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EXPERIENTIA (O teatro de Roberto Muniz Dias)
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Cadê o Robertinho?

Eu sentei sobre a cama que costumava ser a minha. Estava prestes a tirar as meias dos pés. Olhei para o lado, levantei-me. Tudo parecia tempo de ontem, ontem quando meu corpo ainda cabia dentro do armário. Era apenas para me esconder de mim mesmo. E quando abri a porta veio aquele cheiro de memória. Meu medo tinha mudado, mas meu esconderijo permanecia intacto apesar do tempo.

Tudo parecia pouco mudado. As coisas de que havia me livrado, voltaram de alguma forma em outra versão, mais antiga, mais contundente.

(…)

Tudo que vejo tem sentido de tempo. Como se pudesse continuar percebendo cada sensação na poeira sobre os móveis, no tempo abafado, nas janelas de madeira. As coisas novas: o pano de filó, a bicicleta hergométrica,  a TV LCD; elas também coexistiam, mas era história nova. Ainda queria do velho tempo a lembrança do que já fui.

Mas tudo parece parado, como se se animasse apenas quando eu voltasse a arrancá-las do passado. Lá na parede, quem nunca teve aquela foto em frente a bandeira nacional? Meu rosto fino, olhar quase pra baixo; à direita um jarro de flores. É engraçado sorrir do tempo. Como é bom reviver coisas deixadas presas à parede do passado.

(…)

Bom é rever o carinho de mãe. A panela no fogão, o pensamento nos passos do filho na cidade lá fora. Ela me fala assim: “Sento para catar o feijão e fico pensando onde está o Roberto!” E continua a fazer o que tem que fazer sem pensar que algo de ruim possa acontecer. Sua preocupação é só em saber que vai dar tudo certo. Onde anda meus pensamentos quando quem mais me ama direciona os seus a mim? Onde poderá estar o Roberto?

(…)

Eu peguei o avião fugindo das lágrimas brasilienses, como se pudesse chorar apenas as de saudades teresinenses. Tola fuga! Estou fugindo de que, de quem? Do passado? Talvez eu fuja de uma tentativa mais suicida de viver o presente. Eu escolhi viver o que acho que é certo, nada além, nada muito meticuloso. Nada que possa realmente matar.

(…)

Somos seres viventes apenas de passado e de presente. Futuro é amanhã e somos por demais hoje. E é bom dar essa volta de mãos dadas com o passado. Parece que toda vizinha sabe que Roberto chegou: o som alto e a voz desafinada a entoar uma música diferente. Eu e meu pequeno castelo de Rapunzel. Cabe perfeitamente o pano de filó na janela. Posso ser perfeitamente a donzela de cabelos salvadores. Eu o the one de Rufus. É a novidade que trouxe para a vizinhança. Menos erasure e mais quieto agora. Afinal já se passaram 17 anos.

(…)

Ainda não me libertei de minha inocência. Toda vez que volto pro meu quarto elevado,  fico retido nessas memórias telúricas que me deixam por demais algo daqui. E não mais me sinto daqui. Dessas paredes quase velhas, de um cupim saudosista de minhas ripas, de minhas estruturas. Os quadros na parede, os adesivos no basculante, o relógio de ponteiro imóvel, as gavetas fechadas, os livros fechados, de tudo isso tenho um pouco de medo. Tenho medo de parar aqui, por aqui.

Toda vez que tiro minhas meias dos pés, me pergunto: “ Fico pensando, onde estará o Roberto?”

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