Luf and the essence of the world
18/07/2017
Estado contingente
01/08/2017

Meu tragus

 

Me vejo fazendo algo que nem dou tanto valor, não fosse minha vontade de entender tudo. (…) Estou, então pegando naquela parte da orelha onde nascem aqueles pelos indesejados, que vêm da herança paterna. Sabe aquela região que passa completamente despercebida? Pois é, eu passo alguns minutos da minha vida arrancando esta pequena herança. Não são pelos grandes, são quase uma penugem, uma genética desnecessária. Mas lá estou eu arrancando os pequeninos pelos.

Paro o tempo devido, aquele tempo em que eu, sem auxílio do espelho, vou retirando cada um. Aí pela insistência do toque, pela percepção das pontas dos dedos, eu percebo que eles acabaram. Então, meu tempo dedicado a esta prática acaba. Pronto. Não questiono mais nada em mim. Mas aí o dedo fica roçando aquela parte da orelha. Lisa. E é tão estranha aquela região. É diferente das outras coisas, é cartilagem. Visitando um site de anatomia, descubro que aquela região se chama tragus. Lóbulo é mais bonito, mas ele já tem sua importância. Mas este tragus é estranho. Eu passei então o tocá-lo com mais intensidade. O tempo que antes eu gastava nele, então, aumentara. A estatística mudou. Fato que registraria que a partir de então eu gastaria mais tempo com isso. É o meu tragus. Não é do outro que costumo tocar. Na verdade eu não toco o tragus de ninguém. Tenho certa predileção pela coceirinha no lóbulo: meu e dos outros. Mas, no meu tragus, eu perdi este tempo. Parece um clitóris – embora nunca tenha tocado um –, parece um sexto dedo em formação. Sei lá. É uma determinação genética em auxiliar de alguma forma a audição. E se eu não tivesse tragus? Talvez eu não perderia tanto tempo nele agora; talvez eu não escrevesse sobre esta estatística; talvez eu não falasse em herança. E para onde iria minha obsessão de tirar os pelos do tragus? Para onde iria este único cuidado que tenho em tocar o meu corpo – já nem falo da punheta porque… Peraí, tem tanta relação! Não seria uma estimulação estranha, num primeiro momento, mas que depois se tornaria uma prática orgânica, necessária? Fazer estas construções me levaria a pensar na inexistência de tanta coisa em mim. O que poderia ser prescindido neste organismo que nem sempre aprendemos a usar?

Enquanto escrevo, eu paro para tocar, ainda sem espelhos, os meus tragus. Qual o prural? Uso as duas mãos, os dedos  indicadores de cada mão em seus respectivos tragus: dedo esquerdo, tragus esquerdo; dedo direito, tragus direito. Meu tragus está mais liso agora. Fico roçando, tentando achar sentido, talvez prazer. O estímulo em conjunto me causa um momento de concentração único. Este toque no corpo sem obter prazer, apenas uma sensação de existência, de dar valor a uma parte que não se olha com vagar. Se não fosse a herança genética e uma necessidade estética, eu não teria tanto tempo para mim; para ele. Sim, porque o tragus trouxe essa parada no tempo. Meu tempo; eu, meus dedos, minhas mãos, um conjunto. Repito o processo. Tiro os dedos do teclado e ponho no tragus. Me ponho a roçá-los. Um de cada vez, os dois ao mesmo. Meu toque quer prazer, mas minha consciência que entender.

Os dedos conscientes procuram a etimologia da palavra. Ela vem do latim, grego e remonta a goat, por causa da barba do bode. Pode? Era para ser ainda maior, vez a semelhança com o bigode do bode. Então, eu fico pensando que perderia mais tempo dedicando-me a arrancar os pelos. Mas talvez, os pelos se tornassem um elemento de estética, seria apreciado. Mudaria tudo. Talvez eu perdesse este tempo roçando os longos pelos do meu tragus. Mas volto pro meu tempo: tragus liso. Sem herança, sem atrito. Tá liso. Tem potencial erógeno. Tem consciência. Tem uma estética. Tem um sentido. Não o tenho sentido mais. Mas eu gosto do meu tragus.

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