Entrevistas mortas
21/01/2017
Beleza oculta
03/02/2017

Roteiros

A produção não se encaminha no sentido do que esperavam de mim. Por esta razão, me angustio, me rebelo – até mesmo com a ênclise. Então, a literatura entra como alívio imediato, me arranca da morte.

Meu desafio agora é roteirizar uma história minha, sendo que este desafio se inicia pelas escolhas. Estas escolhas devem partir da descoberta ou da persecução das potencialidades plásticas, narrativas e fílmicas dos textos. Senão vejamos o livro Adeus a Aleto, de 2009, tem uma peculiaridade por se tratar de uma história que pode ser decupável; decerta forma os fragmentos (frames) são/estão já constituídos de pedaços narrativos de uma sequência, embora não linear, de planos com enredos próprios. No entanto, é uma história difícil de ser contada, creio eu, devido a esta não-linearidade – que não é boa porque necessita de vai e vens, que comprometem o entendimento. Existe também uma dificuldade na caracterização das personagens, dos livros do protagonista, que revivem ou ganham vida e que não seriam completamente inteligíveis dentro do plot. Necessitar-se-ia de mais descrições destas personagens que adentram a história principal, como fantasmas metalinguísticos do personagem/narrador.

Já o outro livro Um Buquê improvisado, de 2012, tem características, embora a não-linearidade seja mais sutil, porque é própria da história em si, mas a segunda parte funcionaria dentro do conjunto narrativo, uma segunda história. Talvez fosse necessária uma adaptação que excluísse esta segunda parte ou alterasse a dimensão dos fatos. No entanto, há nesta urdidura uma complexa cadeia de caracterização das personagens que se interrelacionam de forma tensa e completamente dramática, sendo estes elementos são importantes para a criação de uma trama bem próxima de uma realidade – sem falar que há um quê de “baseado em fatos reais” neste plot. E analisando bem esta segunda parte, quase desconexa, é possível vincuar facilmente com os eventos da primeira parte, trazendo a discussão da memória afetiva num evento de amnésia; da observação; da patologia existentes na personagem Eloísa – não sei por que citei o nome dela, esquecendo do protoganista, talvez por causa de sua inclinação para o mal – , que protagoniza cenas bem interessantes do ponto de vista cênico; a relação com a mãe, revelando, ou melhor, trazendo ao filme um componente fantástico/mágico, vez que ela tnha alguns poderes sobre a vida das coisas; além de tematizar a alienação parental promovida por Eloísa – de novo ela. Porém, estas tantas peripécias/pontos de virada são elementos bem próximos de uma confusão, mas nada que um bom flashback não consiga resolver. Por outro lado, tanta riqueza de elementos fílmicos/cênicos podem produzir uma história reflexiva, pedagógica sobre os temas abordados no sentido de estabelecer relações com as ações entre os personagens e as consequências.

O livro A teia de Germano também possui uma vocação fílmica, na qual a trama pode envolver a protagonista numa busca existencial pela sua própria essência – por que não das coisas? –, numa trilha em busca de encontrar seu próprio genitor. Aqui também alguns elementos de repete, mas novos recursos podem ser utilizados, pois existem várias pequenas histórias que são narradas pela personagem principal e que remontam ao lúdico e mágico mundo da infância – momento no qual a história de uma baleia azul, que engole garrafas de sonhos, poderia ser contada em forma de animação. Também pode se trabalhada uma metalinguagem que se encerra na própria história do escritor pelo escritor, da feitura do livro ao longo da história. Há um apelo emotivo na busca do fictício personagem  Germano e do protagonista Lúcio, enredando-se nesta afetividade paterna quase inexistente, mas compreensível no sentido de dar a eles o real significado de suas existências. Ponto importante para se trabalhar as inúmeras recordações fotográficas e registros de missivas, enriquecendo a narrativa com certa surpresa e emoção.

Neste exercício compulsório do registro destas potencialidades d possível roteiro, há uma inexorável obrigação de ser reler estes textos na sua íntegra, pois algumas partes importantes podem passar despercebidas.

 

Pausas para leituras ou releituras

            Pouco orçamento, privilégio aos novos cineastas – obviamente aos novos roteiristas (como eu) –, experimentação, inovação de linguagem. Bem, são tantas as exigências neste mundo novo que se abre. Este registro aqui quase instantâneo, obriga-me a repensar neste desafio, fazendo com que necessite de conversas com pessoas mais experientes. No entanto, antecipei minha vontade de aprender com algumas leituras entre parte teórica e roteiros de diversos filmes.

O desafio maior daquele que não savoir faire é aprender com os outros.

O outro livro, intitulado Urânios cabe perfeitamente nos parâmetros – nem sei se devo usar esta terminologia – das exigências de um roteiro de filme. Personagens, diálogos fortes, recursos cênicos, várias perspectivas de câmeras, etc. A facilidade de adaptação é evidente no próprio texto, embora a questão da não-linearidade seja ainda uma característica a ser superada – ou não. Os ambiente são reduzidos praticamente ao recinto de uma casa, um  apartamento; planos fechados e muitas conversas, talvez aí resida um grande roteiro. Além do polêmico tema da poliafetividade, ciúmes, amor, traição, paixão, ódio, luto podem ser tratados a reboque pelas personagens.

Para esses registros deixei de lado o livro Errorragia – livro de contos – porque pensei num argumento mais extenso e não com base em pequenos enredos, embora tenha-se pano pra manga para várias pequenas histórias. Bons textos como Entrega para Jezebel, O travesseiro da rua; Deitado na sarjeta, mas olhando para as estrelas. No entanto, quero me debruçar sobre uma história com muitos recursos, pronta, da qual eu vá extraindo os excessos e primaziando um centro, uma fonte de ideias pré-organizadas. Outro motivo de preferir os formatos das grandes novelas que escrevi, e a ligação telúrica estabelecida com estes textos; ainda mais porque muitos detalhes podem ser resgatados em algum espaço de minha memória ou alguma informação perdida que podia ser utilizada neste roteiro.

O engraçado é que estou agindo com completa autonomia, diante do roteiro como se pudesse prescindir do olhar do diretor.

pausa para releituras/dúvidas

 

Eu estou com muita vontade de roteirizar A teia de Germano. Comecei a relê-lo, imaginando a primeira cena. Um plano fechado, focando os pés cruzados de Lúcio sobre a mesa de centro. Umm barulho no banheiro causado por uma pessoa – um corpo indefinido –, e a completa indiferença a esta presença. Mas se inicia um diálogo despretensioso sobre o que ele está escrevendo.

O plano se amplia. Vê-se Lúcio de peito nu. Ao fundo tudo opaco; a presença humana não deve ter importância, por isso desnecessária saber o sexo dela. Inicia-se a história:

 

INT – APARTAMENTO-DIA

Lúcio

Ainda de pés cruzados sobre a mesa, folheia o bloquinho de anotações.

– Estranha esta necessidade de encontrar a essência das coisas!

 

Não quer resposta. Apensas um pensamento alto.

– Fico pensando se eu esmagar uma folhinha de hortelã, ela continuará tendo essência de folha de hortelã?

 

Mas estacionei neste pequeno começo. Dar voz a outra pessoa soaria estranho ou faria com que saísse de uma zona de conforto daquilo que havia escrito. Qual seria a cena posterior? Faltava-me criar um vínculo ou mudaria para uma ideia diferente? Ou se continuasse ali, como fazer para que a outra pessoa (gênero) falasse? E se falasse, certamente mudaria o sentido do que havia planejado, vez que a interação com este gênero redundaria em ações do protagonista. Mas por que o sexo desta pessoa comprometeria a ideia inicial?

 

mais uma pausa

Começo sobrestado. Recorro à essência do texto. Tento enxergar a cena, ainda insistindo num monólogo e esta pessoa tão importante que não pode ser revelada. Ponto para se repensar este começo.

Pés cruzados sobre a mesa. A câmera se concentra (foca) neste pequeno pedaço de Lúcio. O ângulo próximo dos pés desfoca a imagem ao fundo. Um vulto é percebido como se deslocasse sutilmente entre os dois cômodos.

 

INT – APARTAMENTO-DIA

Lúcio

 

Como encontrar e essência das coisas, senão por elas mesmas?

Indiferença. Lúcio continua seus pensamentos.

 

Lúcio

 

Mas apenas com estas fotos e cartas demoraria mais tempo para extrair a verdade sobre Erich.

Pensamento alto. O ângulo permanece o mesmo. O vulto continua imperceptível e silencioso.

 

Lúcio

 

Embora tenha lido seus livros, não sei muito sobre ele. Isto me parece um quebra-cabeça!

Joga as fotos e cartas sobre a mesa. A câmera segue o movimento. Mostra o rosto de Erich numa foto, algumas cartas.

 

Lúcio

– Preciso me encontrar face a face com ele!

 

A câmera começa a desfocar os pés dele e circula pelo apartamento. Um bloco de anotações sobre a mesa; a estante. Zoom sobre as bordas dos livros emparelhados. Desloca-se para um canto no chão cheio de camisinhas usadas.

 

pausa para releituras do texto

 

Desisti. Talvez fosse impossível roteirizar este livro porque existe algo de difícil acesso/decifração. Lúcio é um cara muito introspectivo, ao ponto de algumas ideias serem complicadas de se realizar ainda que possivelmente tal peculiaridade o envolvesse em certo mistério e seria interessante desenvolver.

Relendo a parte inicial em que Lúcio procura entender o silencia, o ritmo e a essência das coisas; ao se transpor isso para o roteiro, corre-se o risco de transformar este começo num complexo jogo de referências e ilações.

Retorno a leitura por meio dos capítulos, como se pudesse alinhar as ideias recuperadas instantaneamente por pequenos recursos. Cada capítulo encerra uma antecipação dos acontecimentos encabeçados por títulos; assim consigo reescrever a ideia, mas ainda tenho dificuldades. Devo realmente desistir?

Pausa!

o livro

 

Persisto/Insisto na ludicidade e plasticidade, e por que não, na emoção do livro A teia de Germano, quando, lá pela metade do livro, Lúcio enreda suas memórias com outras histórias de cunho fantástico – Maria, a empregada doméstica, gostava de contar histórias de monstros e bichos personificados por ações e desejos humanos.

 

A animação toma de conta da tela. A baleia azul aparece engolindo garrafas lançadas ao mar e que estão cheias de sonhos e desejos.

Há uma superposição de imagens. O menino Lúcio aparece num plano recuado, ouvindo atentamente a voz de Maria a contar a história, enquanto a animação é mostrada. (páginas 57-62, Editora Metanoia, 2014)

 

Quiçá uma música, não incidental, para criar uma atmosfera infantil ou maternal, não sei, mas que criasse um ambiente de nostalgia e resgate do mais tenro dele. Além disso, há uma busca da qual já falei anteriormente, que Lúcio tentar encontrar indícios de sua origem, vez que fora entregue ao orfanato. A lembrança dos pais é restrita, mas cheia de memória afetiva – outro motivo para se adaptar a história, creio eu. Momento oportuno para aproveitar este mistério, pois Lúcio começa a ultrapassar as linhas entre admiração e identificação com a vida do biografado. Há uma grande e indisfarçável insinuação de que Erich seja seu pai, embora nenhuma prova seja evidenciada como real. Esta pequena e contundente suspeita poderia funcionar bem como argumento para a trama; uma peripécia – ideia que se torna fixa na cabeça de Lúcio.

Então, os encontros se dão num bar, por exigência de Erich. Depois de um tempo apenas lendo cartas, anotações e fotos antigas, Lúcio pôde enfim encontrar Erich para conhecê-lo melhor. A princípio, a conversa flui com certa dificuldade porque Erich é um velho verborrágico e beberrão, características que frustram Lúcio.

 

EXT. – BAR- TARDE

Erich recebe Lúcio com um aperto de mão efusivo. Acende um cigarro.

Erich

– Sente-se! Que bom que você chegou no horário. Com poderia confiar um projeto se fosse relapso com o tempo?

Lúcio

(Intimidado)

 

– Não é do meu feitio!

 

Erich

(Gritando)

 

– Garçom, garçom!! Mais uma cerveja, por favor!

(Mais um trago no cigarro)

 

Bem, diga-me: já escreveu algum capítulo?

 

Lúcio

 

– Este é nosso primeiro encontro. Não tive tempo de ver tudo ainda daquele pacote.

 

Erich

– Mas está tudo ali. Toda minha vida!

­ Não vê que muita gente queria ter posse daquilo tudo?

 

Lúcio

(Na defensiva)

V eu sou apenas um ghost writer; um escritor que precisa do dinheiro.

 

Erich

­– E vende seu talento desta forma?

Lúcio

– Antes de mais nada sou seu profundo admirador, especialmente do livro As ilusões da grandeza humana.

 

Seria o momento oportuno de se pensar num artifício para se falar da obra que narra a vida de Germano (o personagem central desta trama e que enreda todos os personagens). Pensei em mudar a forma de contar a história e colocar um narrador que conduzisse os passos das personagens, como que criando o tipo de cada uma ao longo do filme, depois juntando as peças. Assim poderia sanar algumas deficiências, que identifico, talvez por pura inexperiência – mais incapacidade do sustentar o roteiro como planejava do que uma mudança. Estou a enredar pistas para meu trabalho de pesquisa, lendo livro sobre este mister; oficinas de grande roteiros publicados e disponíveis na internet. É uma espécie de experimentação, e o registro funciona como esboço do que ainda quero criar e não deixa de ser um registro póstumo de minhas tentativas de promover – seria esta a palavra? – ou divulgar meu trabalho como escritor. Mas acima desta provável destinação do meu texto roteirizado é a possibilidade de retratar, retrabalhar o texto numa linguagem mais acessível tanto no aspecto da linguagem como da inteligibilidade.

Confesso existir uma dificuldade de transpor estes limites entre a obra e o acesso. Escrever, para mim, é quase um ato de puro instinto de sobrevivência diante do mundo real, ele flui de uma forma alheia aos meus eventuais planos de controla-la. Faço algo intuitivo na melhor interpretação desta frase: “a história vai se escrevendo”. Obviamente o texto se autoexplica quando não se procura esta acessibilidade mecânica.

Tive acesso à literatura de uma forma peculiar. Poderia dizer que passei do ódio a completa entrega. O ódio surgia de uma longa lista fixada pelo pai de leitura obrigatória. Lembro-me de ele manter ao meu alcance u bom dicionário e a gramática do Domingos Pascal Cegalla. Era assim que deveria ler os livros taxados por ele como bons. Era assim que lia Machado de Assis, com o apoio de uma logística apurada que me auxiliava na compreensão estrutural da coisa. Por isso fui levado a crer que deveria sempre haver uma coisa difícil a ser decifrada. Parecia que existia mais uma coisa a ser entendida, do que sentida propriamente. E a ideia de meu era que realmente eu aprendesse a algo das leituras, ficava restrita qualquer sensação de acesso ou de sentimento da obra, restando apenas a absorção da estrutura, do valor estilístico.

Já o amor veio quando pude entender, ou melhor, sentir o texto como mérito de minha própria disponibilidade ao sentimento, ao estranhamento, à sensibilidade alcançada, e isso não tinha a ver com entretenimento ou fuga da realidade, mas como meio de experimentar a própria vida.

 

de volta ao roteiro

 

Estou na busca de um arrepio na espinha, algo que promova este arrepio não somente em mim, mas para aqueles que leem – esta é a perspectiva de quem cria: causar alguma reação. Por esta razão, entro num outro assunto: pensar a obra desde o início até o final. E o final parece orientar o percurso a ser percorrido, aqui a organização de um roteiro, elencando cenas, os desfechos em cada transição, a dinâmica das personagens, as peripécias.. e o final. O final parece tão importante quanto o começo de tudo, e para um final podem existir vários começos. Que complicação.

Aí persiste a busca inicial em si: qual a história a ser desenvolvida? A dúvida permanece na continuidade desta própria escrita. A ideia de criar um filme parece algo a ser pensado do começo ao fim, e deste ao começo. Há uma real necessidade epifânica ou inspiração  que permitam uma compreensão ou dimensão macrocósmica de tudo em volta. Não creio que a leitura do filme vem de uma composição colaborativa de longos brainstormings, apelando para uma atividade completamente formal. Acredito também no esmeril do a posteriori, mas o roteirista deve ter algo de místico, do qual seja exigida verdadeira antecipação do arrepio da espinha, do choro iminente, da tensão, da catarse, da revelação. Pode haver a discussão destes pontos, mas elas preexistem como se fossem rabiscos de algo maior. Então, falta-me esta preconcepção, esta antecipação, este místico. Mas onde estão?

Para resolver esta situação, volto-me para aquele lado intuitivo que pode deflagrar o processo. Careço desta dimensão intuitiva que sana os problemas, alivia o peso daquele iniciante preocupado com a carga de responsabilidade sobre um bom texto. Mas o que de fato produz um bom texto?

Não se pode contar com esta intuição ao longo de todo processo; ela pode ser errática, desnorteadora. A princípio, serve como desencadeador, guia perceptivo, uma tese a ser desenvolvida, mas que pode redundar em devaneios, contradições e falsas esperanças.

Todo mundo precisa de um começo.

 

limitações

 

As ideias fluem, ainda que mais para quem tem planos mirabolantes num estrutura inicial de um roteiro, que sofre com as limitações do recursos humanos e materiais.

Em conversa com o colega Cris Sousa – expert na feitura de curtas e roteiros premiados – fiquei frustrado por conta das admoestações que ele me fez sobre o processo prático do filme. O meu roteiro seguia ricamente suas auto-orientações, seguindo à risca a empolgante narrativa. Eis que a máquina criativa tem que ser desacelerada. Nem sempre a ideia inicial/final do roteiro é preservada/definitiva. Na prática a coisa funciona de forma diferente. A ideia original da animação – a historinha da baleia azula que engole garrafas – ficou sobrestada por conta destas limitações financeiras que devemos já incorporar à produção. O roteiro pode sonhar alto, mas tem que ter os pés fixos na produção. Diante de um parco budget, e mesmo que seja um robusto, cortes sempre são feitos.

Então, como sobreviver às limitações supervenientes? Como superar limitações entre os egos e os orçamentos?

O esboço deve ser refeito, reanalisado com a determinação para enxergar as ações de outra forma; mais simples; enxugando as cenas mais elaboradas. Mas devo sempre pensar numa estrutura reduzida, limitando o potencial criativo?

 

respostas

 

Acho que as respostas se operam numa quantidade de infinitas de subconjuntos de respostas. No entanto, a questão da criatividade pode ser repensada com a utilização de infinitos recursos.

Para a alternativa da animação, poder-se-ia gravar diversas frames que contassem passo a passo a historinha e uma voz em off narrando-a. Tudo muito rústico, mas lúdico. Poder-se-ia usar também as massinhas de modelar. Portanto, está superada esta problemática. Pelo menos no que diz respeito à animação pensada no roteiro original. Porém, ainda subsiste a finalização do processo.

 

o roteiro

 

Recebi do Cris o link para o download do programa Celtx. Ferramenta interessante para planejar e criar roteiros de filmes – a bem da verdade é um plataforma apenas para estruturar o texto. Lá existem vários ícones de auxílio para a preparação deste roteiro. Mas o trabalho duro continua sendo todo seu. Como este texto aqui é uma experimentação e de dúvidas que encontrei neste processo, preferi deixar tudo no meu velho Moleskine.

Acabei lendo o roteiro do Mágico do Oz que eles disponibilizam nesta plataforma. Não me senti estimulado a escrever embora queria ver meu texto já formatado ali dentro.

Ainda perambulo pelo início da coisa. A escolha mais difícil de fazer.

Preciso começar de alguma forma esta história que me toma um tempo especial para ajustar o esboço, o erro. Tentar pelo menos colocar a ideia principal, uma conversa, um take qualquer. Partir dele como sempre fiz, por meio dos livros que escrevi, deixando que uma voz própria pudesse falar aquilo que vai se construindo por uma força narrativa incontrolável. Mas, mesmo que quisesse, não funcionaria no cinema deixar a história se escrever sozinha. Soaria bem amador, ingênuo, irresponsável supor que uma ação se tornasse interessante sem se envolver com ela; pensá-la além de um impulso inicial; recheá-la com suspense, mistério, drama e deixá-la intangível.

(…)

Lúcio é um bom começo. Um jovem ghost writer, que nunca fez sucesso com seu livro; dividido por duas buscas: a compreensão das coisas e a busca pelo pai. Então, um misterioso e excêntrico escritor deseja (paga-o para isso) que sua biografia seja escrita. O livro dentro do livro, a história dentro da história; protagonista e antagonista; maniqueísmo da vida. Um vazio como ser humano dependente do referencial alheio, convivendo com uma crença de que a verdade pudesse definir tudo. E sobretudo a magia , a fantasia como meio de acesso. Então, a peripécia, uma reviravolta pra que um suspense suspenda o ritmo. Uma suposição e, pronto, temos a mudança que orienta as ilações de Lúcio que quer uma resposta a sua pergunta, um final feliz.

Não temos aí um roteiro?

Mas em Lúcio, tem-se uma personagem forte como um filme requer? E neste caminha até sua fortaleza, temos que simpatizar com ele, criar empatia, sorrir, chorar, senti-lo como se o fôssemos?

Onde está o complexo de ações na figura de Lúcio? Lembrei-me de cineastas que desenhavam seus personagens como pudessem imaginar todas as características. Como eu vejo Lúcio?

 

Lúcio

Seria importante descrever, ou melhor, fazer croquis de Lúcio cena à cena? Desenhá-lo facilitaria o processo?

Eu deixava que os leitores desenhassem meu personagens como lhes aprouvesse. Não me importava com isso. No texto teatral, isto não funciona. Eles tinha que ter características internas e externas bem definidas. E pelo jeito aqui vai ter que ser da mesma forma. Será?

Será que preciso de um fenótipo fiel às características físicas que nem impus ao personagem? Houve sempre uma essência mais psicológica do que física propriamente dita. Não me importava se ele era gordo ou magro. Restava-lhe um caráter inconformado, uma insatisfação com sua vida, a carreira, a vida sexual e uma perturbação com o passado. Nada mais do que isso.

Eu precisaria de ator perturbado que pudesse aglutinar as características acima. Haveria um alívio nas leitura provocadas pela investigação da vida de Erich. A mudança é patente e promove uma reorientação da postura extrovertida de Lúcio, que começa a revivê-la como se fosse uma parte esquecida dela.

 

EXT.- AUDITÓRIO – TARDE

Erich está falando sobre o livro ILUSÔES DA GRADNDEZA HUMANA. Na plateia está Lúcio que o ouve atentamente.

Erich

– Germano era um menino sonhador. Suas histórias eram cheias de fantasia. Sonhava com sementes aladas, como se elas fossem pequenas espaçonaves alienígenas.

 

Lúcio esboça um sorriso

Erich

– Era uma forma de se manter são dentro daquele orfanato. Seu mundo mágico o livraria da solidão. E mesmo sendo um adulto, sua imaginação o livraria das Ilusões da Grandeza Humana.

Palmas esfuziantes.

(…)

Lúcio

Lúcio entrega o livro para que Erich autografe.

 

– Sou um grande admirador de sua obra.

Erich

Enquanto autografa. Cabeça baixa.

– Leste os outros títulos?

 

Lúcio

– Sim. Sim. Li todos. Por sua causa, tornei-me escritor…

Tira de sua bolsa a tiracolo um exemplar de seu livro

 

Erich

Hum. Parece-me interessante.

 

Lúcio

Sou escritor de ficção, mas ganho a vida como ghost wtriter. Sabe?

Erich

Que interessante… ghost writer…Mas escreve apenas ficção?

 

Lúcio

Sim! Quer dizer, não. Aceito qualquer trabalho.

 

Erich

Você tem um cartão de apresentação?

 

Lúcio

Sim, tenho!

 

Erich

Muito bem! Aqui tem como te localizar, não é?

 

Lúcio

Sim. Todos os meus contatos.

 

Erich

Sabe…estava procurando alguém que fizesse um trabalho sujo pra mim!”

Espere…não me interprete mal.

 

Lúcio

Como assim?

Erich

Enquanto folheia o livro de Lúcio, solta uma risada levemente debochada.

­ – Quero que alguém escreva minha biografia!

 

Lúcio

É um trabalho e tanto. Germano seria um capítulo à parte.

 

Erich

Germano nunca existiu. É um menino que vivia de sonhos.

Deixou-se levar pela grande baleia azul. Nunca mais voltou daquele sonho!

 

Animação

EXT. – FIORDE – DIA

Germano (O menino sonhador)

– Mais uma garrafa!

Lança a garrafa ao mar a sua frente. A garrafa afunda momentaneamente. De repente, emerge. Uma forte onda a empurra contra as rochas. A garrafa se quebra. O papel se prende às pedras. Atrás dele, um carrinho de mão cheio de garrafas.

 

INT. – CASA- NOITE

 

– Jogo estas garrafas todos os dias. Elas vão cheias de flores, terras e esperanças nestas linhas, pedindo que um vento do norte traga meus pais de volta.

Lê enquanto escreve mais uma carta.

EXT. – RUAS- DIA

Germano

Germano bate na porta da casa de uma velha senhora da vila.

– A senhora tem alguma garrafa com rolha?

 

Senhora

– Oh! É você menino!

– Sim, eu tenho Espera!

 

EXT.-FIORDE- TARDE

 

Germano

– Espero que esta não afunde ou se quebre!

Lança a garrafa ao mar. Desta vez mais longe. A garrafa desaparece.

 

EXT.- FUNDO DO MAR- DIA

MOBY (a baleia azul)

– Preciso de mais daquelas garrafas. Há tempos não sinto mais aqueles sonhos!

A grande baleia azul abre sua boca para alimentar-se. Acaba engolindo uma das garrafas de Germano. Mas devido as correntezas marítimas, não sabe de onde vêm as garrafas.

EXT.-FIORDE –DIA

Germano

– E esta: mais esta; e mais esta; esta gordinha; conhaque, vinho…esta também!

 

Germano esvazia seu carrinho de mão que estava cheio de garrafas.

 

Interior do apartamento. de noite.

 

Não consigo mais continuar esta história por conta da estrutura quase de soliloquia da personagem. Não o quero interagindo com um ser de gênero definido; manter este personagem vivo como se fosse uma alma solitária. Sei lá.

Criar cenas com a ausência de diálogos e interações humanas fica cada vez mais complexo, e não quero procurar por textos ou roteiros parecidos, tampouco quero usar um longo recurso de narração.

Desistir parece inexorável. Tentar outro texto parece ainda mais difícil.

Acho que Urânios pode ser uma alternativa.

Preciso ver as imagens antes dos textos, como se pudessem preencher os balõezinhos dos diálogos.

O processo da indefinição traz consigo as dúvidas de um recomeço. Repensar não somente a história, mas como fazê-la.

 

 

 

 

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