Meu tragus
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06/08/2017

Estado contingente

 

Estado contingente

Deparo-me diante agora de uma incontrolável necessidade de descanso. Descanso de minha luta na tentativa de encontrar alguém – ou como nos últimos dias, de reencontrar alguém na mesma pessoa. Enfim, dar uma chance para ela, que, no fundo, revela-se uma chance para eu entender a ausência de uma essência sentimental e relacional.

No fundo somos grandes valas profundas procurando terra boa para preencher e sementes para germinar. Ao término de uma grande semeadura, prolongar os braços e colher frutos para matar uma saciedade das coisas que não podemos entender.

Somos eternos zumbis vazios, sedentos de uma alma para superação  de nossos medos.

De fato, somos seres naturalmente artefatos de uma melancolia hereditária, sempre sofreremos pela falta, pela ausência, pela partida. O alegre é sazonal e não sabemos lidar com a contínua felicidade. E quando novas entradas nos permitem novos caminhos – talvez alternativas para a famigerada felicidade –, é sempre mais fácil ladrilhar o caminho do passado, prometendo-nos um certo lustre enganador da verdade, imputando-nos compulsoriamente mudança de valores e de perspectivas.

Somos sonhadores. Talvez sejamos por uma também herança maldita, em que somos devedores de todas as dúvidas que o porvir não enredou em descoberta para os nossos antepassados. Somos oblíquos que tendem para uma retidão quase intangível, senão pelos que se punem constantemente pela falha. Buscamos uma verdade única para as coisas e nem mesmo sabemos sobre a teimosia do sol, das ondas, da teleologia das coisas que não nos alimenta. Enfim, somos produtos de uma ausência de sentidos metafísicos. Sim porque para o aqui existe uma explicação histórica, uma narrativização de nossas empreitadas e de como as coisas – e pessoas também – nos foram ensinadas a usar. Somos um passado sempre revivido, ou revirado ou repisado como se soubéssemos o porquê de nossas existências. Mas não entendemos o nada além dos instintos básicos.

E vamos continuando ao sabor do sol, que se cansar, cansamos juntos todos. Aí nos dão filosofia, literatura e religião para sempre fugirmos do que somos; abraçar o alegórico e viver de crenças alheias. E vamos professando uma fé em coisas intocáveis, histórias mágicas e esperanças no absurdo, já diria Camus “no absurdo encontramos muitas respostas”. E continuamos absurdamente efêmeros em todos os mais voláteis desejos. Seja no sexo, na nominação das coisas, no uso delas; na evaporação dos valores e na quantidade de sonhos materiais.

E aí, tento voltar para a completude de outra ausência: o amor. Uma busca pelo complemento que agora muitos revelam não precisar, mas é no outro que encontramos a referência para a própria autossuficiência ou existência. Sem o outro nem ao menos sabemos o que somos nós. E eu que faço parte dos que procuram a outra parte, ainda me ressinto de não encontrar esta resposta antes que o sol desapareça na última explosão egoísta. Me volto e me revolto para com esta necessidade particular. Invento uma filosofia própria para respaldar meu próprio medo. Não fico sozinho – pelo menos não quero. Gosto de dividir minhas impressões sobre o dia, o momento e o que não sei. Sou sonho, falta, ausência e melancolia. E numa pressa para entender estas instâncias, vou descobrindo que a cada compreensão de minhas partes, alcanço o novo. Este novo inaugura pequenos espaços de esquecimento dessas mesmas faltas, carências e ausências. É uma espécie de esquecimento coletivo de memórias. E a cada novo toque do nada descoberto, vou preenchendo certas lacunas.

Não me reconheço completo, mas quando inauguro esta possibilidade em mim, estou sempre envolto pelo amor ou pela falta dele.

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