta fragmentação do que eles são e do que eu sou.

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