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VIVA – Find your voice!

 

VIVA

Jesus é Viva! Precisa dizer mais? Sim, porque não é um viver fácil e simples. O cenário – aliás, as dezenas de fotografias de Havana, mesmo decadente são simplesmente lindas – não poderia fugir das minhas referências literárias de Reinaldo Arenas e Pedro Juan Gutiérrez. Triste a beleza de Havana, mas a decadência elevada ao dandismo de um estilo europeu perdido.

Jesus vive Viva, uma criatura num processo em pura transformação. “Eu não sei o que quero ser… mas é intenso, é lindo! (…) Me sinto forte, sincero!”. Assim Jesus define sua afeição pelo mundo da dublagem das drag queens – e por uma identidade de gênero nada tradicional – dos cabarés de Havana. É um refúgio para uma Cuba que não dá alternativas de sobrevivência Queer naquele ambiente de melancolia e drama. E falando em alternativas para uma homossexualidade, a prostituição é outro caminho. Mas então entre estes dois está a música, como elemento de transfiguração do medo e da solidão.

Duas instâncias bem precisas no filme: medo (culpa) e solidão. Jesus encarna esta personagem de destino errático e solitário, em meio ao mundo feminino que lhe dá abrigo e significação. E ele consegue viver bem neste mundo onde o sonho de interpretar uma diva local (procurei feito louco as referências musicais).  E então a música simboliza um efeito além do estético, no qual a fuga pela arte é uma maneira de vivenciar a expressão de gênero almejada. A dor e a própria condição de exilado dentro de seu país são suplantados pela força da música.

Vários outros pontos se interseccionalizam nesta “película” (adoro esta palavra, pois me remete a uma fina camada) é de uma fotografia emblemática. Os planos sensibilizam o olhar pela agudeza das imagens de uma Cuba velha – desnecessário dizer sobre a tentativa de falar sobre o sistema comunista decadente e deficitário. No entanto, estas paisagens culturais de Havana tornam o filme um singelo libelo de busca pela autonomia e liberdade. O filme é polivalente.

Bem, mas voltando a Jesus – que ótima referência para ajustar o martírio da personagem a sua propensão a fazer o bem, perdoando, ajudando. E aqui entra um outro elemento desta trama que é a relação entre pai e filho, delicadamente construída pela ausência (estranhamento) causada pela aparição do pai de Jesus – ex-pugilista, ex-presidiário e decante. O pai representa o próprio sistema castrista – igualmente em decadência e moribundo – o qual registra sua aversão à feminilidade do filho e de sua estética de ser.

Duas cenas – sem spoillers – se repetem no cabaré onde Jesus (é muito forte falar JESUS) se apresenta. Aqui figuras importantes, pitorescas e igualmente fortes são apresentadas como elementos representativos de uma decadência cubana elevadas ao patamar de divas – relembro-me agora de Phedra D. Córdoba. Mama – outra excelente escolha nominal para definir a figura da veterana matriarca da família de drag queens – é a figura protetora e nada se assemelha a candura cristã de resignação que poderia suscitar. É tão forte quanto qualquer pugilista que a ilha é célebre em projetar. Pois bem, esta figura cuida e ensina, como no melhor exemplo da filosofia procriativa. Jesus é um pupilo dela. Ele aprendeu, com seu próprio autodidatismo e introspecção, – claro que introjetados pela disciplina maternal de Mama: a arte da interpretação artística com o seu drama interno e existencial como pano de fundo.

Há claramente dois mundos em Cuba: o hetenormativo, e aí não fica redundante se referir a qualquer semelhança com a doutrina castrista – e o homossexual como forma de estrangulamento deste sistema, e possível “abertura” para a liberdade. Basta assistir a um dos shows promovidos no Cabaré da Mama.

Ponto de extrema delicadeza é a relação de pai e filho. E aqui entra em jogo todas as contradições e embates que se possam pensar numa relação sem diálogo e convivência. No entanto, estas diferenças são tratadas por um tênue e sutil armistício que vai se criando entre os dois, tanto pela indulgência do filho quanto pela complicada aceitação do pai. Neste processo – embora a dor seja um elemento de ligação entre estes dois mundos – as pazes são feitas numa cena tocante e, ao mesmo tempo forte, em que a música interpretada por Viva, finalmente, apazígua o coração do Pai. É uma linda mensagem de despedida e, também, de recomeço.

Tinha tanta coisa para falar deste filme, especialmente pelo passeio literário (antropo-sociológico e cultural) que refiz nas obras de Reinaldo Arenas Antes que anoiteça, especialmente do Malecón e de Juan Pedro Gutiérrez  Trilogia suja de Havana e, recentemente, Fabian e o caos, que mostram a realidade das vidas devastas pela miséria e esperança.

Recomendo!

Créditos

  • Atores
    • Jorge Perugorría (Morango e chocolate)
    • Luis Alberto García
    • Héctor Medina
    • Luis Manuel Álvarez
    • Laura Alemán
  • Diretor
    • Paddy Breathnach
  • Roteiristas
    • Rebecca O’Flanagan
    • Mark O’Halloran
  • Produtor
    • Robert Walpole

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