Ainda sobre arte (criança viada e outras coisas)

Reconciliação
29/08/2017
Por que eu amo PET SHOP BOYS
17/09/2017

Ainda sobre arte (criança viada e outras coisas)

Ainda sobre o que é arte…

Pelo amor de deus, peço que minha mãe não leia este texto, porque foi ela que me levou para ver aquele homem esquálido na cabeceira da grande nave da igreja. Relembro-me de ter perguntado por que ele estava preso daquele jeito e por que estava tão debilitado.
Minha mãe, em respeito à sua religião, mencionara um tal de mistério da fé e de um sacrifício. Logo depois, eu saberia que aquele corpo fazia parte de uma tal arte santeira. Eu nunca me perguntei por que era arte. Eu deveria entender que por algum motivo aquela representação das histórias em que ela cria, tinha algum valor subjetivo, embora eu não soubesse qual o valor. Mas eu aprendi a entender que a fé dela a permitia entender a realidade daquele jeito. Ela não me explicou o mistério, mas eu percebia que era algo grandioso. Ela dizia, apontando para ele: – Ele morreu por nós. Meu pai tinha seus motivos para me explicar que aquela arte envolvia um mistério que ele já desvendara. Meu pai era mais direto; não que minha mãe fosse lacunosa, ela apenas tinha sua visão própria da estória. Meu pai o via – aquele homem esquálido – com outros olhos; os olhos de quem já sabia de todo o mistério. E foi assim por anos esta convivência dualista. Quem estava com a razão? Qual dos dois em suas visões de mundo estavam com a razão verdadeira? Foram anos me perguntando isso, ora me afastando, ora me aproximando daquele representado numa arte. E por muito tempo eu me perguntava o que era arte. Mas esta foi fácil de descobrir. Arte era a representação da vida e por trás dela havia um artista – ou uma artista.
Eu aprendi o que era arte, mas nunca soube qual dos dois tinha razão: meu pai ou a minha mãe? E fui também aprendendo que a vida vai enredando estes jogos dualistas, praticamente para tudo. E quando queremos fazer valer um ponto de vista, menosprezamos o outro. Inferiorizamos, e para guardar certa pertinência com o tema, demonizamos.
Eu vivi perfeitamente com os dois; o dual; meu pai, minha mãe; o mistério da fé e a descoberta dele. Fui ao longo da minha existência colocando numa balança estes elementos, ora místicos, metafísicos; ora mundanos e tangíveis. Criei ao longo deste processo recusas e aproximações; fui perguntando, fui averiguando. Para que servia esta arte? Se não era para eu buscar minha resposta, acho que não há outro caminho. Pois foi assim, com o auxílio de minha mãe e de meu pai que fui entendendo o processo.
Lembro-me que ninguém se perguntou se eu tinha medo daquele homem esquálido; ninguém me disse que eu não podia gostar dele. Mesmo meu pai que me revelou o mistério; disse-me que era só a visão de um artista. Nem ele e nem meu pai podiam estar com a verdade. Esta estava em cada um de nós, na diferença de valores que vamos dando;alguém falou em dialética.
E sobre a arte… a arte me criou a inquietação, a vontade de menos descobrir uma verdade, e mais em entender as possibilidades.
Mamãe e papai tinham suas razões. Mas naquelas artes expostas com o auspício do Santander, muitos queers também morreram por nós.
E ainda morrem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *