Aquele(s) o(s) qual(is) não se deve(m) dizer o(s) nome(s)

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Aquele(s) o(s) qual(is) não se deve(m) dizer o(s) nome(s)

Relembro-me de como os personagens do filme Harry Porter ficavam aterrorizados ao mencionar o nome do maléfico Lord Voldmort. E agora faço o inarredável paralelo com o que está acontecendo comigo hoje em dia. Nunca me movi de um medo, construído sob bases de uma falácia anacrônica e destoante dos discursos majoritários sobre liberdade e democracia. Nunca me silenciei diante de tantas ameaças ideológicas como tenho feito hoje em dia. E tenho agido que nem estes personagens do mundo de Harry Porter. No entanto, como no eterno maniqueísmo que opera as forças da natureza, invariavelmente o bem vence o mal.

E não poderia ser diferente com este real  “He-Who-Must-Not-Be-Named” (Ele que não deve ser nominado). Preciso dizer seu nome? Não podemos ser vítimas do discurso gritado, que nem os grandes ditadores – vide a nossa história recente – pronunciado com palavras agudas, ameaçadoras, repletas de uma verdade deturpada e eivada de cinismos de uma casta pré-escolhida por poderes divinos. Não se pode calar diante de tantas ameaças, de tantas falácias que têm por base o mito do medo.

Entre ser o covarde que se cala diante do medo, que se acomoda na zona de conforto, preferi ser o herói que revida, que contradiz cada palavra daquele que não se deve dizer o nome! Mas não quero os louros dos grandes heróis, apenas a menção a luta que não pode ser vencida apenas com discursos preconceituosos. Tampouco me armo de impropérios ou grito em voz alta pra retrucar estes discursos homofóbicos. Toda a ajuda é necessária. Pena daqueles, que mesmo do nosso lado, não entendem que nossa História é feita de um conjugado entre o homem histórico, cultural e o biológico – são instâncias inescapáveis do indivíduo humano! Pena que boa parte de nossa militância gay não tenha entendido as palavras do geneticista que apenas quis trazer a luz fatos que o discurso “daquele que não se deve dizer o nome” recheia sua retórica. Portanto, vale a pena sim rechear nossa resposta com todas as armas que refutam o ódio.  Que falem o jurista, o antropólogo, o sociólogo, o filósofo! Que todos falem sobre de como se dá a construção do ser humano; de como as relações interpessoais, a biologia e a “teleologia do ser” devem ser misturadas nesse caldeirão de miscelâneas bio-culturais – tá ficando redundante – que somos construídos a cada dia! Não há determinismo, essencialismo, tampouco uma ideologia que resuma a nossa sexualidade a um matiz unicolor. Somos culturais e pronto!

Não adianta remontar, rebuscar apenas ao passado grego, à procriação filosófica –  são as armas que usamos sempre para justificar o amor homossexual – mas somos dinâmicos, a sociedade é dinâmica e rompe o passado para se redefinir e se aperfeiçoar. Não se permite repetir os erros históricos. A sexualidade ainda é um campo delicado, ainda mais a performance de cada indivíduo. Estamos ainda longe de entendermos a performação de nosso ser, de nosso comportamento que se aprimora a cada dia.

Pessoalmente, prefiro estar na situação que me encontro. Ainda não enjoei de mim mesmo. Ainda me encontro satisfeito com minha adequação sócio-histórica e não me importa se estacionei num certo essencialismo dialético – se é que esses termos se misturam. Muito além de tentar entender a mim mesmo, ou explicar uma origem e o propósito de minha sexualidade – eis que passei da fase de questionamentos e buscas –, procuro viver minha temporalidade.

Apenas para citar uma dezenas de textos do filósofo Michel Foucault, sobre a questão da sexualidade, fica o registro de suas palavras: “não existe uma ordem da vida humana, ou de nossa maneira de ser, ou da natureza humana à qual possamos nos referir para julgar ou avaliar os modos de vida. Existem apenas diferentes ordens impostas pelos homens ao caos primitivo, segundo sua vontade de potência”.

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