Sete minutos depois da meia noite
12/01/2017
Roteiros
31/01/2017

Entrevistas mortas

Há algum tempo me perguntaram qual a importância de minha literatura. Aí perguntei a mim mesmo – sim, eu estava fazendo esta entrevista comigo mesmo – se era Literatura ou literatura, como se houvesse uma menor e outra melhor. Então respondi que ela adquiriu uma profunda relação com a depressão que passava. Eu criava personagens para escapar da morte, fosse ela temporária ou permanente.  Embora eu começasse a fazer um hercúleo exercício de despojar de mim mesmo na escrita ou por não uso de determinadas palavras ou pelo não uso de temáticas, ou ainda pelas pegadas filosóficas. Não dava para responder o que eu pensava naquela época, talvez porque eu quisesse me entender como um homossexual descobrindo como ser e se portar diante do mundo. Agora a pergunta se revestia de uma análise mais apurada daquilo que já fiz. Antes, eu escrevia num processo mais orgânico, bem espontâneo. Agora, a escrita ganha uma envergadura de autoanálise e escolha de palavras, ainda que seja um tanto quanto errática a disciplina deste jogo.

Quis implementar a resposta voltando ao cerne dela. Pensei que já tivesse respondido, mas achava que ainda carecia de algo. Na minha cabeça esta coisa do uso ou do propósito da escrita de alguém era bem particular, bem pessoal. Para mim ela tem um fim, para o leitor, outro. Mas como a pergunta era pra mim, eu começava a desenhar uma resposta mista, meio maluca de esperar pelo o que o outro achava. Eu queria que a entrevista se baseasse na minha profunda genuinidade de escrita, importância e utilização. Mas com a escrita em curso, algumas leituras e análises, estas escritas alcançavam os outros num sentido de simulacro do espelho, sendo que as análises tinham profunda relação com a forma que a leitura representava suas realidades. Então, a Literatura alcançava outro destino entre ajuda e representatividade.

Por que a opção por personagens centradas numa específica orientação sexual foi a pergunta feita em seguida. A entrevista tinha que seguir uma dinâmica de raciocínio lógica que emendasse um pensamento no outro. Antes era mais fácil, porque era uma aflição particular de descoberta de um mundo diferente. Então tudo se centrava naquele jovem nada convencional. Então, aí tinha uma grande narrativa centrada neste diferente, que servia para o estudo e para a autoanálise. Mas eu não escrevia com este intuito. Talvez, mais tarde isto tinha alcançado um desejo, mais claro de tirar este personagem da margem ou do silenciamento, e colocá-lo numa plataforma de visibilidade de representação positiva. Mas aí eu perguntava para mim, uma pergunta dentro da pergunta, por que representar estas personagens? Era uma necessidade de tirá-los da doença e de tirar meu desejo de uma clandestinidade. Mas embora isto satisfizesse o entrevistador, eu achava a resposta tão pronta. Tinha tanta coisa além. É bom dar uma resposta simples. Porém, eu precisava de mais, entende?

Qual a graça de escrever sobre si mesmo? Eu já não escrevia sobre mim. Com o tempo comecei a observar os outros. Tem um livro, que não vou dizer o título, foi um exercício de observar uma personagem sem uma ontologia sexual para defini-la. Ela estava em busca de emprego para se manter e, ao mesmo tempo, imprimia uma busca pela figura do pai que abandonara. Muitos poderiam dizer que aí residia uma figura com um arquétipo típico de um gay. Mas o que importava era o meu exercício de não entrar na sexualidade, o que rendeu uma profunda análise metafísica e de metanarrativa, vez que o protagonista era um escritor. Então, a escritura atingia outro patamar. Se não havia identificação espelho (autor-escritor), como responder a pergunta? Eu não queria mais ser notado pela minha sexualidade, mas pelo teor literário – e modestamente reputo este texto como o melhor que escrevi. Como escritor nós nos cobrávamos o melhor texto. Aí vinha a outro pergunta: qual seu melhor trabalho?

Embora eu tivesse respondido, esta se dividia em duas ramificações. Elas tinham a ver com as protagonistas. Uma homossexual e a outra heterossexual ou os estereótipos implicados. Ambas apostavam nas perspectivas de construção das suas próprias necessidades de entender a si e o mundo onde vivem. Então, estas perspectivas, embora se referiam a compostos da sexualidade, obviamente, elas tinham razões específicas de lidar com isso. Fato que causavam profundas diferenças em performação de suas humanidades. E eu sempre quis trabalhar esta preocupação humana das personagens.

(…)

As perguntas se alongaram por algumas horas. Muita coisa foi editada por causa do tempo. Eu procurava dar um tom bem claro de entendimento a este mister de escrever. Mas eu sempre pensava  que a escrita não tivesse que ser simples. Alguma insatisfação poderia ser veiculada e que me fizesse sempre pensar e voltar àquela leitura. Assim como eu tinha visão própria para a escritura dos primeiros textos, hoje era bem diferente.

Dead interviews

Some time ago I was asked the importance of my literature. Then I asked myself – yes, I was doing this interview with myself – whether it was Literature or literature, as if there were a smaller and a better one. Then I replied that it had a deep relationship with the depression that was coping with. I created characters to escape death, whether temporary or permanent. Although I began to make a herculean exercise of stripping myself, of not using certain words or not using thematic or philosophical footprints. I could not answer what I thought at the time, perhaps because I wanted to understand myself as a homosexual discovering how to be and behave in facing the world. Now the question was a more accurate analysis of what I have done. Much before, I wrote in a more organic, very spontaneous process. Now, writing gained a breadth of self-analysis and choice of words, even though the discipline of this game was somewhat erratic.

I wanted to implement the answer by getting back to the core of the question. I thought I had answered, but I thought I still needed something. In my head, this thing of someone’s use or purpose of writing was very private, very personal. For me, it has one end, for the reader, another. But as the question was for me, I would begin to draw a mixed response, half a blend of the craziness of waiting for what the other thought. I wanted the interview to be based on my profound genuineness of writing, importance and use. But with writing in progress some reading and analysis, these writings reached out to others in a mirror-simulating sense, and the analyzes were deeply related to the way reading represented their realities. Literature, then, reached another destination between help and representativeness.

Why the choice for characters centered on a specific sexual orientation, was the next question. The interview had to follow a logical reasoning dynamic that would amend one thought to the other. Before, it was easier because it was a particular affliction of discovering a different world. So everything was focused on that unconventional young man. Then there was a great narrative centered on this different guy, which served for study and for self-analysis. But I did not write for this purpose. Perhaps, later on, this had achieved a clearer desire to take this character from the edge or from the silencing, and put it on a platform of visibility of positive representation. But then I would ask myself, a question within the question, why represent these characters? It was a need to get them out of the disease agenda and take away my desire for clandestinity. But although this satisfied the interviewer, I found the answer so simple. There was so much beyond. It was good to give a simple answer. But I needed more, you know?

What’s so funny about writing about yourself? I did not write about myself anymore. In time I began to observe others. There is a book, I will not say the title, it was an exercise in observing a character without a sexual ontology to define it. He was looking for a job to keep himself, and at the same time, he was searching for the figure of the father who had abandoned him. Many might say that there was a figure with a typical gay archetype. But what mattered was my exercise of not entering into sexuality, which yielded a profound metaphysical and metanarrative analysis, since the protagonist was a writer. Then the scripture reached another plateau. If there was no mirror identification (author-writer), how to answer the question? I no longer wanted to be noticed by my sexuality, but by the literary quality – and modestly I regard this text as the best I have written. As a writer we would charge ourselves for the best text. Here was another question: what was your best work?

Although I had answered, it was divided into two branches. They had to do with the protagonists. One homosexual and the other heterosexual or the stereotypes involved. Both bet on the perspectives of building their own needs to understand themselves and the world in which they lived in. So these perspectives, although they referred to compounds of sexuality, obviously, they had specific reasons to deal with it. A fact that caused profound differences in the performances of their humanities. And I’ve always wanted to work on this human concern of the characters.

(…)

The questions took a few hours. Much has been edited because of time. I was trying to give a very clear tone of understanding to this writing. But I always thought writing should not be simple. Some dissatisfaction could be conveyed and made me think and  do return to that reading. Just as I had my own vision for the writing of the first texts, today it was quite different.

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