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Paredes revoltas

O escritório me viu menos escritor. E, peremptoriamente, me disse que não entrasse lá até eu voltar a ser mais escritor. Mas eu me perguntava por que ele estava fazendo isso. Será que foi por causa da palestra daquele escritor que tinha algo a dizer? Aquele que você olhava para o seu jeito de falar e dizia que ele tinha criado uma personagem de si? Se fosse por isso eu também tinha inventado a personagem do escritor impedido de entrar em seu próprio escritório. Mas alguém me perguntaria: “como assim ele te impediu de entrar?”. Eu não sabia responder por que eu mesmo não entrava mais naquela sala. Há tempos que passava horas dentro do quarto de dormir, sobre a cama, dedilhando algo ou tateando algo. Quando enjoava da minha inércia , usava o caderno e uma bic. Estava procurando inspiração. Mas eu não queria ficar naquela. E de pensar que poderia ser uma espécie de cobrança para que eu escrevesse sobre isso. Mas peraí, não estou eu escrevendo sobre isso?
Perdi então o motivo para a escrita. Talvez tenha sido por isso que ele, o escritório, me baniu de lá: porque ando perdendo o tino pra coisa. É ingrato isso. Tanto tempo vivendo naquele espaço, dividindo tudo que de mais precioso eu escrevera, os romances, as pequenas crônicas, as peças, as tentativas de roteiros, tudo parecia sem importância agora. Ele queria que escrevesse sobre ele. Será? Mas quem escreveria sobre um escritório? Não, não podia ser só por isso, se assim fosse: “pronto, escrevi sobre ele”. Mas eu não conseguia pisar naquele lugar. E justamente lá onde escrevi tudo que escrevi até hoje. Lá onde eu parava o tempo, enfiava algumas mentiras em frases escolhidas e conseguia imitar a realidade. Lá onde eu pensava se realmente era o escritor que aquele lugar merecia; lá onde eu cheguei a pensar que pudesse ser um escritor. Lá…onde eu deixei minha essência que ele se apropriava sem aceitar minha resistência. Tudo parecia que esteva ligado àquele lugar. E agora me vinha esta impressão de que tudo deixado ali parecia o espólio de outra pessoa. Mas por que eu deixei que ele tomasse corpo desta forma? Será que era ele quem escrevia tudo que eu dividia com ele, naqueles momentos em que o cigarro nos rodeava e eu lançava a pergunta: isso aqui tá legal? E eu não dava alternativa alguma para ele, nem mesmo eu me percebia naquele solilóquio. Era apenas eu. Porém, como poderia dar a ela algum espaço? Se estou falando dele agora, e sendo assim, eu permiti uma espaço para ele. Então, por que me proibia de entrar ali? Logo ali que escrevi o melhor texto. Como poderia ser tão egoísta em não ver que eu deixava ele me respirar pelas suas paredes e ao mesmo tempo eu recebia aquele calor trocado? Como podia ser tão egoísta? E se eu escrevia com genuína indulgência perceptiva dos meus erros, por que ainda assim ele se mantinha resoluto. A porta cerrada, a fronte rugada, a maçaneta imóvel, a luz desligada, o tempo mórbido. Por quê?
Se não falo com suas paredes, não é porque não me importasse, eu apenas não queria dividir aqueles meus problemas, minhas noites mal dormidas. Eu não queria lhe confessar. Estava sempre tudo bem. E sempre foi assim. Por que ele tinha que passar por estas dores? Dores estas que me faz um escritor. Por que ia lhe dizer que perdi o namorado, que estava longe, mas que me amava e o perdi no nosso primeiro silêncio? De que adiantaria? E se dissesse que perdi a escrita alguns anos atrás, me tornado neste arremedo de escritor? Como poderia confessar-lhe tantas coisas? Eu havia me consolado na mentira diária. Tinha escondido. Confesso. Porém, de que valeria ele auscultar pelas paredes a minha ladainha? Será que não podia sofrer sozinho estas desventuras? Tinha eu que estar sempre dizendo a ele sobre a felicidade – justamente aquele que inventara? E se ele já sabia, por que demorou tanto tempo para me expulsar de onde eu me entendia? O que sou agora distante do teu pequeno espaço, da janela que dava pra rua, da cadeira barulhenta, das canetas coloridas, das folhas descartadas, das páginas ressentidas, da xícara sobre a mesa, do cinzeiro cheio de cinzas, dos livros dos outros, daqueles que escrevi e que não escrevi, das horas de puro desespero, da folha branca, do gozo dado para aquele que perdi na imaginação, do grito que dei com a frase certa, da tinta que acabou…?
Tudo isso só porque me esqueci de mim?
Mas não foi justamente isto que ele tirou de mim?

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