Crítica (As divinas mãos de Adam)

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Crítica (As divinas mãos de Adam)

As divinas mãos de Adam

 

Nenhuma interdição poderia impedir Stephen de realizar o seu desejo! Caminhos teriam que ser criados para obter a sua satisfação e sem hesitar ele faz publicar: “Homem com problemas motores necessita de pessoas que prestem serviços de masturbação. Remunera-se bem!”

O que Roberto Muniz Dias quer colocar em evidência, ao buscar inspiração na China, no antigo ofício da prática da masturbação (factoide), o realismo encontrado nos seus personagens?

Questionado em várias entrevistas sobre os seus textos para o teatro, ele responde: “… cada personagem tem um pouco de mim “. Assim, As divinas mãos de Adam é uma ficção marcada não somente de realismo mas também de confronto com um real embebido de questões existenciais.  Até o final da peça, ficamos sem  saber  se tudo não passa de um sonho realizável ou de restos de um desejo que não pode ser sublimado.

Dias faz nessa peça um apelo a “abertura” da narrativa e fica então para os atores uma grande liberdade de expressão e trabalho cênico. O que lhes permite recriar a cada instante os personagens, ora acentuando mais, ora acentuando menos, através de suas falas, uma variedade de interrogações que toca todo ser humano diante das suas questões com o próprio corpo e a sexualidade. Com todo cuidado e delicadeza, os atores confiam  ao público o cuidado de reinterpretar a dramaturgia, de reconstruí-la imaginariamente, de atribuir-lhes sentidos segundo as suas questões, sejam elas as mais intimas ou mesmo aquelas ligadas as suas  experiências de vida. Assim, na confrontação direta com o sexual, ficara para alguns um sentido moral exacerbado pela angústia, enquanto que para outros, um encontro a mais com o que é próprio da condição humana.

Diante dessa propriedade intrínseca do sexual, Roberto Muniz Dias deliberadamente acentua a sua complexidade e o seu mal estar ligando-a à questão da deficiência corporal  e ao que ela carrega de estigma na sociedade contemporânea.  O discurso de Rita é exemplar e num dado momento entre estupor e sideração  ela grita: “… eu não acredito que depois de velho, paralítico e cego…meu irmão tenha se tornado nesta coisa abjeta, procurando por outros prazeres.  … não acredito que meu irmão tenha sido capaz de fazer isso… Não bastasse ser um imprestável …o corpo deteriorado …a mente também está estragada… Deus…Pobre alma… Certamente deve estar beirando a loucura”.

O que Rita não sabe ainda é que nesse momento ela fala dela mesma, do seu encontro com o que é do seu próprio desejo ! Do que se faz enigma para ela mesma.

Maria Eugênia Nabuco

Psicanalista e Fotógrafa

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