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Reconciliação

Reconciliação

 

 

Era a última tentativa, pensou consigo, olhando para a porta. O coração parecia uma coisa viva; podia sentir cada palpitação como música forte e alta. Segurava o peito e sentia a orquestra sinfônica de todos componentes sonoros uníssonos. Seu sangue corria pelas veias numa velocidade em descompasso com as batidas do coração. Esses ritmos enlouquecidos deixavam-no mais aflito. Seu impulso inicial estava paralisado. Tentou mirar a campainha, desistiu. Olhou para o chão e viu seus sapatos.

 

Os sapatos foram comprados à véspera da cerimônia. Tudo estava quase pronto: o lugar, as comidas, as bebidas e os convites. Ah! Até mesmo as lembrancinhas estavam prontas. E as lembranças começavam a vir de forma violenta, como um grande vórtice de imagens e recordações sonoras, tudo ao mesmo tempo. Ao redor de seus pés, as coisas começavam a se alinhar de forma a dar uma ordem a toda dor que sentia em sua alma. O outro que estava atrás da porta, de início, não queria elementos surpresa. Tudo deveria ser simples e sem sofisticação. Mas ele, o paralisado, queria de início, a festa, a comemoração. Ele queria que tudo fosse tradicionalmente descumprido, mas formalmente orientado. E enquanto isso, todos aguardavam.

 

Os dois subiram de mãos dadas e, no melhor estilo, vestiram-se de fraque: um de branco, o outro de preto. Os olhares eram de pura incredulidade.

 

Mexeu um dos pés. Por um momento voltou a si num ato de completa altivez. Desistiu de tocar a campainha. Pensou em destruir a porta. Demoveu-se. Olhou os sapatos. Mexeu o outro pé. Deu uma volta. Estava de costas para a porta. Então, sentiu um calor em suas costas como de quem pudesse aquecer todo seu corpo. Fechou os olhos. Viu o outro.

 

_ Eu gostaria de agradecer a presença de todos e dizer que esta cerimônia é muito especial…

O discurso se prolongou por meia hora de palavras afetuosas e sinceras. O outro se limitou a dizer que havia felicidade nele e que, desta vez, seria protagonista de sua própria história. E os dois foram ovacionados e enxurrados com toda a sorte de felicitações. Ainda podia sentir o calor dos abraços, das manifestações carinhosas. E recordara- se que, diante daquela mesma porta, anos atrás, ficara parado esperando pela surpresa. Ficou de costas e podia sentir o abraço do companheiro, como se fosse o próprio laço do presente. Encheu- se de alegria porque tinha que ser uma grande surpresa. O carinho do outro era incomensurável. E por isso, não saberia pressentir o que seria a surpresa. O outro gritou de dentro que ele poderia entrar. Virou-se.

 

Lá estava a porta de novo. Ainda não conseguia se mexer. Virou-se novamente e sentiu a porta em suas costas. – Você pode entrar!-, gritou o outro cheio de uma felicidade contagiante. – Entra-, repetiu com sua voz suave. Ele se virou, mirou a porta. Abriu-a.

Tentou dar o primeiro passo. Mas sabia que deveria pelo menos tentar apertar a campainha. Virou-se pela última vez. Abriu a porta. Abriu os olhos e pensou ter visto tudo como antes. Lá estava o filhinho deles, o cachorrinho traquino, com uma faixa no pescoço e, preso ao laço, a mensagem mais bonita que já recebera. Lá estava escrito:

 

– Nós te amamos.

 

Fechou os olhos e abriu novamente. Conseguiu dar mais um passo. Depois outro e outro, e já estava no meio do corredor. Sua mão já não podia alcançar a campainha. Abriu os olhos. Podia ver tudo. E tudo já era passado. Ainda tentou fechar os olhos e voltar alguns passos atrás. Desistiu.

– Agora, hoje, ainda é tempo de construir a amizade; de dar abraços amigos; de dizer palavras de carinho; de agradecer pelo o que vivemos e olhar para frente – foram as últimas palavras por detrás da porta.

Abriu os olhos. Seguiu seu caminho.

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