UMA QUESTÃO DE JEITO (Primeiros capítulos)

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UMA QUESTÃO DE JEITO (Primeiros capítulos)

PRÓLOGO

Me chamo Luiz. Sou professor há algum tempo. Sempre pensei que a atividade como professor fosse mais fácil porque só me exigia transmitir o que eu aprendera na graduação e no estágio. Sempre fui um bom aluno e isso também se repetiu na graduação. Era assim que pensava.

Mas eu senti necessidade de extrapolar minhas próprias barreiras (ou seria meu medo) de realizar um trabalho além do comum, do ordinário. E era isso que observava com meu trabalho, realizado de uma forma automática e irrefletida, é o que era feito pelos meus professores e colegas de curso. Nada parecia motivá-los, nada poderiam fazer para mudar aquela herança de aprendizagem. Mas por que eu me preocuparia se até então estava tudo dando certo?

Eu nunca dei muita atenção para os meus alunos de uma forma holística. Eu sempre me direcionava para os melhores da turma. Para eles é que eu ensinava. Tinha uma espécie de recompensa, uma imediata compreensão dos assuntos expostos. Aqueles que entendiam, com as primeiras explicações, toda a sorte de assuntos e explanações. Era quase mágico poder dialogar com os alunos que se destacavam. Meu trabalho fluía de uma forma tão tranquila. Eram meninos fáceis de elogiar.

Certa vez, a diretora de uma escola me procurou para dividir comigo uma reclamação de um grupo de pais. A queixa deles era que eu sequer olhava para os alunos do lado esquerdo da sala; minhas atenções estavam nos alunos com as melhores notas. E, sobretudo, eu não abria a discussão para as dúvidas dos outros alunos. Mas eu pensava comigo, se existem alunos que tiram notas excelentes, por que este grupo não acompanhava? Eu achava que faltava esforço por parte destes mesmos alunos. No fundo, eu não era um mau profissional. Apenas eu não entendia por que os alunos não eram suficientemente esforçados.

(…)

 

Mas então, veio esta oportunidade para entrar no Instituto, contrato temporário, como profissional mais experimentado, com a pós-graduação que fizera em Linguística. Depois da desistência de duas professoras que passaram noutro concurso, fui chamado pela ordem de pontuação. Bendita hora que fiz esta pós. Ela me ajudou nesta classificação.

E então, eu nunca tive contato com uma turma tão heterogênea. Não existiam aqueles alunos exemplares. Alguns tinham muitas dificuldades. E comecei a ver aquilo como um pequeno fracasso meu. O engraçado é que tive que observar o desempenho destes alunos como uma provável falha das minhas aulas, como se eu não fosse capaz de transmitir conhecimento. Eu não era capaz de fazer outra coisa, e de uma hora para outra eu estava perdendo o jeito? Alguma coisa deveria ser feita. E foi.

A direção do Instituto achou por bem dar oportunidade à candidata subsequente, pois a minha oportunidade tinha sido perdida. Minha avaliação não tinha agradado aos coordenadores de curso.

Outro concurso e a oportunidade de começar um novo projeto. Professor Substituto da Escola Benjamim Batista. Fui chamado para substituir a professora de Português. Aceitei o desafio, mas como uma tentativa de mostrar a mim mesmo que poderia ser um melhor professor. Mas não foi fácil.

Tudo parecia que ia dar certo. Fui apresentado aos diretores e professores…

Até que, no primeiro dia de aula, eu conheci a aluna Clara.

 

PRIMEIRO DIA DE AULA

[Agosto de um dia quente de um ano difícil de entender.]

 

A aluna me corrigiu na frente da turma. Primeiro dia. Ela falou que o nome dela era Clara. Mas a confusão já estava instaurada na pequena sala de aula de alunos de ensino médio. Tentei remediar meu erro repetindo o nome dela mais alto; o som de minha voz ultrapassava o burburinho naquele pequeno ringue. 36 alunxs[1] contra um. Mas não foi de muito efeito. A aluna se autodeclarara travesti. Sim, travesti. Assumia sua identidade ali, diante minha perplexidade, em frente a tantas pessoas estranhas – presumia que aqueles que se silenciaram deveriam conhecê-la. Por um momento quis possuir aquela coragem. Tendo coragem, eu saberia que decisão tomar. E esta coragem me invadia de uma forma nunca antes sentida. Na verdade, se parecia com medo; um medo que enfrentava no primeiro dia da minha aula. Professor substituto. Desconhecido. Sem nenhuma autoridade conquistada.

Eu podia enxergar nos olhos dela certa altivez. Em nenhum momento sequer ela baixou sua cabeça. Perguntava-me onde ela achava tanta coragem. Permaneceu assim, olhando cada um nos olhos, enfrentando as piadas e deboches dos meninos pela repetição de seu nome.  Fez um coque, enrolando-o sobre a cabeça, amarrando-o com o auxílio de uma liga de borracha. Seu olhar agora era de iminente revide. Por alguns instantes, ela o fulminou contra mim, mas reservava algum tipo de respeito. Preparou-se para atingir quem a açoitava. E percebendo que os meninos não terminavam suas investidas grosseiras, levantou-se preguntando: “O que vocês acham que estão vendo aqui na sua frente?”. Insistia que queria ser tratada no feminino, que não admitiria mais nenhum tipo de piada ou deboche. Olhava pra mim como quem quisesse minha ajuda para conter aqueles ânimos masculinos enfezados com a impossibilidade da compreensão. Ela falava com tamanha força no seu olhar. Ela dizia que, a partir daquele dia, e direcionava seu olhar para mim, “Faça a chamada usando meu nome social[2], por favor!”. Entendi que deveria me posicionar. Coloquei as mãos sobre a mesa, quase impulsionei meu corpo para cima. Deveria dar um basta naquela situação. Pedi mais uma vez silêncio. Mais uma vez impus minha autoridade. “A partir de hoje, falei com uma voz impostada, todos devem chamá-la de Clara, ok?”. Todos ainda se mobilizavam nas piadas sussurradas. Era difícil fazê-los parar. Mesmo falando mais alto, não conseguia o controle da turma, ainda alvoroçada pela impetuosidade da aluna e minha completa displicência para aquela situação que criei. Por alguns instantes, fiquei observando aqueles rostos que me desafiavam, ao mesmo tempo, que podia identificar certo medo nos olhos de Clara – que também era meu. Ambos sabíamos que deveríamos continuar fortes para que respeitassem a autoridade sobre nossas vontades; nossas realidades. Sabíamos que não poderíamos perder agora o controle da situação. Se falhássemos ali, naquele momento, seria difícil convencer a todos que tínhamos esta autoridade.

Continuei a fazer a chamada. Só assim obtive a atenção dos alunos, que, aos poucos, iam diminuindo as investidas contra Clara e respondiam prontamente aos seus nomes. “Levarão falta aqueles que não responderem” – eu ainda tentava trazer para mim o controle daquele pequeno caos. No entanto, o período de paz fora tão efêmero quanto minha autoridade fajuta. No fundo da sala, um aluno, chamado João Paulo, que não parecia estar na idade própria para aquela turma, se insurgiu levantando a mão dizendo: “Professor, a partir de hoje, quero que o senhor me chame de… Margarida!”. Novamente o caos se instalou na turma. As gargalhadas tomaram de conta da sala, ainda mais insinuantes, intolerantes e preconceituosas. Clara – e obviamente eu – não via nada de engraçado naquele tumulto. Pela primeira vez, naquele primeiro dia, eu sentia que a força de Clara dependia de ajuda; de minha ajuda. Ela necessitava de apoio para que todos entendessem sua forma de ser. Por alguns instantes, percebia que sua força dependia de mim, pelo menos naquele pequeno mundo opressor da escola; dos alunos e de sua vida fora da sala, dos muros daquela escola. Sua altivez dava lugar a uma ligeira tristeza. Seu sorriso e aquela coragem ficavam cada vez mais imperceptíveis, dando lugar a uma frustração explícita. Minha falta de coragem e de trato para aquela situação me deixaram igualmente indefeso. Clara e eu fomos tomados por aquela avalanche de sentimentos. Clara e eu fomos salvos pela campainha, que anunciava a hora do intervalo. Todos esqueceram, por alguns instantes, tudo que havia acontecido. Saíram sem cerimônia – como se esquecessem de tudo aquilo que acabaram de fazer, sem arrependimentos; como se apenas fossem um bando de refratários de uma ideia dominante – e se dirigiram para o pátio da escola.

Ficamos apenas eu e Clara naquele silêncio. Sem coragem. Sem forças. Eu fingia que fazia anotações no diário de classe, e ela fingia que ainda possuía forças para enfrentar a próxima aula.

Coloquei todas as minhas coisas na pasta e saí em silêncio…

 

SALA DOS PROFESSORES

[Resistência à mudança]

(…)

Entrei na sala dos professores ainda atordoado com toda aquela onda de acontecimentos. Não tive coragem de olhar para Clara. Permaneci na minha covardia; tão óbvia que não conseguia esconder dos amigos professores.

– Esta cara é de quem perdeu uma guerra! – o professor de Biologia rompeu o silêncio – Já conheceu o Pedrão? – falou em tom de deboche.

Conheci todos os professores na semana anterior na semana anterior, quando fora apresentado a eles pela diretora de ensino. Todos me receberam bem, a não ser pelo Diego, professor de Biologia, que logo quis saber se eu era casado: – Com mulher, não é? – ele esperou atenciosamente minha resposta. E emendou que se estivesse solteiro, já havia uma fila de pretendentes. Todas estavam falando do novo Professor de Letras.

 

(…)

Pedrão, só depois fui saber – o que ainda me causou mais frustração – era o nome civil de Clara: Pedro. A insinuação ao aumentativo era pura provocação. O aumentativo dava superioridade ao masculino, mas também ironizava propositadamente a escolha de Clara. Esta insinuação era pura provocação de fato. Naquele momento de sua interpelação não tive inteligência ou coragem – que me escapava naquele momento – para fazer as devidas relações.

– Pedrão, Pedrão, Professor… aquele aluno que quer se chamado de Clara…Absurdo isso! – balbuciou com ligeira revolta.

Assenti como se concordasse com a atitude de meu colega. Mas a concordância tácita tinha a ver com minha inércia. E acabava de cair de paraquedas ali. Não era um professor efetivo. Entrei para substituir a Professora Aline, que se encontrava em licença maternidade, e com algumas outras licenças, por isso eu teria um período de trabalho extenso. Então, deveria me comportar como todos estavam se comportando, embora eu não soubesse o que de fato fazer.

Abri a pasta de arquivos da Professora Aline. Todos os planos de aula do ano estavam devidamente guardados. O mais prudente seria continuar aquele trabalho e seguir os planos de aula já confeccionados. Era mais fácil continuar. Achei por bem não interferir no ritmo daquela programação. Me concentrei nas aulas expositivas, escrevendo algumas anotações.

– E então Luizão, já viu a gostosona da Keyla do 3º ano C? – bateu nas minhas costas, sussurrando ao meu ouvindo que já tinha pegado esta aluna.

Sorri mais uma vez consentindo com minha timidez. Não respondi por que no fundo não admitia este comportamento, mas mais uma vez pensei que não seria o momento para responder ou recriminar aqueles pensamentos e ações. Fazer parte de um pensamento dominante e aceito era a melhor maneira de demonstrar inteligência.

Parecia que Diego que precisava de minhas confirmações para realizar seus julgamentos e avaliações a meu respeito. Eu não dei muita bola para isso, embora soubesse que ele poderia dizer algo que me comprometesse justamente por causa de meu silêncio. Isto era natural entre nós. Ratificar nossa condição de homem. Eu demorei a raciocinar neste sentido – tá tudo na nuvem do senso comum, que nem precisava me preocupar. Ainda estava impactado com a reação dos alunos do 3º ano C diante do meu deslize. Ficava martelando na minha cabeça aquela situação tão estranha, tão improvável pra mim. Meu pensamento não saía daquele turbilhão, do descontrole por qual passei.

Como seria a quarta-feira? Nem mesmo a próxima aula, que estava prestes a enfrentar naquele mesmo dia, poderia superar o meu desconforto com aquela situação da aluna travesti. Pois é, ela disse isso mesmo, Travesti. Eu nunca tinha visto uma pessoa se declarar assim. Era estranho ver um(a) menino(a) de 17 anos se comportar tão decididamente daquele jeito. Como eu deveria encarar aquela alunA[3]? Deveria me desculpar ou tentar corrigir, sem vacilos, da próxima vez que chamá-lA? Deveria me desculpar pessoalmente? E se as pessoas me vissem falar com elA? O que as pessoas poderiam pensar. Imaginei Diego batendo em minhas costas, falando coisas do tipo: “Tá pegando o Pedrão, hein?”.

Precisava pensar numa estratégia para resolver esta situação sem me comprometer. Mas por que me estava tão preocupado com esta situação? Até depois de amanhã tudo teria sido esquecido. Mas eu não me sentia à vontade com aquela situação. Lembrava-me dos estágios na graduação. Foram tão tranquilos, mais simples, fáceis. Os alunos eram fáceis de lidar. Não havia tanta diversidade destas sexualidades[4]. Eu me lembrava de apenas uma situação em que um aluno do fundamental foi pego com outro menino no banheiro. Foram sumariamente suspensos. Um deles foi transferido para outra escola. Os pais foram avisados nos dois casos. Fora este, eu nunca havia passado por estes problemas.

(…)

– Qual a idade de Pedro, digo, Clara? – perguntei num ímpeto, curiosidade, depois fiquei pensando na reação de Diego…

– Pedrão, professor. Pedrão! Hehehe – ele respondeu com deboche.

Clara tinha 13 anos quando chegou aqui. A professora Ângela, de História, respondeu prontamente, dando detalhes da transformação de Pedro. Há três anos era apenas um rapaz afetado, bem afeminado. Aline relatava que ele não chamava muito a atenção. Os pais não desconfiavam ainda de sua identidade de gênero, apenas suspeitavam da sua forma diferente de ser. Ele sempre andava com sua bolsinha a tiracolo. Quando chegava na escola, tirava todos os cosméticos da bolsa e se maquiava ali no pátio da escola com ajuda das meninas.

– Era estranho ver um menino usando um batom – disse a professora querendo contextualizar a transformação. – A nossa diretora, à época, não deixava ninguém mexer com ele. – emendou Aline – Infelizmente isso causou sua saída!

(…)

 

Professor Luiz

Percebi que o senhor ficou preocupado comigo. Mas, sabe, eu já estou acostumada com isso. Depois de muito tempo eu entendi o que me fazia feliz. Da próxima vez, me chame de Clara, por favor!

Clara

 

Eu já sabia o que tinha que fazer na quarta-feira. O bilhete tinha sido entregue por uma aluna da turma – que não recordei o nome. Sou ruim com nomes! Ela pediu que não se preocupasse, pois estava tudo bem.

Eu sabia que Clara precisava de ajuda, mas naquele primeiro dia quem deveria agradecer era eu. No entanto, minha dívida com Clara ficava cada vez mais pesada, pois quanto mais eu permitisse que a turma fizesse brincadeiras, piadinhas a seu respeito, mas eu a trairia por conta de minha indiferença. Não conseguia dialogar com o professor Diego. Algo me dizia que teria muitos problemas com ele.

 

 

CASA

[Os deliciosos bolinhos de sabedoria de mamãe]

 

Depois que jantei, decidi desacelerar um pouco, beijei minha mãe que ainda estava na cozinha, fui para meu quarto. Joguei tudo que carregava no chão; empurrei  os travesseiros para a cabeceira da cama. Me recostei como se quisesse amortecer o peso de apenas um dia de aula. Arrumei a pilha de livros que estava acostumada a dormir comigo naqueles últimos anos. O lado esquerdo parecia uma prateleira de livros de uma biblioteca esquecida e desarrumada por algum frequentador relapso. A cada dia, mais um livro se juntava àquela pilha. Entre os de ficção, não ficção, revistas, encartes…Entre os de ficção, um caldo de histórias se formava na minha memória, como se eu pudesse fazer um frankstein de histórias inacabadas. Livros começados que não me animavam por puro desleixo com minhas leituras. A mosca na capa do livro de Sartre ficava me olhando, desejando ser espantada, mas de nada valia seu esforço para isso: parecia que algo podre se amontoava ali. Desobediência civil tinha sido a última compra, mas na minha cabeça aquela história me causava apreensão por tentar criar uma espécie de anarquia subversiva. Eu até que gostaria de viver alheio às regras do mundo, principalmente às que se referissem aos impostos. Mas o que mais me interessou em Thoreau foi a experiência de viver isolado do mundo civilizado.

Também estavam ali os livros de filosofia. Tinha até um com resumos dos pensamentos de alguns filósofos conhecidos. No fundo, uma dizia uma coisa e o outro subsequente – geralmente um discípulo – vinha e o contradizia. Assim resumiu um amigo professor.

Tentei afastar alguns livros. Mexi nas pilhas que tinham uma certa ordem. Havia muitos deles ainda da graduação. Livros de pedagogia, ciência política. Tantos livros. Comecei a rearranjá-los. Tirei um daqui. Outro dali. Coloquei outro em cima. Minha tentativa era de encontrar respostas para minha inquietação. A pilha de livros tinha estreita relação com minha incapacidade de coordenar meu pensamento. Uma busca por um conhecimento teórico tão longe de uma experiência concreta: um sofrimento, uma perda ou um autoexílio.

Eu havia visto esta expressão em algum lugar. Autoexílio. Autoexílio. Estava perdido naquela pilha de livros na minha frente. O autoexílio poderia ser escolhido ou imposto por outra pessoa. Pode não ser libertário. Luta-se muito para existir num espaço confinado dentro de si mesmo.

Não era um autoexílio aquela forma que Clara escolheu para viver? Parecia um terreno alheio a ela mesma. Ela morava num outro corpo. Imaginava que seu corpo também lutava de uma forma interna para sobreviver àquela natureza especial.

Mas por que eu ficava pensando naquela condição da Clara? Não era justo ficar pensando como ela se sentia com seu corpo. No bilhete havia, sem dúvida, uma propensão à felicidade, que não seria certo eu dizer o que era certo ou errado para ela.

Se Pedro tivesse oportunidade de viver um tempo sozinho assim como Thoreau, aparte do mundo civilizado, tivesse ele ficado longe disso tudo, como seria? A identidade autoexilada e anárquica. Existia isso? Eu tinha minhas dúvidas se ele(A) tivesse necessidades de mudança. Tinha tudo isso a ver com a convivência?

(…)

– Mãe, mãe! – gritei como quem precisasse de ajuda!

Eu precisava de outras opiniões sobre este assunto. Talvez mamãe tivesse alguma coisa para me aconselhar; alguma explicação para tanta confusão. Uma opinião feminina. Embora eu soubesse que ela não opinaria sobre este assunto por conta de algumas ideias.

– Oi filho! Eu estava na cozinha! – me deu aquele beijo na testa cheio de vida.

– Hum, e o que tá fazendo de bom?

– Advinha…bolinhos de chuva.

– Nossa, que delícia mãe! – por alguns instantes esqueci minhas dúvidas.

– A propósito filho, como foi seu primeiro dia de aula?

Mamãe já pressentia que algo havia acontecido. Mas fingia ser simples e não gostava de antecipações. Passava as tardes fazendo aqueles bolinhos para vendê-los. A aposentadoria tinha chegado, mas ela se recusava a ficar parada.

– Bem, foi um dia bastante difícil. – disse coçando a cabeça.

– Mas o que aconteceu? Você não me parece bem mesmo!

– Nada demais acho!

Eu não sabia por que temia alguma repreensão de mamãe. Ela sempre foi muito séria para certos assuntos. Às vezes não se envolvia para não ter que opinar sobre alguns temas. Um silêncio e uma feição nada amistosa, sempre antecediam suas palavras, quando se dispunha a falar sobre assuntos polêmicos. Todos sabiam que mamãe tinha opiniões próprias e agudas sobre como as pessoas conseguiam desviar de uma forma impensada dos valores que ela julgava básicos. Eu temia qualquer discussão com ela, para que não tivéssemos problemas. Para falar a verdade, eu não discutia certas coisas com elas. Havia temas que não ousava trazer a luz. Preferia que ficasse escondido na ignorância e distante de suas admoestações.

Como falar desta situação que se apossava de mim? Se eu falasse o que realmente me incomodava talvez eu revelasse alguma coisa que ainda não alcançava no meu íntimo. Era uma mistura de vontade de descobrir e ao mesmo tempo de guardar o segredo de um olhar trocado. Tudo muito íntimo, mas de alguma forma pronto para se rebelar como grito de um louco livre da sua própria loucura. Eu não sabia ainda explicar. E talvez não fosse possível que eu revelasse ainda o que não sabia.

Mas até então não havia nada diferente de uma ligeira solidariedade ao sofrimento, à forma como Clara escolheu viver. E agora, surgia em mim – eu não sei dar nome a isso, e por esta razão eu me ressentia, agora, de uma outra forma de covardia. Mas como?

– Os alunos devem ter tirado toda sua energia meu filho!

Eu quis dizer alguma coisa como se fosse responder a uma pergunta indiretamente feita por minha mãe. Mas eu deveria ser sincero para que obtivesse uma opinião também esclarecedora. Mas justamente naquele momento eu não conseguia entender. “O que estava acontecendo comigo?”. Antes era uma coisa completamente impensada, eu sequer imaginava que existissem pessoas como Clara, embora eu soubesse destas possibilidades. Mas e agora, o que seria isso senão uma completa desobediência interna de alguns valores estáveis em mim? O que me mantinha tão arredio de minha própria consciência das coisas em volta? E, além disso, que vontade era essa que tomava de conta de meu pensamento? Clara parecia alguém tão distante – beirando a inexistência – e ao mesmo tempo tão próxima de uma…

 

 

Rascunhos (Anotações Importantes):

 

Uma paixão fulminante?

Medo e preconceito.

Moral X Ethos.

Desejo X Sublimação.

 

SANSÃO

Clara não apareceu no segundo dia. Eu pensava que o dia anterior ainda repercutisse de alguma forma.

Iniciei a chamada. Conseguia sem tropeços enunciar cada nome. Mas antes que entrasse na letra “C”, hesitei até que pudesse refletir sobre o que estava acontecendo. A pausa causou certa estranheza dos alunos que ficaram esperando que se anunciasse o próximo nome.

Alguém do fundo gritara Cláudia! Automaticamente, saindo daquele momentâneo transe, eu falei:

– Clara? – baixei a cabeça para esconder qualquer reação, repetindo mais uma vez – Clara?

Havia resolvido um pequeno problema. O silêncio que se fez logo depois da enunciação do nome de Clara. Eu estava feliz pela ausência de manifestações por conta do nome dela. De certa forma, eu havia destravado meu receio de errar, ou falando o nome dela, eu sentisse uma espécie de emoção que fosse flagrantemente percebida.

Do fundo, uma voz, bem diferente da anterior e já conhecida, se manifestou:

– Clara faltou, professor! Parece que alguma coisa aconteceu com ela!

Novamente a covardia me invadiu a alma; a mesma sensação da última/primeira aula. A iniciativa foi de perguntar o que havia acontecido com Ela. E ainda por conta desta mesma covardia, tinha medo que meu interesse demonstrasse algo mais evidente do que aquela covardia inicial, embora eu realmente não soubesse o que aconteceria. Porém a curiosidade poderia ser vista como um interesse além do pedagógico. Mas o que poderia existir entre nós? Eu pouco me lembrava de Clara – embora houvesse uma marca indelével de sua presença na minha memória – senão seus olhos amendoados, os lábios vermelhos e os cabelos longos. Era tudo o que podia lembrar, no entanto o que mais marcara foi sua nuca que ficava aparente toda vez que mexia, com as pontas dos dedos, o cabelo por detrás das orelhas. Justamente quando ela baixava a cabeça e eu podia e olhá-la sem que me olhasse de volta.

Esta imagem ficou gravada, como se pudesse observá-la por um outro lado, enxergando sua fragilidade ao não poder me olhar diretamente; e eu pudesse, a qualquer momento, chegar mais perto, tocá-la e senti-la sem que pudesse reagir. Pelo menos, a princípio, ficava apenas olhando como se observasse dimensões diferentes do nosso ser; mas estava ali adiante de mim com desejos, sonhos – talvez maiores – tal qual toda e qualquer aluno naquele recinto…

– Professor, professor… a chamada! – outra voz se manifestou.

– Cláudia, Cláudia…

– Presente.

– Claudiane…

A presença/ausência de Clara na sala de aula passava despercebida, a não ser pela sua colega, Ana Maria, aquela que me entregara aquele bilhete, e que respondeu sobre a ausência de Clara. Esta ausência era causada pela contraditória sensação de alívio ou falta do objeto de chacota. As piadas misóginas[5] e preconceituosas continuavam, mas sem a figura altiva e combativa de Clara, para qual toda sorte de piadas eram dirigidas.

– O Pedrão perdeu a cabeleira! – João Paulo soltou com escárnio suas palavras, gritando lá do fundo da sala.

Ana Maria então gritou em resposta dizendo que João Paulo não deveria ter dito aquilo. E de fato as piadas voltaram à tona. Todos pareciam rir e acrescentar alguma coisa aos pequenos boatos. João Paulo ainda conseguia emendar uma após a outra:

– O Sansão agora tá careca!

Pedi que ele parasse com as brincadeiras. Respondi-o dizendo que o cabelo cresceria novamente, e sua força, seria logo restabelecida.

– Mas ele está mais para Dalila do que para Sansão! – respondi sem pensar, embora ficasse mais claro que Clara seria Sansão pela força que levava dentro de si. Mas somente eu entenderia esta relação.

– Ele nunca será mulher, professor! – João Paulo novamente retrucou, e emendou – Homem é homem, mulher é mulher!

Fiquei perplexo diante da força do pente de respostas que saía da metralhadora verborrágica de João Paulo. Lembrei-me da lição do professor da graduação, quando ele refletia sobre sua instantânea forma de responder aos alunos impensadamente, demonstrando mais vocabulário e pretensa autoridade sobre eles.

Respirei como se pudesse relembrar cada palavra do sábio professor. Autoridade não tinha a ver com aquela quebra de braços. Respirei mais uma vez…

– Cláudio…faltou gente?…Cristiana…Cristiano…

A melhor forma de vencer aquele pequeno embate era ignorar o fato de que não me importava.

Mas o que realmente tinha acontecido com Clara?

 

O BATOM VERMELHO DE CLARA

 

Disseram que Clara acabara de chegar em casa como de costume. Não mudava sua rotina. Ana Maria tinha se despedido também da forma usual, convidando-a para sair para a lanchonete logo que saíam da escola. Beijou-a, sem insistir no convite, e foi embora.

Toda vez que entrava em casa, Clara tinha o cuidado de enrolar os cabelos, amarrando-os com uma borrachinha amarela. Então, guardava-os num boné que sempre carregava dentro de sua bolsa. Só assim ela entrava em casa sem maiores problemas. Mas não naquele dia.

– Já falei para não entrar em casa com este batom vermelho!

– Não se preocupe, já estou indo pro meu quarto.

– Não me responda!

– Se quiser nem falo com o senhor.

– Que é isso menino? Quer apanhar de novo?

– Eu sou uma menina! Menina! Olha meus cabelos! – retirou o boné e deixou os cabelos cultivados ao longo de 2 anos caírem.

– Tem razão, você não é mais meu filho!

– Há muito tempo!

– Já falei para não me responder. Tire esse batom agora!

– Por quê? Você já não disse que não sou seu filho?

– Mas ainda mora debaixo de meu teto, e viverá de acordo como eu mandar.

– A casa não é só sua!

– Cala boca, seu…

– Seu o quê? Tem medo de dizer o que sou?

– O que você quer que eu diga? (…) Que te aceito desse jeito? Nunca, nunca…saia da minha frente, antes que eu…

– O que seu Aírton? O que vai fazer? Vai me matar? É isso?

– Antes estivesse morto mesmo! Pra mim já está morto.

– Ainda vai levar muito tempo!

– E o que é isso agora? É alguma ameaça?

– Como, se já estou morto!

– Vai morrer como indigente. Ninguém vai te enterrar com este teu nome.

– É só o que me resta mesmo! Este é o nome que me define. Não existe mais o Pedro, filho de seu Aírton!

– Já falei para calar esta boca. Menino desaforado!

– Menina!

– Olha seu moleque…

Disseram que seu Aírton partiu para cima de Clara. Esta não reagiu em respeito à autoridade do pai. Seu Aírton, por sua vez, enfurecido, despejava anos de ódio reprimidos sobre o filho, que desde a mais tenra idade já não se enquadrava nos padrões exigidos por ele e a família de sua geração. Foram anos suportando com humilhação e silêncio as transformações de Pedro sem nenhuma reação mais radical. A questão era que, com o passar do tempo, seu filho cada vez mais se afeminava e a ousadia – ou seria alguma coisa a ver com a construção de seu gênero[6]? – de Clara se tornava, a cada dia, mais latente. O ódio de seu pai era compreensivo, na medida em que nunca um diálogo sadio pudesse amenizar os extremos de um comportamento intolerante. Aquela aversão à figura que se contradizia nos seus estereótipos[7] esperados pelo pai opressor se avolumando ao ponto da total ignóbil insistência paterna em doutrinar o corpo de Clara.

Disseram que seu pai bradava para que Ela virasse/voltasse a ser o homem com quem ele sonhara ser desde o nascimento. Gritava, ao mesmo tempo, que borrava, com sôfregos tapas, o batom vermelho de Clara, enquanto chamava ao seu Deus que interviesse naquele delicado corpo delicado para que o devolvesse a macheza de antes; gritava, dizendo que preferia o filho morto a vê-lo daquele jeito.

Disseram, mais tarde, que seu Aírton puxara Clara pelos cabelos até a cozinha e utilizando uma faca de cozinha e cortou-lhe todo o cabelo. Restaram apenas tufos imprecisos no couro cabeludo e que não faziam sentido para uma feição tão feminina quanto a de Clara. Sem seu batom vermelho e sua longa cabeleira, Clara deixava de lado seu lado feminino, completamente aviltado pela ignorância e crueldade de seu pai, e momentaneamente, despida de seu lado feminino, odiava ainda mais a aparência desejada pelo pai. Ali, acuada num canto da cozinha, ela não conseguia pensar no que acabara de acontecer. Esperou que escurecesse e o silêncio trouxesse uma dimensão apaziguada de sua alma, que estava ainda em revolta e confusa. Um vermelho corria-lhe pela boca, mas já não era o do seu batom.

 

SEGUNDO TEMPO

Eu não me sentia o mesmo desde a última semana. Mas o ambiente da sala dos professores continuava o de sempre: o mesmo microcosmo além-muros; o pequeno espaço da repetição da agonia diária lá de fora; a reiteração diária de todo o senso comum; a tentativa frustrada de repreender os corpos e domesticar os sentimentos.

Não seriam os professores atores, ora sendo o que não queriam ser, ora disfarçando o que realmente queriam dizer?

– Finalmente o pai daquele menino deu um jeito nele. – disse Diego jogando o material escolar na mesa central.

– Que susto! Que é isso? – falou a professora de Geografia.

– Como assim? De quem você está falando? – perguntou a professora de Português do 2º ano.

Alguma coisa me dizia que aquele episódio mencionando pelo Diego tinha a ver com Clara. Mas dessa vez eu não poderia ficar de fora da discussão, embora ela ainda não tivesse iniciado:

– De quem você está falando? – perguntei olhando-o nos olhos.

– Ora pessoal… não estão sabendo?

– Não! Acho que não – respondeu Ana Cláudia, professora de Filosofia.

– O pai da Clara, quer dizer do Pedro, deu uma corsa nele.

– Não acredito! – Indignou-se a professora.

Eu não podia acreditar que algo do tipo havia acontecido. Mas era provável que Clara sofresse algum tipo de violência – esta era quase iminente dentro da sala de aula, quiçá fora dela.

Na minha mente veio logo uma porção de imagens, seguidas de vozes abafadas e silenciadas pela covardia e vergonha, revelando momentos de dor e sofrimento pelos quais Clara passara nas mãos de seu próprio pai. Tanta coisa envolvida nesta violência, tanta ignorância por detrás. Mas quem era eu para falar destes assuntos, se eu mesmo não alcançava a complexidade do que estava em jogo?

Quem tinha razões? No fundo, Clara era uma cobaia de um sistema que, ao mesmo tempo, criava-a e rejeitava-a, que permitia seu devir[8], mas julgava sua escolha; que lhe dava um novo nome, mas tirava-lhe sua dignidade. No final, seu pai cumpria uma missão que lhe foi dada e à Clara sua saída estava em respeitar e lutar pela sua natureza disfórica[9].

Eu tentava entender os dois mundos, mas confessava ser mais próximo o entendimento da rejeição porque não sabíamos lidar com o novo, o diferente. Contraditoriamente, eu criava uma empatia pela rebeldia de Clara como algo genuíno. Por que não? Tanta coisa mudou de uns anos pra cá, tudo me parece menos rígido, no entanto permanece esta tensão que solicitava o tempo todo o passado, a herança como se nada pudesse ser transformada. De quem era a culpa da mudança e da tradição?

– Alguma coisa tem que ser feita! – retruquei de forma séria.

– Mas o que podemos fazer? – perguntou uma voz curiosa.

– Não devemos fazer nada. O pai sabe o filho que tem. – Diego debochou.

– Claro que devemos fazer alguma coisa – me insurgi.

– O professor Luiz tem razão. Clara é uma menina especial. Já tem muitos motivos para deixar a escola. – disse a professora Ana Cláudia, levantando-se

A reação do professor Diego me causou revolta. Impressionava-me a postura cínica e debochada em todas as conversas na sala de reunião. Não medi esforços para me aliar às professoras e tentar resolver a situação de Clara. Neste momento, eu havia atestado minha desavença pessoal contra o Professor Diego.

 

SE ESSA RUA FOSSE MINHA…

[Três meses e alguns dias depois]

Fazia muito frio. Mas isso não era impedimento para que usassem suas melhores roupas íntimas – apenas isso. Fiquei por horas dando voltas. Estava apostando naquela alternativa, na única possibilidade de sobrevivência para aquela teimosia de viver. Eu não tinha outro recurso senão apostar no óbvio ou a tudo aquilo que ouvi falar a respeito. Aliás, foi a primeira alternativa que Diego suscitou, embora eu não esperasse outra opinião dele que não fosse o desejar o destino de Clara às ruas.

(…)

– Você tem que voltar! – falei enquanto abria o vidro do carro, acompanhando as suas pernas longilíneas.

– O senhor aqui! – Ela se debruçou sobre a janela do carro. – Não me diga que…

– Não seja tola. Não estou aqui pa-ra isso!

– Então me deixe trabalhar…Meu lugar é aqui na quinta avenida.

– Clara! Clara!

Ela logo se adiantou, alcançando outro carro. Não tinha mais o que fazer. Avancei, deixando-a para trás. Fiquei observando, sua imagem pelo retrovisor, sua habilidade e rapidez. Logo estava dentro do carro. Talvez este realmente fosse o lugar de Clara, as ruas de noites penumbrosas pelos convencimentos da boemia e luxúria. Mas o que me doía era a sua idade, tão nova, envolvida nestes aprendizados tão dinâmicos, obrigatórios e danosos. A rua logo se tornaria, contraditoriamente, seu abrigo e sua ruína. Mas para quem não podia viver uma vida normal era perfeitamente justo relativizar a felicidade; era perfeitamente justo que eu comparasse nossos mundos. Quem era eu para afirmar que meu padrão de vida – em meio a tantas dúvidas quanto ao meu próprio desejo – era um modelo a ser seguido? Quais as escolhas eu tinha feito para me sentir realmente feliz? Clara era feliz? Eu era feliz?

(…)

Antes que acelerasse o carro, vi uma movimentação na rua. Clara era empurrada aos socos e pontapés para fora daquele carro em que havia entrado.

Saí do meu carro em direção à Clara que já estava no chão. O outro carro arrancou, cantando pneus. Não tive ímpeto de segui-lo ou anotar a placa, apenas pensei em cuidar dela. Novamente sua boca se enchia de um vermelho, que não era de seu batom. O sangue corria-lhe o canto esquerdo da boca, a maçã do rosto ligeiramente vultosa e o supercílio também sangrava. Ela estava assustada. Aquilo lhe parecia imprevisível, embora suas colegas tivessem alertado.

Pude sentir seu peito pulsando, enquanto ela se aninhava inofensivamente no meu abraço. Não conseguia falar nada, nem conseguia atingir a extensão da dor dos ferimentos.

Eu não sabia o que fazer. Queria apenas ter certeza de que ela estava bem. Mas os ferimentos deveriam ser tratados. Pequei-a no colo e coloquei-a no meu carro. Segui para minha casa.

Dentro do carro, no caminho para casa, Clara se mantinha calada. Agora, tocava seu rosto como se pudesse sentir a proporção do ataque sofrido. A boca estava inchada, o olho também inchado e dolorido.

(…)

Deixei-a sobre a minha cama. Os machucados tinham sido tratados pelos unguentos de mamãe. Como um animal acuado e assustado, encolheu-se na cama abraçando suas pernas. Não falou nada. Fiquei do seu lado para atender qualquer solicitação sua. Logo adormeceu.

Observava sua respiração de perto, olhando com mais vagar o seu rosto, tentando entender tanta coisa ali ao mesmo tempo. Talvez evitando um distanciamento necessário entre pesquisador e objeto de estudo, mas por outro lado, colocando a vida em jogo arriscando penetrar na subjetividade daquele corpo vulnerável ou questionar o método de análise e se imiscuir nas avaliações prévias, sem as constatações necessárias para dar um resultado; então o resultado seria libertá-lo e deixa-la viver. Por enquanto, observar seria apenas uma prática diletante, despretensiosa, sem julgamentos.

Mas lá estava minha mãe de braços cruzados sobre minhas dúvidas, quase podia antecipar suas perguntas.

Clara vestia um vestido de paetês dourados, alças bem finas que suportavam aquele curto pedaço de pano; seu seio esquerdo despertava ligeiramente, revelando uma singela aréola rosada ao redor do mamilo, a pele era levemente dourada com pelos muitos ralos; as mãos que seguravam as pernas tinham nos dedos esmaltados com toques de roxo. No rosto, notava-se uma forte base ao redor do pescoço, dando realce à maquiagem carregada. Nada disso era necessário, pois Clara tinha a pele cheia de viço e brilho da juventude; uma candura que contrastava com toda aqueles adornos sobre seu corpo.

– Quem é esta…moça?

– É a Clara, mamãe! Ela é minha aluna! – falei com pouco convencimento.

– Aluna, Luiz? – Mas como…

– Ela está em situação de rua. Foi agredida!

– Situação de rua? E estas roupas, Luiz? Não me parece que ela está em “situação de rua”… Peraí!

– Mãe, ela é uma aluna especial. Tem problemas com a família.

– Hum, mas não têm outros familiares? Por que a trouxe para cá, meu filho?

– Mamãe, a senhora sempre me ensinou a praticar o bem. Ela foi agredida…

– Bem, meu filho. Deixe então que eu cuidarei dela. Você não pode ficar aqui. Vá para seu quarto. Qualquer coisa te chamo.

– Mas mamãe, ela…

– Não me desobedeça! – me empurrou simbolicamente com o movimento da mão – Vá para o quarto. Deixe-a comigo!

Àquela altura não tinha como explicar muita coisa a ela. Deixasse que mamãe pudesse me dizer alguma coisa. Eu devia dar o exemplo de que fiz uma boa ação para um outro ser humano como eu. Que ela descobrisse para mim o que eu me questionava sobre aquela vida; que mamãe compreendesse melhor do que eu por que ajudar Clara, que aconselhasse o que eu não saberia aconselhar. E se a mim fosse confidenciado o que ela compreendeu, que eu soubesse lidar com toda a descoberta daquele ser.

Mas tinha outro problema a ser resolvido: como tratar o assunto Clara na minha vida? Em tão pouco tempo muita coisa – antes imperceptível – mudou de uma forma rápida, sem que suas consequências fossem ainda suscitadas. O que eu queria com tudo isso? Por que eu investi nesta aluna e não na figura do problemático João Paulo? Qual seria minha postura com o professor Diego? O que eu, de fato, sentia por Clara?

 

 PEDRINHO

[Ou o rosto maquiado da Clara].

“Quando eu tinha cinco anos, minha irmã Simone tinha 15 anos e no dia de seu aniversário ela ganhou um brinquedo muito desejado pelas meninas naquela época. Era uma cabeça de boneca que vinha com um monte de acessórios de maquiagem. Foi entregue todo enrolada numa embalagem grande e colorida. Era um brinquedo rico; cheios de pequenos compartimentos de caixas: uma com cílios de todos os tamanhos; outra com batons coloridos; uma outra cheia de brincos e colares, e havia uma outra que continha todo tipo de pincel. Como eu disse, era um brinquedo muito rico. Três meses antes, eu tinha ganhado uma bola oficial da seleção brasileira de futebol. No dia em que ganhei, não sabia o que fazer com ela a não ser chutar e correr atrás dela. E quando olhava para a boneca da minha irmã, perguntava-me onde estavam as outras coisinhas do meu próprio brinquedo. A bola veio enrolada num saco plástico transparente. De longe, eu percebia que era uma bola de futebol. Mas era uma bola oficial da seleção brasileira.

Lembrei-me de que tentara por várias vezes convencer Simone de trocar minha bola pela cabeça da boneca branca de olhos azuis e cabelos loiros. Ah, eu me esqueci de dizer que a boneca também veio com uma outra caixinha cheia de escovas e pentes. Minha irmã nunca cedeu a minha proposta. Ficava horas alisando/escovando aquele cabelos tão bonitos. E então, ela me respondia que aquilo não era brinquedo para meninos – este era o argumento mais forte; que meninos não brincavam com aquilo. A bola, a bola sim era um brinquedo de meninos. “Todo menino queria uma bola oficial da seleção”. No entanto, eu não parecia nada animando com o meu presente. Esta insatisfação durou toda minha infância; na adolescência, ela se tornou um verdadeiro despropósito.

Seu Aírton gostava de brincar com a bola e embora eu não tivesse gostado dela, nós costumávamos brincar por horas, afinal eu era muito ativo e gostava de brincar com os meninos que se alegravam com a tal bola da seleção brasileira.  Eu não havia gostado do presente, mas ficava feliz de estar entre os meninos. Porém, esta sensação durava apenas aquele momento da brincadeira. No resto do dia, eu ficava olhando para a boneca na prateleira da estante de minha irmã. Não havia acordo com ela, então eu comecei a mexer na boneca no período da manhã, pois minha irmã tinha aulas pela manhã e eu à tarde. A princípio, eu apenas reforçava as cores que Simone usava no rosto da boneca. Ela gostava de usar os batons vermelhos e sombras azuis nos olhos. Nas bochechas um pouco de blush rosado. Aquele era o padrão para as meninas, mas era difícil para minha irmã seguir aquele padrão, uma vez que tínhamos pele negra e aquelas cores não foram feitas para nossa pele. Só funcionava naquele rosto branco de Clara, a boneca de maquiar. Simone não sabia usar muito as cores, usava as mesmas cores que as meninas brancas usavam na escola. E mesmo que não pudesse criar meu padrão de cores eu passava a manhã toda escovando os cabelos de Clara e usando vários pinceis, eu fazia de conta que maquiava com todas as cores das pequenas caixinhas. Abria todas, colocava cada uma delas dispostas sobre o tapete, e como não podia usá-las no rosto de Clara, eu tentava alguma cores na minha própria pele, mas não era a mesma coisa que fazer o rosto dela.

Certo dia, minha irmã deixou o rosto de Clara completamente limpo. Naquele dia eu não resisti, peguei a boneca e usei minhas cores preferidas. Clara nunca ficara tão bonita. Usei sombras escuras no canto dos olhos, na parte de cima das pálpebras usei um tom mais claro juntando as cores brancas e um marrom cintilado. Usava os dedos ara diminuir as diferenças de cores e para que se harmonizassem da melhor forma. Fazia isso com uma precisão matemática a fim de que, em cada olho, ficasse igual. Abri a caixinha dos cílios. Havia cílios grandes, brancos, pretos e outros pretos com pontas brancas. Coloquei-os em casa olha com certa dificuldade, pois deveria seguir o contorno dos olhos.  Mas o efeito foi surpreendente. Minha irmã nunca tinha usado os cílios. No entanto, qual batom combinaria certo com aqueles olhos? Infelizmente não tive tempo para escolher a cor. Eu havia perdido muito tempo maquiando Clara e tinha que me arrumar rapidamente para ir a escola. Simone chegaria a qualquer momento e eu ainda tinha que limpar a boneca. Tentei usar o pano umedecido, mas não tinha efeito nenhum sobre as tintas usadas. Parece que elas não eram solúveis em águas e não adiantava usar com sabão. Nada adiantava. A solução encontrada foi esconder a cabeça numa caixa dentro do quarto dos fundos.

(…)

Este foi a primeira vez que apanhei do meu pai.

Nunca mais eu vi o rosto de Clara. Nem Simone podia mais brincar com ela”.

 

A BIOLOGIA DE DIEGO

[Relatos de um inquérito não oficial]

Eles chegaram por volta das 18h45min. Ferreira já os esperava. Uma ligação tinha sido feita às 18h19min. Segundo ele, estava tudo, como de sempre, preparado como as orientações de Diego. Ferreira perguntara se a menina era conhecida ou necessitava de algo mais. Diego. Este não respondera a solicitação. Às 19:10, a garota já estava sem o uniforme e trajava uma blusa preta com generoso decote. Pouco minutos depois, a garota já estava bebendo e fumando um cigarro mentolado.

(…)

Toda vez Diego escolhia uma aluna para levá-la ao bar. Presenteava com uma blusa e a fazia tirar o uniforme, trocando para que não causasse suspeitas sobre sua idade. Na verdade, o dono do bar já era conivente com as práticas do professor. Nos fundos do bar, o dono mantinha uns quartos para os encontros furtivos e criminosos clientes do bar e do professor. Obviamente Diego pagava pelos favores e conveniências do velho amigo dono do bar. As meninas tinham perfis muito parecidos. Geralmente eram meninas filhas de pais separados e que moravam com as mães ou outros parentes. Estavam sempre fora da idade própria do ensino médio, mas ainda eram menores de idade, nenhuma tinha menos de 15 anos, no entanto sempre caíam na conversa do professor que adotava uma postura de paizão.

O ritual era sempre o mesmo. A menina entrava pelos fundos e vestia uma blusa – geralmente de alças finas e bem decotada. Em quase todos os casos, as meninas eram virgens, mas já bebiam e fumavam – o que facilitava suas investidas. Desde o quartinho dos fundos elas eram recebidas com bebidas e cigarros, de lá seguiam para a mesa num canto do bar onde Diego, sozinho, já esperava pela jovem moça:

– Gostou da blusa?

– Sim. Linda, não é?

­ – Ficou linda em você!

– Obrigada!

– Não precisa agradecer. – serve-a com mais cerveja – Parece que foi feita para você.

– O senhor é tão diferente da sala de aula…

– Não me chama de senhor!

– Tudo bem Di-e-go. Você é uma outra pessoa fora da sala.

– Pois é, são tantos problemas lá dentro.

– Verdade véi. Não sei como vocês aguentam.

– Faz parte do nosso trabalho cuidar dos filhos dos outros…mas não viemos falar sobre isso.

– Tem razão… Tem fogo?

– Claro minha querida! Estou sempre pronto.

– Como assim Professor?

– Do que você tá falando?

– Ah, professor. Você sabe do que estou falando.

– Você nunca fumou?

–Não, não, não tô falando disso. Eu nunca fiquei assim…com um homem mais velho…você entende, né?

– Você diz, transar?

– Sim, é isso aí!

– Tudo bem. Vai ver que não é nada de mais… Quer mais cerveja?

–É uma questão de apreciação ou de tempo, ou os dois ao mesmo tempo, saca?

– Hum.

– Fale um pouco mais de você… Vai prestar vestibular para quê? Acho que você tem todo tipo para ser uma advogada.

– Nem sei professor…

– Me chame de Diego!

– Tá bom…eu não sei ainda. Talvez arquiteta.

– É…podemos fazer um teste vocacional.

– O que é isso?

– Alguns testes que te dizem sua verdadeira orientação para determinada profissão.

– Legal. Gostei disso!

– Eu quero muito ajudar vocês.

– Posso ser mais do que um pai…Vai mais cerveja?

– Só mais um pouquinho. Esse negócio está me deixando tonta.

– Sabe aquele momento entre a apreciação e o tempo? Estamos chegando lá. No começo tem este gosto depois melhora.

– Hum. Não tem algo mais doce?

– Já tomou caipirinha?

– Ferreira! Traz uma caipirinha de limão, bem doce, para esta princesa.

– Princesa, eu?

– Sim, você é minha princesinha! Comigo, você vai aprender muito coisa.

– E a prova, professor? Tava difícil, hein? Acho que não me saí bem.

– Não se preocupe com isso. Em Biologia…na minha Biologia, você não reprova.

(…)

Naquele dia, Diego não conseguiu colocar em prática o seu plano. A aluna se recusou a ir ao quarto dos fundos. Diego insistiu com todas suas forças, inclusive a violência física. Diziam que ele bradava que a aluna, desde o começo, queria aquilo; ela sabia o que queria; ou ela procurou por isso. Ela não era virgem. Mentira! Podia jurar que a aluna o enganara para que ele criasse mais interesse naquele jogo. Por seu turno, em sua defesa, a aluna dizia que o professor a embriagara de propósito, que existia um quarto dos fundos, e lá um homem – o proprietário do estabelecimento mantinha aquele local por exigência do professor. Mas ela conseguiu fugir das garras dos dois. Um homem entrou no bar gritando, exigindo do Sr. Ferreira o pagamento de uma dívida de jogo. Os dois se pegaram. Diego interveio, tentando separá-los. A aluna fugiu dos olhos e das garras deles.

Depois do ocorrido, Diego pegou seu carro e seguiu para a zona central. Revoltado com a recusa da aluna da Escola, foi até a zona do baixo meretrício; mas antes de chegar lá, foi ter com as bonecas[10] da quinta avenida, região conhecida pelas travestis prostitutas da região.

 

AS NOVAS ROUPAS DE CLARA

Mamãe concordou que Clara ficasse em casa, mas ela ainda não tinha permitido que ela usasse roupas femininas. De fato, Clara não tinha mais roupas consigo e aquela que usava na noite passada, nunca seria aceita pela minha mãe. Bem, assim eu pensava a respeito daquilo tudo. “Enquanto seus cabelos não crescerem, você usará as camisas de Luiz!”. Esta foi sua condição estabelecida para que ela ficasse, vez que voltar para sua casa era uma possibilidade descartada – e perigosa – para ela naquele momento.

 

Fiquei surpreso com a decisão dela, embora isso fosse quase que previsível. Eu precisava de tempo para decidir o que fazer com Clara. Porém, outra decisão de minha mãe interferia pontualmente na minha orientação de que Clara voltasse imediatamente para a Escola São Sebastião. Não entendia sua insistência para que ela não voltasse a estudar lá. Toda sua cadeia afetiva, ainda que às duras penas, havia sido construída na Escola Benjamin Batista. Também havia o entrosamento com os outros professores – menos, obviamente com o Professor Diego. Verdade que havia estes problemas pontuais com a resistência do Diego, mas uma mudança por completo deste ambiente causaria outros tantos problemas, como readaptação e convivência escolar. Clara parecia forte o suficiente para continuar naquele ambiente escolar que começava a respeitar sua condição. Logo, logo o cabelo dela cresceria e voltaria ao seu volume natural.

 

No entanto, mamãe estava resoluta em sua decisão. A verdadeira causa eu descobri depois de algum tempo.

(…)

Por muito tempo, Clara conservou um silêncio e um isolamento impenetráveis, e minha aproximação se tornava cada vez mais delicada, tanto pelas tácitas proibições de minha mãe, quanto pela minha forma de sentir a presença de Clara dentro de minha própria casa; e especialmente dentro de mim.

Ela usava minhas camisas sociais, mas vestia um short curto quase encoberto pela camisa que eram três números maiores que o dela. Mesmo com lenços sobre a cabeça e usando minhas roupas, Clara conservava toda sua beleza feminina – era difícil acreditar numa essência diferente. O que era Clara para mim?

O silêncio era proposital ou uma exigência de minha mãe? Esta não tocou no assunto por diversas semanas. Clara ficava dentro de casa e a ajudava a executar algumas tarefas domésticas. Cheguei a ouvir a voz de Clara que conversava com mamãe sobre os temperos e cortes de carne. Ela estava ensinando Clara a cozinhar. Na minha cabeça, alguma coisa me dizia que minha mãe reconhecia nela a figura feminina. Elas ficavam horas na cozinha. Clara parecia muito bem naquela situação. Aos poucos as duas estabeleciam uma relação de cumplicidade, enquanto uma catava o feijão, a outra cortava as verduras. As conversas giravam em torno daquela dinâmica. Eu não podia ficar muito tempo na mesma sala, até porque eu saía cedo e quando voltava estavam todas dormindo. Então nos finais de semana, podíamos fazer uma refeição em conjunto, porém era difícil que alguma conversa fosse estabelecida, vez que mamãe controlava as conversas; quer dizer que ela fazia as perguntas de respostas simples e sempre direcionava os assuntos. A conversa se limitava como sempre aos afazeres domésticos, contas para pagar, e no máximo, meus estudos para o concurso público.

 

Clara permanecia calada e cabisbaixa; sempre se oferecia para lavar a louça suja. Recolhia-as silenciosamente. Esta postura um tanto quanto contraditória, em nada fazia lembrar aquela menina altiva e corajosa. Alguma coisa me fazia pensar que existia a mão de minha mãe naquela situação. Clara não usava maquiagens e não parecia em nada com aquela menina que vi na Escola. Ou alternativamente, o trauma trazido por aquela situação de violência sofrida, tenha sido muito mais grave do que eu pensava.

 

Resolvi acabar com aquele silêncio!

 

– Você não está à vontade com estas roupas? – perguntei rompendo aquele ritmo dos dias.

 

– Não. De forma alguma! – respondeu minha mãe antecipando a resposta de Clara.

 

– Mamãe, deixe que a Clara fale. Eu quero saber. – Insisti na pergunta – Você está.

 

– Sim, sim. Elas são muito confortáveis, professor! – sua voz tinha força de um suspiro.

 

– Como assim Clara? Você não usava mais este tipo de roupas… Por que agora essa resignação toda? Este silêncio? – tentei deixá-la mais à vontade.

 

– Não seja tolo Luiz. – minha mãe intercedeu – A menina está bem. Não vê? É uma situação temporária…Todos nós sabemos disso!

 

– Mamãe eu não entendo por que permitiu tudo isso! Nem parece que a senhora escorraçou a Eli daqui!

 

– Por que trazer este assunto da Elizabete agora, meu filho? – ela tentava reagir naturalmente. – Faz tanto tempo isso. – olhou para Clara sem muita graça – E nem seria o momento de falar sobre este assunto agora. – mostrou-se impositiva.

 

– Afinal a senhora fez isso pelo bem dela, não é?

 

–Sim, meu filho. Ela deve ser grata até hoje. Ela e aquela outra lá.

 

– Desculpe Clara. – virei meu olhar para ela – Não queria que se sentisse incomodada.

 

– Tá tudo bem Professor, Dona Iara me trata muito bem. Com licença! – falou dirigindo-se para a cozinha.

 

– Você não deveria ter falado sobre este assunto da sua irmã…

 

– Tá bom mamãe. Desculpe. Não deveria ter falado mesmo. Mas por um momento pensei que estive fazendo a mesma coisa que fizera com a Eli.

 

– Não seja leviano, meu filho. Não há mais o que fazer com a Clara. Ela já fez sua escolha.

 

– Como assim?

 

– Não há mais nada que eu possa fazer, a não ser aceitar sua decisão. Mas ela não volta mais para a Escola Benjamin. Ela não pode ficar mais lá.

 

– Mas por quê? Por que mamãe?

 

– Não discuta Luiz. Lá não é mais um lugar seguro.

 

– Mas por quê? Lá Clara tem toda uma vida construída lá. Tem um longo histórico de acolhimento. Dizem que a antiga diretora fez de tudo, brigou com todos para que Clara fosse aceita do jeito dela.

 

– Si, sim, ela me disse isso!

 

– Então, mamãe! Uma pessoa com este histórico e ainda mais com toda sua inteligência, não pode ficar fora da escola por muito tempo.

 

– Mas quem disse que ela vai ficar fora da escola? Está tudo certo para ela estudar na São Sebastião.

 

– Mas a São Sebastião é do outro lado da cidade.

 

– Qual o problema?

 

– São tantos.

 

– Não posso mais frequentar a Benjamin, Professor Luiz! – Clara surgiu interrompendo a conversa.

 

– Mas por quê? – me exaltei ligeiramente.

 

– Não posso contar professor!

 

– Como? O que você não pode contar? O que está acontecendo aqui? – olhei para mamãe procurando respostas.

 

Mamãe trocou um rápido olhar com Clara. Esta, mais uma vez baixou a cabeça em perfeita demonstração de obediência e respeito à figura sisuda de minha mãe. Logo percebi que alguma coisa estava errada. Um segredo havia se estabelecido entre as duas. Não queria acreditar que isto tudo tinha a ver com as novas roupas de Clara. Não queria acreditar que mais uma vez minha mãe manipulava aquela criatura, como fizera com Eli, retirando-se qualquer esperança de autonomia do pensamento, especialmente do desejo.

 

Elas permaneceram em silêncio. Podia sentir que Clara queria me contar algo. Esperei que este momento não demorasse muito. Como não demorou.

 

DE VOLTA À ROTINA

 

As aulas no 3º ano C andavam sem nenhuma ocorrência diferente das rotineiras: alunos atrasados, conversas paralelas, bilhetes misteriosos, celulares. Tudo isso era facilmente resolvido com pequenas admoestações sobre a vida, sobre o futuro. Aquelas preleções deixavam os alunos temporariamente alertados ou repreendidos. Mas logo a duração desta preocupação passava e a dinâmica de suas pequenas histórias cômicas e trágicas continuavam a enredar suas próprias vidas escolares.

 

Eu me questionava ao olhar para aqueles pequenos arremedos de história o que estariam fazendo daqui a 10 anos com suas vidas. Que projetos estariam encabeçando? Como usariam estas aulas de Português nas suas vidas? Estariam lendo mais, escrevendo mais? Que opções teriam feito para suas vidas? E por que esta sensação de termos alguma responsabilidade nas vidas destas criaturas?

Dia desses conversava com um antigo professor da graduação e ele falava sobre a facilidade de se ensinar quando se é um professor medíocre. O trabalho é o mesmo ao longo de anos. Nada muda seu jeito de lecionar. Vai com o tempo se automatizando, deixando de lado discussões, diálogos. Vai criando uma forma bem particular, mas engessada de comunicar com o mundo de cada aluno, preterindo os complicados e se aliando a uma turma que facilmente aprende sem contestar ou ser capaz de criar senso crítico. E este professor confessava seu cansaço, sua automaticidade, sua desistência. Praticamente decorava sua fala como se fosse um ator desestimulado com o ofício. Tudo se repetia. E não podia ser diferente. A plateia já estava extasiada de tanta repetição. O conteúdo não sofria qualquer frescor da mudança, sempre utilizava os mesmos exemplos, as mesmas histórias. Não tinha vontade de adaptar com qualquer leve alteração ao ritmo, à contemporaneidade. As aulas eram expositivas, sem direito a qualquer outro recurso, nem mesmo sua voz. Tornara-se um professor solitário, sem interagir e nem permitir qualquer esboço de reação de seus alunos. Nada nas aulas do Professor Cortez parecia real. Os exemplos de suas frases recriavam cenas antigas, presas a uma realidade anacrônica. Não havia qualquer mudança. Para ele, mudanças tinham algo de suspeito, de desafiador. Os planos de aulas, já carcomidos pelo manuseio, estavam sujos e desbotados. Nada havia sido mudado. Suas aulas eram demasiadamente teóricas e poucos alunos reclamavam de sua didática. As avaliações não tinham critérios reprovativos, mas não era porque fizesse uma avaliação formativa, avaliando o aluno pelas suas reais e destacáveis potencialidades. Pelo contrário, eram avaliações superficiais que atestavam apenas o conhecimento formal. Mas não partia dele nenhuma análise de qualquer percepção criativa ou emocional. Seus alunos tinham as respostas prontas. Eles aprenderam a antecipar as provas do professor Cortez. E ele me confessava que era ciente de toda esta dimensão. Era cônscio de sua postura, mas me deixava claro que não sentia mais aquela necessidade de mudar.

“Eu já fui um professor bem intencionado como você. Estive imbuído desta mesma vontade e ímpeto desde que comecei a querer mudar vidas. Mas nada consegui fazer. A humanidade está fadada ao medíocre. Eu tentei, como você, ser diferente. Eu me revoltei com a forma de ensinar. Deixava os alunos encontrarem a melhor forma de aprender os conteúdos. Usávamos o teatro, a música que ouviam e até mesmo saímos pelos cantos da cidade para ver como a língua era usada. Eu fazia de tudo pelos meus alunos. Eu os via como uma superação de mim mesmo. Confiava neles toda a sorte de oportunidades que a mim não foram possíveis. Desconstruí a forma pela qual eles estavam acostumados a aprender. Fiz tudo que entendessem que o conhecimento é a própria vida… Mas sabe quando você cansa da vida? Quando você pensa que pode ter mostrado o seu melhor e nada parece ter resultado. Quando as pessoas começavam a te avaliar e veem em você algo de diferente, de anormal. Começavam a depreciar todo seu trabalho porque você é diferente. Aí entra inveja, o medo o preconceito. Pois é… há cinco anos me envolvi emocionalmente com um aluno. Sabe, quando você enxerga no outro uma extensão mágica de liberdade e disposição pela vida? Um aluno com talento para a música e para as artes. Eu o tinha como modelo de uma proposta que trabalhando de maneira espontânea, mas com aquele desejo de que o projeto vingasse de alguma forma. Eu me sentia feliz por aquele exemplo de mudança, de possibilidade. Este menino me despertou para a própria vida, que começava a enxergar sem propósito. Sabe? Tanto de trabalho e nenhum aluno parecia desenvolver algo que me motivasse. Mas este não. Mateus era seu nome. E se você me perguntasse o que eu sentia por ele, eu certamente ainda não saberia te responder. Mas a escola toda parecia entender o que não sabíamos. E esta falta de compreensão interna foi o que me levou a uma ligeira ruína. Saiba Luiz, a pior praga do mundo é o preconceito: aquilo que não conhecemos e rechaçamos por pura leviandade da nossa essência. Eu não podia, nem posso te afirmar que era um amor como formalmente nos deparamos. Mas havia algo forte que aquele menino causava. Mas como eu te disse, os outros enxergaram tudo o que não havia. E ainda hoje me pergunto o que houve. Não demorou muito para que eu fosse substituído e removido, sob forte recomendações de mudança, para outra escola. E até hoje eu não sei o que me aconteceu. E, até hoje… eu nunca encontrei um aluno como o Mateus”.

 

Lembrei-me desta nossa conversa e por mais que tentasse extirpar qualquer tipo de preconceito, tudo aquilo me assustava de alguma forma. Internamente eu sentia aquele mesmo medo invadir meu pensamento diante daquela turma tão heterogênea. O professor sempre é desfiado a promover mudanças, a ser lembrado, a ser simpático e receptivo. Não era meu caso. Como educador eu deveria passar por muita aprendizagem, e por enquanto era processo era bem mais definido no percurso aluno-professor.

(…)

– Professor…professor… o senhor ainda vai dar aula hoje? – balbuciou o pequeno Nicholas que sentava bem na carteira da frente – Já tem alguns minutos que o senhor está parado aí!

 

Como poderia eu retomar a aula naquele momento? Qualquer fala ou atitude seria indisfarçável diante de minha perplexidade e inércia. Embora eu ouvisse a indagação de Nicholas, eu me mantinha ainda absorvido pela história do velho mestre. Em tudo eu me identificava com ele: a exaustão, o cansaço, a dedicação, a vontade de criar gênios, e, sobretudo por conta do que sentia por Clara.

– Anderson, Anita, Arlisson…Bruno… Clara…Clara…Clara!

– Professor, a Clara desistiu da escola.

(…)

 

O GRITO DE CLARA

– Alô, meu filho. Luiz, Luiz…

– Oi mamãe o telefone estava no silencioso. Só pude ver agora. Aconteceu alguma coisa?

– Sim, meu filho. Estou aqui no Hospital.

– Está tudo bem? O que houve mamãe?

– Meu filho. Uma tragédia. Clara tentou se mutilar.

– Como assim mamãe. O que ela fez?

– Ela tentou cortar o seu órgão genital.

– Como? Onde vocês estão?

– Estamos no Hospital São Carlos.

– E ela está bem?

– Está sedada. O médico falou que ela está fora de risco, mas perdeu muito sangue.

– Estou indo aí. Me espere! Ah, qual o apartamento?

(…)

Por que eu tive um pressentimento assim? Por que eu supunha que algo poderia acontecer com ela numa dimensão do seu próprio corpo? Como aceitar esta diferença anatômica sem digladiar com a mente que define outros padrões. Era natural, para mim, que tudo isso viesse acompanhado de alguma rejeição ou não aceitação. Por que eu sentia que aquelas roupas não condiziam com a figura feminina que eu havia conhecido tão displicentemente e ao mesmo tempo tão fortemente estruturada dentro daquela sala de aula? E logo diante de mim, usando minhas roupas, eu enxergava que ali não residia uma pessoa feliz. Como seria guardar uma essência estanha ao externo dos outros olhos por debaixo de tanta camuflagem social? Clara não me parecia contente com aquelas roupas, embora eu soubesse que elas tinham um apelo social histórico, constituído pelas formas adotadas pela sociedade que conformavam os corpos a posturas e usos daqueles instrumentais sociais. Mas eu acabava internalizando que as roupas não nos faziam humanos, mas apenas era uma condição de repúdio a um comportamento imoral da nudez. Se Clara estava à vontade com aquelas roupas, não eram elas que causavam certo apaziguamento dentro de sua alma, mas uma forte convicção interna de existência. Meu deus, como era difícil para mim entender que estava tudo bem! E não estava. Mas por que então a mutilação era uma forma de marcar uma existência? Ou por outro lado, seria uma forma de anular sua existência?

Não conseguia dirigir o carro sem pensar nestas questões, e ainda mais se tornava difícil como me comportar diante de uma pessoa com a alma mutilada. O que dizer nestes momentos tão delicados, se não sabemos qual a dimensão do ato infringido contra o próprio corpo? Podemos nos reinventar ao ponto de extirpar as partes que não queremos assim de uma forma tão simplória e ao mesmo tempo irreversível? O que realmente estava cansada de ser? O que eu tiraria de mim para ser um melhor eu? Ou seria mais fácil para mim porque eu poderia colocar ao invés de tirar? Ou não tirando nada, eu teria uma sólida convicção de que eu não precisaria mudar nada?

Embora eu fizesse tantas perguntas, as repostas não se dariam de forma simples porque parece que estamos sempre num processo de aprendizagem no qual não sabemos de fato quem somos. Mas será que é assim mesmo que funcionamos? Não há uma essência preservada, como se fosse o âmago de tudo, e lá dentro nossa possibilidade de existência estivesse já consolidada? Eu queria acreditar, ou fizeram que eu acreditasse que eu era completo. Mas observando estes acontecimentos eu sinto que não estou completo. Fico nesta indecisão agora que carrego comigo, aqui dentro, como se fosse uma leve instabilidade. Coisas que não cogitei há alguns poucos anos. Uma necessidade de entender o que sinto depois de me aproximar de Clara. O que eu estava prestes a mutilar nesta minha existência pronta?

Não sabia o que dizer para ela. Parecia que estava pronto para lhe dizer que sim. Sim, podemos cortar algo de nós mesmos e encontrar a verdadeira essência. Mas se tivesses sido o corte de Clara um cansaço de sua existência? O que eu diria? Nossa. Não tinha respostas para aquilo tudo, nem poderia levar para casa como um exercício para ser pesquisado. Onde empreenderia esta pesquisa?

O pensamento não saía de Clara. O que ela era agora depois disso? Será que ela conseguiu cortar tudo, dando cabo ao lado masculino? Seria seu corpo externo um protesto velado a toda a impossibilidade reconhecida de uma real mudança? Não acredito numa rebeldia contra um sistema maior e repressor dos corpos. Pode ser. Mas o protesto solitário, atentando contra a própria vida parece mais uma reivindicação honesta de um genuíno desejo.

(…)

– Como foi isso mãe?

– Ah meu filho. Eu estava voltando das compras. Tinha deixado Clara descascando umas batatas. Quando voltei ela estava no chão da cozinha se esvaindo em sangue.

– Meu Deus. Mas… o que ela fez?

– Meu filho eu não sei direito. O médico falou que ela cortou parte do pênis e os testículos, e que perdeu muito sangue.

– Onde ela está?

– Agora acho que não pode receber visitas e se pudesse estaria sedada. Não conseguiria falar.

– Eu vou lá vê-la!

– Meu filho…

(…)

Clara parecia estar numa espécie de sono profundo. O braço esquerdo cheio de tubos e agulhas. Vestia uma bata hospitalar que deixava o colo à mostra. O turbante não fora retirado. Este pequeno detalhe talvez me dissesse que durante o ato da mutilação Clara sabia perfeitamente quem queria preservar. A sua identidade estava preservada por aquela pequena indumentária sobre sua cabeça. Se atentasse pela sua própria vida, talvez se desnudasse destas vestimentas. Sei lá. Isso não queria dizer muita coisa. Não adiantava procurar indícios de sua tentativa de alguma coisa. O importante era pensar nela a partir dali.

O ANEL AZUL

[As mãos suaves de Clara]

“Eu sentia uma dor por entre as pernas. Não quis ver o corte. Não sei se foi suficiente para mudar o que queria. Desmaiei antes que pudesse ver o tamanho de minha dor. Mas não dava mais para continuar naquela casa, naquele corpo. As duas coisas pareciam insuportáveis. Mas eu não sabia, de agora em diante, onde meu corpo ia habitar. Mas eu deixava que aquela tentativa de alívio fosse me levar para longe. Eu não suporto mais viver como Pedro. E como vai ser agora?

Estava cansada destas voltas desagradáveis que minha vida dava. Uma repetição que não me garantia uma estabilidade qualquer. Ficava presa neste jogo de gato e rato, mas quem estava atrás de quem? Sempre foi difícil saber o que eu era. Ainda bem pequeno lembrava de meu pai me cercando, tentando entender por que eu era diferente. Por que eu ficava na cozinha olhado minha mãe e aquele lugar que não era adequado para mim. ‘Saia daqui garoto. Cozinha não é lugar para meninos’. E a minha mãe observava aquilo com outros olhos. E eu a observava nos seus afazeres, como quem lia um texto novo. Anotava na minha memória tudo aquilo que era novo. Eu tinha até uma pequena caderneta onde eu colocava um sentido para as coisas aprendidas. E assim ia aprendendo a ser diferente. Meus irmãos não precisavam destas aprendizagens. Tudo para eles vinha simples como o ar da respiração. Mas a minha tinha que ser assistida. Todos ficavam me olhando para saber se ia respirar normalmente. Eu parecia uma pessoa doente.

Quando observava minha mãe no quintal fazendo sua assepsia matinal; uma bacia com água e a gilete usada para depilar os pelos das pernas. Eu achava que ela pintava suas pernas com os toques leves sobre a pele macia. Ela deslizava a gilete suavemente pela perna. Logo a pele estava mais brilhante e com um viço diferente dos outros. Eu ficava maravilhado com aquela maneira como ela matinha a pele sem pelos. E me perguntava para que serviam aqueles pelos nas minhas pernas. Anotei tudo no meu caderno. Aprendia raspar as pernas. Nunca deixei os pelos crescerem. Mas por pouco tempo este aprendizado tinha funcionado. Brincava com os meninos da rua. Jogava futebol porque era o que tinha pra fazer. E por algum tempo me esqueci do ritual dos pelos. Foi aí que meu pai percebeu que eles cresciam de uma forma diferente. Roçou-os a contrapelo e sentiu que fizera algo. ‘O que você fez Pedrinho? Não vê que seus coleguinhas não fazem isso?’ Fiquei de castigo. Tive que apagar da minha caderneta esta parte do aprendizado. E assim, meu estágio da doença só agravava, e eu continuava a ser observado pelos olhos de meu pai.

E nesta caderneta começam a escrever por mim. E eu já não sentia necessário recorrer a ela. Deixou de ser um registro espontâneo. Tudo era preceituado com um sonoro NÃO. Não pode andar com as meninas. Não pode ficar na cozinha. Não pode ficar com sua mãe. Não pode brincar na rua com os meninos. Não pode sair de casa sozinho. Não pode!

Era uma outra vida, sendo vigiado e observado. Eu não podia chorar nem demonstrar sensibilidade. Os desenhos foram proibidos, a pintura recreativa também. Ficava apenas em casa, fazendo as tarefas da escola, aprendendo agora outras coisas: trabalhos manuais, como consertar as peças do carro de papai e outros trabalhado ditos para homens: tudo que envolvesse força braçal. Os desenhos que fazia foram descobertos. Um pequeno crime. E todos foram rasgados na minha frente. As aulas de educação artística me pareciam um pecado. Mas eram os melhores momentos da minha aprendizagem escolar. Nunca me esquecerei da figura espirituosa da Professora Socorro e seu anel escandaloso do dedo da mão direita. Todo contorno ou desenho que ela fazia tinha aquele tracejado do grande anel antes que a arte fosse revelada. Ela fazia arte em tudo, com pincel atômico, com giz de cera. Era uma artista. (…) Eu queria ser a tia Socorro!

Logo me desataquei como melhor aluno em Educação artística. Mas que queria ser reconhecido por tal? Ninguém era reconhecido por tal. Eu mesmo observava nela certa resistência em aprofundar a minha arte. Talvez ali também houvesse alguma prescrição impeditiva de não poder continuar com aquilo. Eu me lembro que concorria com uma menina chamada Patrícia, esta sim recebia a atenção da turma e da Professora Socorro. Mas eu sentia na professora uma resistência para me manter naquele espaço. Às vezes eu podia sentir nela alguma vontade de me guiar num processor contínuo, porém alguma coisa a impedia de seguir sua intuição.

Nada sobrou desta minha arte. Mamãe escondeu uns croquis que fiz ainda sem a tutoria velada da Professora Socorro. Eu teria sido uma artista, certamente com um grande anel no dedo. Mas tudo ruiu de uma forma que não pude ter mais contato com a arte em qualquer vertente. Eu tinha que ficar num mundo preto e branco: de carburadores, canos, enxadas e terra. Assim meu pai pensava que eu me tornaria um homem normal.

(…)

Agora estou aqui nesta maca, deitada como se me observassem novamente minha respiração e minha condição humana. Estava viva? Eu não sabia ao certo o que estava acontecendo comigo. Seria alguma espécie de coma? Acordaria de vez como Clara? Eu imaginava aquele grande anel da professora Socorro desenhando uma figura feminina. Ela contornava meu corpo sobre aquela maca, suavizando minha pele, deixando saliências se avolumarem, retirando os excessos da pintura. E no final ela olhava pra mim e dizia: Você é uma obra de arte, Clara!

Era um sonho. A arte era apenas uma imaginação de mim mesma. Eu mesma poderia fazer esta arte comigo. Eu queria muito acordar sem ter todos aqueles equipamentos a controlar minha sanidade, meu corpo.”

Na colação de grau do ensino fundamental, todos estavam reunidos para receber o canudo com o diploma. Eu observava cada um receber o seu diploma. O nome chamado em ordem alfabética. A cada momento que se aproximava da letra P meu coração acelerava. Um menino tímido que via tudo de forma diferente. Eu sempre quis ser reconhecido pela minha sensibilidade, queria mostrar ao meu pai que eu sabia fazer alguma coisa, que não era pecado usar as mãos para coisas mais delicadas.

(…)

Meu nome foi anunciado. Professora Socorro levantou-se, acompanhou com seu olhar minha travessia. Pegou o canudo deslizando aquele grande anel azul sobre o tecido felpudo do canudo. O anel brilhava de longe. Me deu um abraço bem apertado. Eu podia sentir o frio do pesado anel de aço sobre minhas bochechas.

Eu sentia que ela queria dizer mais alguma coisa.

Ela queria me dizer alguma coisa!

 

DEPOIS DA QUINTA AVENIDA

 

“Disseram que ele bateu o carro contra o poste de alta tensão bem antes de chegar em casa. Com o impacto, seu corpo foi projetado para fora quebrando o para-brisa e sendo arremessado alguns metros à frente. O corpo caíra desfalecido no chão. A cabeça toda ensanguentada, o braços também e um vultoso hematoma no seu peito. Não reagia.

Procuravam entender aquele violento acidente. O povo começou a se juntar em volta. Ninguém teve coragem de chegar perto dos corpos. Diego fora logo reconhecido. O corpo de 1,81 cm abraçava o asfalto contra seu peito, a cabeça virada para esquerda: “É o professor Diego”. Logo mais adiante estava um corpo com vestimentas femininas. Estava estendido. Demoram a reconhecer aquele corpo. Os dois estavam a alguns metros de distância. Algumas pessoas quiseram tirar o corpo da mulher, para que as pessoas da família não os vissem juntos. Mas ninguém teve coragem de chegar pertos dos corpos feridos, tampouco nenhum deles mostrava sinal de vida.

O som da sirene chegou mais perto. A multidão se afastou espontaneamente, abrindo caminho para que os bombeiros realizassem seu trabalho. Alguém gritou: “É a Pamela, é a Pamela”. Logo todos também confirmaram que se tratava da travesti Pamela, que ficava na quinta avenida e que fazia programas naquela região.

Diego não tinha parentes na cidade. Alguns amigos foram avisados. Ficaram perplexos com as informações de que a travesti estava no seu carro e os dois sofreram um grave acidente. Embora preocupados com o estado do amigo, ressentiam-se da sua reputação, pois nada sabiam desta opção de Diego pelas travestis. Alguém supôs que ele estivesse embriagado e que não soubesse talvez o que estava acontecendo. Talvez tivesse sido enganado pela travesti. Todos começavam a falar alguma coisa em defesa de Diego. Ainda podia se ouvir dizer que Diego respirava, por outro lado, Pamela parecia que havia morrido.

Os corpos foram levados pela ambulância, os primeiros socorros ou o que poderia isso significar, seriam feitos no caminho ao hospital. De fato, parecia que Diego realmente respirava. A envergadura do corpo, a consistências dos ossos ajudaram-no no impacto sofrido. O médico acompanhara todo o procedimento. No entanto, Diego embora respirasse e mostrasse claros sinais vitais, não conseguia se lembrar do ocorrido. Os amigos que o acompanharam nem fizeram questão de relembrar-lhe o que de fato tinha ocorrido. Naquele momento todos omitiram o fato de ele ter provocado a morte de uma pessoa, e esta pessoa era a conhecida travesti Pamela.

Pamela conseguiu escapar da morte. Ficara alguns dias em coma induzido para que alguns órgãos fossem poupados neste processo de recuperação. Teve algumas escoriações no rosto e parte do lado direito; teve a bacia quebrada, mas também estava fora de risco.

(…)

Alguns dias se passaram e Diego ainda se recuperava de alguns hematomas e pontos que levara ao longo do braço esquerdo. E, mesmo que tivesse, fora de perigo, algo estranho tinha acontecido com sua memória. Ele não conseguia se lembrar de nada que acontecera naquele dia e apenas reconheceu o professor Luiz que o visitara dias depois do acidente. Nenhuma das professoras que o visitara alcançou qualquer resquício da sua lembrança. Luiz forçava-o a lembrar dos últimos acontecimentos. Indagava-o sobre o que tinha acontecido. Mas ele era incapaz de se lembrar de algo daquelas horas que antecederam. Sua cabeça estava confusa. Não conseguia raciocinar. Sabia que lecionava biologia no Benjamim, que eles haviam conversado, “mas sobre o que?” ele se perguntava e respondia pela negativa de alguma resposta. De repente, ele começou a falar que se lembrava de um rosto familiar. Era um rosto feminino. Era tenro. “Mas eu não consigo lembrar direito… Espera, ela usava um vestido de alças finas e com brilhos. Era isso”. Luiz sentiu um arrepio na espinha. Pediu para que ele tentasse se lembrar de nomes. Ele não conseguia. Luiz insistia para que ele relatasse com mais clareza aquela situação. Diego relatava que se lembra de ter conversado com esta menina ainda dentro de seu carro. Tentava se lembrar do rosto. Forçava a memória. No entanto, repetia que se lembrava daquele vestido. Luiz pediu que ele se acalmasse, que todas as lembranças logo voltariam.

Luiz ficou em estado de choque. Na mesma noite Clara havia sofrido aquela agressão. O acidente com a travesti Pamela não podia ser mera coincidência. Todas ficavam na quinta avenida. E fora ali que Luiz encontrara Clara machucada, sendo empurrada do carro aos socos. Os fatos se encaixavam perfeitamente. Luiz não tinha dúvidas a respeito do que acontecera naquele dia. Poderia ter sido com a Clara, Luiz ponderou com sofreguidão e espanto.

Pamela ficou algumas semanas internada. Logo, saiu restabelecida do hospital sem deixar paradeiro. Soube-se que fora morar na cidade vizinha. Não se comentava sobre sua saída da cidade, mas não se esqueciam de que Diego estava em sua companhia. Mas ao mesmo tempo, as pessoas se apiedavam da condição de Diego, que não era capaz de reconhecer nenhum de seus amigos; nenhum de seus alunos. Parecia uma outra pessoa. “Mas por que ele se lembrava apenas de mim?” Luiz se questionava de uma forma assustadora.

Agora ele se lembrava do segredo de Clara com sua mãe. Seria este o segredo que elas guardavam? “Então era por esta razão que minha mãe não queria Clara voltasse para a Benjamim”. Agora as coisas se esclareciam. Talvez sua mãe não fosse tão ruim e estivesse de fato protegendo Clara. “Será?”. Diego certamente havia ameaçado Clara de voltar para escola. Talvez Diego já frequentasse a quinta avenida há algum tempo. Clara fugira de casa. Então ela ainda não era conhecida de Diego, e o fato de pegá-la na rua fazendo programa e não a ter reconhecido de pronto, tampouco ela, ele a agrediu tão logo a reconhecesse. “Mas e agora? Será que Diego reconheceria Clara”. A dúvida era saber se Clara estaria a salvo da memória de Diego, e se essa não fosse recobrada, ela poderia voltar a estudar na Escola sem problemas.

Diego insistia nesta lembrança do rosto feminino. Restava saber se a lembrança era positiva ou negativa. Que lembranças poderia o rosto de Clara trazer para a memória de Diego? Luiz se enchia de questões, mas ao mesmo tempo se acalmava com a possibilidade de Clara voltar à escola. Mas tantas outras questões se avolumavam na cabeça de Luiz. De toda forma, ele deveria se certificar de que Diego não se lembrava da fisionomia de Clara.

Luiz precisava falar com Clara.

 

 

O ESPELHO

A tarefa de entender Clara tornou-se o destino diário de meus pensamentos. Havia uma necessidade de aprender sobre a criatura que se desenvolvia na minha frente. Eu me deixava seduzir – se bem que eu não sabia qual era a palavra certa para esta sensação –, ou já estaria seduzido por aquela força que advinha dela. Era estranho pensar que ela era igual a mim, este sujeito tão acomodado com sua existência. O que eu era diante da luta de Clara? Esta era a pergunta que me fazia. Mas por que me questionar de uma forma tão simples e egoísta ao mesmo tempo, ao ponto de exigir do mundo uma explicação para minha ignorância? Não seria mais fácil viver esta espécie de manifestação como um desejo invertido pelo o que estamos acostumados a seguir? Como um lunático visionário, sem qualquer respaldo da sua loucura, vindo a ser agraciado com a compreensão do mundo pela sua descoberta existencial?

Eu tentava naquele hospital, vendo-a atada a tantos fios e canos em suas veias, procurar a minha própria essência para que eu reforçasse quem eu sempre fora. Eu procurava um sentimento de puro atavismo para, voltando atrás, encontrar aquilo que me mantinha o que sou. Aí, diante desta constatação diria: “Este sou eu”. Mas será que que fui sempre isto? Mas por que tinha que questionar? Tudo se resumia ao que tinha entre as pernas? Isto que Clara fez transformava-a numa maluca?

Sua feição continuava plácida, sem reações anormais ao que estava acostumado. Sim, eu já me acostumara à Clara daquele jeito – por isso os questionamentos parecem tão simplórios agora – àquele rosto resignado, mas atormentado. Eu sabia que ela não estava feliz.

Mas a felicidade era uma coisa minha. Eu a via no meu dia a dia, sendo professor substituto. Uma nova oportunidade de mudança de aprendizagem. Isto pra mim era felicidade. E quando eu comparava a minha felicidade com a de Clara, parecia-me que ela estava infeliz. E a medida de comparação era a minha vida. Mas então eu parava para pensar neste meu projeto de felicidade, que não estava acabado. Estava em pleno curso, mas era completamente incerto, cheio de tempo e espaço para percorrer. Uma coisa difícil de descrever, sendo que eu não sabia o que realmente queria ser. Fato que me distinguia substancialmente de Clara, que possuía este projeto de mudança de vida ligado a uma mudança que ressignificaria seu ser. Mas ela não iria se transformar num monstro franksteiniano ou coisa do tipo, ela se transformaria num gênero a que estamos esteticamente acostumados a conviver: uma mulher. E não seria difícil entender por que uma pessoa gostaria de ser uma mulher, não seria? Uma mulher é aquilo eu nos separa por tantas outras coisas, e por que motivo teríamos problemas em alguém querer ser mulher? Não completamente oposto a nossa experiência humana. Sim, estamos falando de humanos, não monstros. E era assim que eu devia enxergar Clara, como um ser humano. Mas por quê… por que tanta dificuldade? Talvez a resposta estivesse na minha concepção de felicidade e não de humanidade.

Ainda absorto com a incompreensão daquela história. A resistência na luta para tentar reconstruir um significado dado antes e agora posto à prova da humanidade, como humanidade. Era esta a luta de Clara. Eu confessava para mim mesmo que começava a entender um pouco daquela resistência em ser o que não se podia ser. Mesmo que fosse um rabisco do projeto complexo que era Clara, que tentava lhe dar uma oportunidade de recebê-la renascida na minha mente. Como se eu aprendesse uma nova palavra e imediatamente relacionasse-a à Clara: esta é Clara! Pronto. A partir dali, eu incorporaria ao meu vocabulário criando uma representação simbólica do seu nome ao ser. Era assim? Simples assim? E depois. O depois de aceita-la, incorporá-la, o que eu faria com os outros sentimentos, que, agora, não consigo precisar?

Eu passava de um problema para outro. Sem ter completamente resolvido o complexo entendimento da mudança de Clara, me invadia esta necessidade de fazer a análise do meu desejo. Novamente, entrei neste campo da imprecisão dos sentimentos – e nem entrei na lógica da moral que inviabilizava meu contato com uma pessoa menor de idade. Impossível não me lembrar de Nabokov e sua personagem perdida entre a perversão e a fraqueza da alma apaixonada –, e paixão era a palavra que encontrava para resumir o meu sentimento. Seria isso? Eu assumia estes pequenos mistérios para tentar sublimar a completa incorporação de Clara ao meu mundo. Era absoluta minha resistência a completa entrega. Não poderia ser assim. Eu tinha que colocar na balança tudo que pudesse ser avaliado, de uma certa maneira racional. Eu sempre fui assim. Mas eu sentia que estava me traindo por ignorar minhas próprias exigências.

Na verdade, sendo um pouco superficial diante de minhas pequenas confirmações, era que eu ainda tentava recriar sentidos novos para meus medos. Tanto a aceitação quanto a paixão, passavam por longos processos de resolução linguística dentro de minha cabeça. Eu não queria aceitar o conjunto de definições atribuídas na busca momentânea neste nosso dicionário de sentidos. E criava, criava lá no meu íntimo uma nova simbologia de tudo que pudesse sentir, como se eu inaugurasse um novo sentido, repleto de uma significância distante do medo. O medo tiraria qualquer resquício de deletério ao que entendia. Somente a coragem de assumir tudo novo era a única solução para meu destravamento inicial. Logo, eu encontraria outro complexo mistério para realmente pertencer a algum grau de tranquilidade. Pois bem, era isso que precisava, que estes conceitos e resoluções linguísticas se decantassem num poço. De lá eu retiraria pacificamente e com calma a leve clareza da água, sem turvamento ou impurezas.

Sei lá. Eram horas de contemplação destas duas existências que são vistas pelo vidro da Enfermaria. Uma se vê translúcida deitada na maca, resistindo à própria sorte. A outra surge com a visão apurada, atenta ao reflexo do vidro, que se mostra um espelho, e nele vejo minha feição de dúvida diante das imagens interpostas.

Ambos estávamos ali parados, sendo observados.

 

 

O PROFESSOR CORTÊS

Procurei o velho professor Cortez. Diziam que ele já avia se aposentado e morava na mesma casa de sempre. Havia perdido a mãe e nunca constituíra uma família. E eu me perguntava o que este vocábulo representava para ele. Certamente o significado físico ou sonoro da palavra tinha acepções e sentidos diversos para nós. E era um sentido próprio e autêntico que procurava para o que eu sentia o como deveria sentir, vez que família como outros nomes não nos parecia tão próximos de uma realidade uniforme. Acabava resvalando em alguma coisa perto daquilo que sentíamos. Por esta razão que nunca sabíamos o que nos alcançava. Eram apenas especulações do real.

Eu tinha que revê-lo e buscar uma experiência diferenciada de sentir-se alheio a este mundo da representação imediata das coisas. A experiência da vida de um Professor homossexual assumido e de idade avançada me daria uma impressão destas diferenças. Eu não sabia o que procurava nas palavras do velho professor. Mas certamente eu procurava alguma outra possibilidade de resposta, pois eu estava preso a uma limitada esperança. Esta esperança estava ligada a toda minha existência centrada numa pessoa ligeiramente egoísta e inerte. Alguma coisa falava internamente que o caminho a ser percorrido para entender o que acontecia de certa forma, era de sair daquele estado de questionamento contínuo.

(…)

La estava ele, regando as plantas de um jardim na frente da pequena casa que ficava recuada. Um minúsculo caminho de calçada separava a terra molhada do jardim e uma mesa de leitura. Havia livros em cima da mesa coberta por um guarda-sol velho. Fiquei observando com vagar suas atividades. De vez em quando, depois de ler e rabiscar algumas páginas, levantava-se para sorver um pouco de ar entre uma tragada e outra do cigarro.

– Boa tarde Professor Cortez… lembra-se de mim?

– É você, Mateus?

– Não professor… é o Luiz, seu aluno da turma de 96.

– Bem, meu filho, nada me recordo, senão de Mateus…a única lembrança daqueles tempos. Conheceu o Mateus?

– Não professor.

– É… estou sempre falando nele, não é?

– O senhor está ocupado?

– Não! A não ser cuidar das minhas plantinhas

– Gostaria de conversar com o senhor.

– Oh, me desculpa”! – aproximou-se do muro, puxou o ferrolho – Desculpe-me meu filho entre. Não se incomoda com o cigarro, não?

– Não. Tudo bem!

– Há muito tempo que ninguém aparece por aqui.

– Pois é lembrei-me de suas palavras na nossa última conversa. E sim, o senhor falou da sua história com o Mateus.

– Falei? (…) Sim, era um aluno excepcional.

– Pois é professor… O que me trouxe aqui é uma conversa meio delicada.

– Não, não…se for pensando que usei minha influência para ter alguma intimidade com o garoto… Quer dizer. Sim, eu me apaixonei por aquele menino.

– Bem, o senhor deixou claro isso anteriormente. Deixou a turma sem graça. Era um assunto tão complicado de lidar naquela época.

– Ainda hoje, meu filho. Você disse que era da turma de 96, pois bem, lá por volta de 90 eu já lecionava na escola pública. A noite dava aulas na graduação… Peraí, eu me lembro de você. Você foi monitor nas minhas aulas. – sorriu ao se lembrar – Às vezes você dava a aula por mim. Agora me recordo de você. Como é seu nome mesmo?

– Luiz, professor.

– Isso mesmo. Luiz!

 

Eu hesitei em confessar o que realmente me levara até ele. Antes, quando ele não me reconhecera, eu podia jurar que estabeleceria uma relação menos formal, menos íntima. Mas desde o momento que ele me reconheceu, fiquei um pouco preocupado como ele poderia me interpretar sobre o que estava prestas a perguntar. Por alguns instantes ficamos calados. Ele se levantou e foi aguar novamente algumas plantas do jardim logo à frente. Demorou-se um pouco e voltou para a mesa.

– Você era um aluno especial Luiz. Agora eu me lembro bem. (…) Naquela época, você teria plenamente substituído Mateus.

– Como assim professor? Eu era igual ao Mateus?

– Calma, não se antecipe… Eu não teria feito o que fiz outra vez. – interrompe o pensamento para dar outra tragada  – Vocês tinham vontade de aprender. Ambos tinham um diferencial em relação aos outros alunos. Mas você não me inspirava cuidados. Já Mateus era um menino extremante delicado, o olhar perdido, às vezes, insinuava alguma delicada atração.

– E como o senhor se sentia?

– No começo eu me sentia estranho. Eu não sabia como lidar apropriadamente com aquilo. E você me perguntaria: Mas o senhor já era um homem vivido, não sabia o que sentia? Confesso que não entendia o que eu estava sentindo por aquele menino.

– Como assim?

– Eu percebia que ele sofria por ser daquele jeito. E no fundo, eu deveria protegê-lo… Era isso! E me preocupava com ele neste sentido. Mas depois… Não quero mais falar sobre isso rapaz. – Tentou se levantar para voltar a aguar as plantas – Mas o que trouxe você até mim?

…Eu não tive coragem de falar a verdade. Ficava olhando para ele, tentando encontrar algo parecido em mim. Era apenas um cuidado paternal que se estabelecia entre mim e Clara? Por que eu, intimamente, sabia que a reposta era além da negativa? Que olhares eu trocara com Clara que me faziam dissuadir da mesma intenção do Professor Cortez e Mateus? Por que Clara não me parecia apenas uma preocupação além da escola?

– Nada, nada professor… Eu estava passando na frente da sua casa e resolvi falar com o senhor. É… eu preciso ir agora. Tenho que visitar uma pessoa no hospital. Até breve.

– Você conhece o Mateus? – Ele se voltou para o jardim e ficou aguando as plantas.

(…)

Eu deveria conhecer Mateus.

 

 O PRIMEIRO SONHO DE CLARA

[Ataduras ao pensamento]

“Eu voltei à escola. Fui a última a entrar. A aula já havia começado. Eu passei despercebida. Pela primeira vez eu me sentia invisível. E não era ruim me sentir assim. Minha presença não incomodou ninguém. Falei com a Ana e ela me passou um bilhetinho: achei lindo seu novo short. Eu olhei para ela e sorri de volta, confirmando minha alegria em poder usar novas roupas. Mas para ela era normal. Tudo parecia normal. Os meninos não me olhavam mais com aquele medo. Achavam que eu era mais uma menina naquela sala. Até o João Paulo parou de fazer piadas – na verdade o que rolava eram bilhetes dizendo que eu era a menina mais desejada do colégio. Tinha certeza de que era ele quem enviava aqueles bilhetes. Passáramos de inimigos mortais para uma relação de desejo e interesses. Os olhares que eram de medo e asco, transformaram-se em olhos cheios de desejo carnal. Achava tudo maravilhosamente estranho, mas ia guardando numa espécie de novo cofre de memórias. Eu nunca havia sentido aquilo antes. Existia uma grande diferença entre um olhar de rejeição e outro de desejo, embora eu soubesse que os dois poderiam fazer mal. Mas aquele desejo do João Paulo me dava uma outra noção de perigo. Eu me sentia bem apesar de todo o passado de bullying que eu sofria. Eu não guardava mágoa. Eu mantinha todos aqueles bilhetes anônimos (a maior parte escritas pela mesma caligrafia de João Paulo) como se fossem pequenos troféus. Ana me pedia para eu entregar os bilhetes para o professor, que não estava certo receber aquelas mensagens machistas e tal. Mas não ela não sabia o que era  ter ecebido com ameaças, com chacotas o tempo todo; destas de causar medo e de representar quase um atentado contra sua vida. Tenho certeza de que ela, nem ninguém naquela sala imaginavam como era sentir isso. Estes bilhetes ameaçadores eram difíceis de guardar. Cada vez que os abria novamente, uma sensação de aflição me invadia. Tal quando eu entrava no banheiro. Era o pior lugar do mundo. ‘Travestis merecem o cemitério’; ‘Viado bom é viado morto’. Eram estas as mensagens que eu deveria relembrar todos os dias. Muitas das vezes, eu relembro agora, ficava o dia todo sem ir ao banheiro para não ter que me lembrar do que eu era ou o que podiam fazer comigo. Parecia que havia milhares de pequenos olhos a me observar, tentando me controlar ou descobrir alguma coisa. Achava melhor deixar do jeito que estava. Na verdade, eu não queria ir mais ao banheiro masculino. No feminino, não deixavam eu entrar e dos professores não poderia ser usado. Foi então que vi uma aluna falar do avô, que usava um fraudão para segurar a urina que ele não controlava. Consegui alguns destes na farmácia e usava para não ter que ir ao banheiro. E outra coisa que também fazia era não beber líquidos, nem ir à cantina da escola. Mas tudo era diferente agora. A campainha tocou. Eu continuava com minha amizade com a Ana; andávamos de mãos dadas. Ia ao bebedouro e enchia minha garrafa de água e bebia livremente por entre as pessoas, passeando pelo pátio. Parecia um prazer bobo. Mas tudo que me era proibido parecia igualmente bobo. Agora é que parecia que tudo tinha real sentido. Eu havia me livrado daquele incomodo da frauda geriátrica. Eu podia andar, circular livremente. As meninas me aceitaram no grupo delas sem restrições. Já os meninos me olhavam por outros motivos que não de repulsa e ódio. Pois é, já não mais existia aquele Pedro. Eu me via perfeitamente transformada, ainda que tudo estivesse envolto numa fumaça meio opaca. As coisas embora parecessem naturais ainda se deixavam envolver por esta transparência meio translúcida. Eu percebia que podia ver tudo, mas o som das coisas e pessoas ainda me escapavam. Tudo parecia enevoado por alguma razão. Seria por isto que minha imagem parecia diferente da anterior há alguns dias. Era a única coisa que me incomodava ali naquele momento novo. Eu podia sentir a mão de Ana segurando a minha, enquanto passeávamos pelo pátio. Andava pelos corredores. Passava pela sala dos professores. Estranho, onde estavam os professores? A escola parecia apenas um lugar de alunos. Não me recordava de quem era a aula antes do intervalo. Eu entrei, sentei e senti aquilo tudo como se fosse um dia qualquer. Mas alguma coisa me dizia que tudo não passava de uma invenção minha. Eu sentia tudo com uma proximidade real, que não tinha como ser outra coisa senão a realidade. Mas aquele fato de não saber onde estavam os professores escondia alguma peça dessa realidade sentida por mim. Aquela sensação que tive se de sentir invisível não era de todo a minha realidade. Repetia pra mim mesma estes pequenos acontecimentos, e jurava que podia revê-los numa câmera interna dentro de minha mente. Voltei lá pra a sala. Agora eu me via sentando, olhando ao redor, roçando os dedos na carteira, sentindo o ar leve que invadia a sala, o professor – não dava pra ver quem era, parecia ser o Diego –, me pedia para abrir o livro na página 72, que a lição já havia começado. O toque da Ana em minhas costas foi sutil. Virei para trás e ela passou o bilhete. Neste momento, de relance, pude ver João Paulo que me lançava um olhar nunca visto e que não me causava medo. Eu abraçava estranhamente a carteira contra o meu peito. Não sabia por que. Era uma sensação nova de acolhimento, porque tudo aquilo antes parecia desnecessário, intocável, insensível. E agora eu me enxergava, não sabia de qual plano, isso não era importante, mas parecia que eu estava do meu lado, observando numa velocidade um pouco diferente da normal. Por alguns instantes eu tocava meu rosto. E eu me lembrava de ter sido tocada antes disto tudo. Este toque era suave. Eu analisava a textura da minha pele com um desejo indescritível. E queria repetir aquilo novamente por várias vezes. Olhava então para João Paulo, enquanto ele observava minhas costas, e eu podia jurar que ele esperava que eu o olhasse. Este momento era estranho. Completamente incomum. Ele então desistia de esperar, baixava a cabeça e começava a escrever um bilhete. Eu via tudo naquelas palavras. De novo aquela sensação estranha de que eu podia antecipar a mensagem. Olhei para trás. Ana me passava outro bilhete. Eu ria internamente. Daquele plano exterior, que queria avisar a mim mesmo que não era certo rir, eu tentava alertar sobre o desejo carnal de João Paulo. Mas então eu me via novamente rindo, e aquele sorriso me dava uma sensação em mim e nesse duplo que tudo observava.

Eu estava sentada. Isto era antes do sinal tocar. Uma música tocava. Eu ria o tempo todo. Alguém chamava repetidas vezes meu nome: Clara, Clara. Aquilo soava tão delicado nos meus ouvidos. Eu deixava aquelas repetições entrarem no ouvido, e só depois de voltar a rir, respondia: presente, professor.

– Presente!

Não queria envolver o professor nesta minha contraditória alegria, nem ninguém naquela sala quis interromper aquela magia.”

 

 

 

 

 

[1] AlunXs recebe o “X” como forma de neutralizar as referências ao sexo do interlocutor. Uma linguagem inclusiva que não faz ênfase ao discurso uniformizador do Português como uma língua que privilegia e normatiza o plural masculino.

[2] É o nome pelo qual pessoas (transexuais e travestis) preferem ser representadas nas relações sociais, em lugar do nome civil oficialmente registrado, que não se coaduna com suai real identidade de gênero.

[3] Por se declararem possuir uma identidade de gênero feminina, deve-se usar o feminino para se referir às Travestis.

[4] Travesti não é uma orientação sexual, mas uma identidade de gênero oposta a de seu nascimento.

[5] Misoginia: Denota desprezo, aversão, ódio à mulher ou ao feminino, isto é, a qualidades ou atributos de feminilidade convencionais. É um padrão aprendido e que, por isso, pode ser abandonado, caso as ideias e valores que o fundamentam sejam criticados e transformados. O termo equivalente para a aversão ao homem ou ao masculino é “androfobia”, porém as manifestações de misoginia são mais frequentes na cultura androcêntrica e heteronormativa.( http://www.sdh.gov.br/assuntos/conferenciasdh/3a-conferencia-nacional-lgbt/conceitos/glossario-lgbt/view)

[6] O gênero não deve ser meramente concebido como a inscrição cultural de significado num sexo previamente dado”, defende Butler (2010, p. 25), “[…] tem de designar também o aparato mesmo de produção mediante o qual os próprios sexos são estabelecidos. (https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/05/01/o-conceito-de-genero-por-judith-butler-a-questao-da-performatividade/). Acessado em 12/12/2016.

[7] Generalizações, ou pressupostos, que as pessoas fazem sobre as características ou comportamentos de grupos sociais específicos ou tipos de indivíduos. O estereótipo é geralmente imposto, segundo as características externas, tais como a aparência (cabelos, olhos, pele), roupas, condição financeira, comportamentos, cultura, sexualidade, sendo estas classificações (rotulagens) nem sempre positivas que podem muitas vezes causar certos impactos negativos nas pessoas. http://www.infoescola.com/sociologia/estereotipo/ . Acessado em 10/11/2016.

[8] Uma série de mudanças de modos de Ser. Nesse sentido está em oposição ao Ser enquanto imutável.

(LALANDE 1999, p. 253)

[9] Condição descrita pela medicina como uma incongruência entre o sexo anatômico do indivíduo e o gênero ao qual se sente pertencer, somada à angústia e ao desconforto desta incongruência. (http://www.sdh.gov.br/noticias/2016/agosto/o-direito-de-ser). Acessado em 10/12/2016.

 

 

Continua em:
https://www.wattpad.com/myworks/92635779-uma-quest%C3%A3o-de-jeito-um-pequeno-romance-de

1 Comentário

  1. Very bom, Cool! Gostei muito das colocações e do enredo do capítulo, muito bem detalhado e muito bem escrito. Gostei das epifanias e do clima do texto. E tem uma boa descrição das reações dos personagens!

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