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Vamos falar da peça BR-Trans?

 

 

Pergunto-me por que a peça BR-Trans não tem uma trilha sonora gravada, propagada e vendida como de uma grande novela?

Ah, alguém poderia dizer: “Porque nem as peças tradicionais têm este recurso. Nem é musical”.

Mas então o que é a peça BR-Trans?

Além de ser um libelo contra a transfobia, é um idílio à empatia. Mas pode estar além disso.

Ontem, foi a segunda vez que assisti a peça de Silvero Pereira. E não foi como a primeira. Também chorei ao ler com ele a carta de sua mãe tão distante; mas perto de uma oralidade tão delicada quanto forte.

Fiquei ainda mais atento à performance de Silvero – já não aturdido pela primeira vez em que fiquei impactado com sua atuação. Foi mais apurada minha relação com aquelas personagens.

“O medo me aproximou delas, porque foi o primeiro sentimento que identificamos ter em comum, que já dividimos; e isso motivou meu fascínio e nossa amizade”.

Mas não quero falar apenas de dor, em que pese o texto, ao tempo todo, tentar nos tocar por estas personagens cheias de dores e cicatrizes na alma. E pasmem, chegamos a rir das dores delas; ou seria das nossas?

Silvero se transforma no palco: é clown, é perfomance, é testemuno, crítica, musical, dramaturgia. Deixa-nos em dúvida, como um fluxo de consciência em que não sabemos se fala de si, deste outro… ou de nós mesmos. As travestis parecem tão longe, como aquela que ele – aqui o ator/pesquisador – observa(mos) num bar. A dor da travesti é abafada, não tem soluços; é contida. Requer uma sensibilidade humana para enxergar que aquela dor dói. Mas todos nós nos enganamos com os amores que criamos e com a bebida que escolhemos. Estamos todos naquele pequeno foco de luz numa mesa de bar.

A figura do ator transita em pólos, mas estes se diversificam nas histórias que ele vai retalhando no próprio corpo. Parece que o momento de reflexão é propositadamente revelado, quando ele escreve nomes de pessoas travestis e trans em sua pele. A confusão das falas é também interrompida; paisagens e pessoas são evidenciadas pelos seus nomes. Nomes criados numa ilusão do ideal de uma identidade roubada.

Os corpos riscados no asfalto do palco são tão contundentes. Agora, mais perto da plateia, de frente para Silvero – da primeira vez eu fiquei do lado esquerdo do palco – podia ver o espanto nos seus olhos; as mãos delas dadas em sinal de protesto. Era irmandade, era protesto.

Lembrei-me de um amigo de Fortaleza, que ao voltar de uma experiência na boate Divine, repetia com o mesmo pormenor a peripécia das transformistas que não sabiam fazer o lip sync perfeito, e enredavam a ladainha: um, dois, três, quatro… quatro, três, dois , um… Silvero personificou nostalgicamente esta passagem.

E é isso que ficou da peça BR-Trans, um misto de confusão, dor e alegria. Sim, por que temos que relacionar estas personagens – que saem do seu protagonismo notívago – e se misturam a nossa covardia de olhá-las como iguais? Saímos com esta empatia (repito) – mesmo que para alguns forçada –, embora a revolta seja constatada na voz emprestada a Silvero de tantas travestis e pessoas trans que foram assassinadas pelo simples fato de serem o que são. Simplesmente por que são assim. Mas assim como? Esta é a pergunta que se vê lançada em nossos colos e cabeças.

Recolho os pedaços de cada pessoa ali retalhada. Literalmente retalhada. O propósito de Silvero – sem ser taxativo – é deixar um pedaço em aberto, um retalho faltante. Quando ele guarda suas pequenas memórias e sonhos em cada compartimento, sobre a penteadeira iluminada, ele encerra, ao mesmo tempo, todos os nossos pequenos e  silenciosos crimes.

E quando ele apaga as estrelas de seu rosto, ele abre o espaço para que coloquemos o nosso pedaço de retalho naquele espetáculo.

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