Expectativas sobre o novo – a estreia.

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Expectativas sobre o novo – a estreia.

 

Prometi não escrever sobre isso.

Falar sobre a primeira experiência talvez ressignifique, numa forma não positiva, toda a história que precede o começo, reforçando uma ideia confusa entre o inédito e o descreditado. É um risco.

Mas eu desafio a curiosidade dos outros, para não dizer outra palavra sobre este momento em que estava prestes a “quebrar o cabaço”.

Eu explico! Para falar a verdade, eu não gosto de explicar. Melhor falar na ausência de definição precisa dos sentidos e percepções mais complexas quando vi, pela primeira vez, a encenação da minha peça As divinas mãos de Adam.

O dia era uma sábado, dia que foi registrado na fala do ator no primeiro ato. Não tinha como não pensar naquele dia como um marco ou um divisor de águas, vez que naquele momento as coisas se apartavam de uma outra história de minha vida: antes a ficção, agora a dramaturgia. E isso inaugurava uma nova forma de ver e fazer meu trabalho. Antes eu escolhia pelos não-nomes e então, tinha que pensar em nomes, personas e construção de personagens de uma forma cartesiana. Meu melhor personagem era sem nome, o seguinte levou apenas a letra J. Na nova construção dramática eu tinha que pensar, de pronto, numa visão completa deste nome. Mas o que acontece quando um ator não cabe nesta descrição. Peter Brook, e seu Teatro do imediato, fala de uma constante interação entre personagens, cenografia e direção. Para ele este processo é dinâmico. E penso agora: como fica quando se engessa uma personagem num nome, num estereótipo? Se eu cogitava um olhar verde oliva, o que eu faço se tenho olhos escuros? E a luz? Não é um problema grave. Soluciona-se com uma lente de contato. Mas quando você imagina uma personagem contida e o ator te desafia com uma apresentação fora destes eixos? E se esta mesma atuação te fulmina ao ponto de repensar a potencialidade (do texto ou da direção), como se comportar? Deve-se pensar numa fidelidade ao texto em si ou acreditar numa construção conjunta?

Isto perturba o iniciante ao ponto de fazer-se hesitar sobre o que deve ser e o pode ser. Mas não há uma permanência do texto como uma essencialidade divina. O texto é um experimento sobre a essência de uma realidade criada, mas ele funciona como uma tentativa e não como um axioma matemático.

Fiz tudo o que um dramaturgo veterano não costuma fazer. Cheguei antes de todos, acompanhando até mesmo o último ensaio. Cheguei pela coxia, pois tinha a credencial para entrar no teatro. Vi e ouvi tudo num silêncio em completo respeito ao ofício dos atores. Podia ouvir a voz do diretor vindo lá da cabine da sonoplastia e tal, orientando, pontuando a atividade do pessoal. Ainda atento, permanecia naquele silêncio tentando alcançar o real sentimento que me invadia. Eu começava a pensar no que eu tinha feito, na linha que conduzia aqueles diálogos, alguns de forma espelhada, outros pirotécnicos numa forma visual de se dizer. E não é de interações assim que vivemos – também de alguns silêncios? E estava tudo ali, presente, num jogo de ideias que ganhavam vozes, rostos e expressões de atores tão compenetrados.

Isso de pensar o teatro que se faz pode parecer coisa de iniciante, mas me deu uma possibilidade de análise e conhecimento do processo como um todo.

Saí batendo palmas como se eu quisesse acordar do meu próprio sonho, ainda embevecido com aquela magia que circundava a saída da coxia e o palco. Eu lá no centro e os atores ainda envolvidos naquela áurea mágica que os transformavam em outras pessoas, ou como se não estivessem lá, e a medida que as palmas silenciavam, a magia em torno deles sumia. E logo estariam de volta sob um manto mágico; novamente os diálogos e uma outra vida se criaria. E eu me encontrava naquele interstício entre realidade e minha fantasia. O que me competia naquele momento?

As horas se aproximavam da grande estreia. Eu queria ainda acompanhar a antecipação dos atores, suas ideias últimas, seus suspiros. Um ator no centro, outra na coxia esquerda, outro na coxia direita. Onde eu estava? O desejo se partia nesta tríade, e eu me perdia novamente. Eu não era eu mesmo! Já fazia parte de um elemento desimportante naquele momento. Apenas eu sabia de minha existência partida.

As pessoas começavam a entrar. Amontoavam-se em volta de mim. Quem era aquele que já se encontrava na sala? Burburinho alheio a minha presença. Mais pessoas. O burburinho reduz a intensidade em respeito à magia que estava prestes a começar.

Três avisos sonoros. Vai começar…

Mas pra mim estava continuando!

2 Comentários

  1. Héctor Medina disse:

    Para mim foi surpreendente!!! Muito obrigado é muito boa sua reportagem. Abraço de seu ator de os sonhos. Héctor Medina.

  2. Mario Cardona disse:

    Por hora não tenho palavras para definir a minha emoção ao terminar de ler suas palavras aqui Roberto. Apenas agradeço do fundo do meu coração com muita felicidade em minha alma, toda essa magia proporcionada por Deus, pelo Universo e pelas suas Divinas Maõs de autor. Agradeço a essa atriz e a esse ator : Ana Carolina Rainha e Héctor Medina (parceiros, maravilhosos, talentosos) , agradeço a toda essa equipe que vestiu a camisa ( Claudiana Cotrim, Anauã Vilhena, Renata Belich, Mackson Cruz, Lucas Simonetti) E agradeço as Divinas mãos desse tão sensível diretor Emer Lavini.
    Que venham muitas outras Divinas OBras como essa em nossas mãos!

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