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Por que eu amo PET SHOP BOYS

Lá pelos idos dos anos 90, eu começava a aprender Inglês. E tomei gosto por conta de dois fatores: o primeiro era conhecer o mundo e o segundo foi meu professor Sabino – que ainda hoje o procuro pelas redes sociais da vida. Pois bem, foi o professor quem me ensinou, por meio da música, as primeiras lições do Inglês, um Inglês já multicultural. A música era Domino dancing dos Pet Shop Boys.

De lá pra cá, não parei de seguir o caminho deles. Um dos primeiros vinis (LP) que comprei com meu primeiro salário, quando já tinha 18 anos, foi o vinil do Introspective of Pet shop Boys. A capa, antecipava uma luta simbólica, pela escolha do arco-íris como forma de protesto – fato que eu entenderia só mais tarde. Hoje me parece tão pertinente este compromisso deles. Eles fazem música, como já disseram uma vez: “para dançar e pensar” e eu acrescentaria que também serve para militar a causa gay.

Todas as músicas escritas pelo Neil Tennant tem um viés político, atravessado por referências ora históricas ora com temas bastante atuais. Isso se pode constatar em qualquer música, mesmo que ela tenha poucas palavras. Eu cataloguei diversos assuntos que as músicas deles conseguiram harmonizar com melodias e arranjos. É difícil dizer de qual delas eu mais gosto. Todas têm uma singela, quando não, contundente mensagem. Essa minha tentativa de registrar os assuntos e questões de cada música fez com que eu escrevesse pequenas anotações sobre algumas delas. Isto ficou mais evidente, quando eles lançaram o álbum Very.

Esta passagem é engraçada. Eu costumava assistir o programa do Amaury Júnior porque ele veiculava matérias sobre todos os tipos de assuntos, entrevista com celebridades nacionais e internacionais. Num dia desses, ele mostrou a parada gay de São Francisco, nos EUA. Neste exato momento da reportagem, músicas eram tocadas ao fundo da locução dele. E imaginem de quem era? Sim, deles. Dos Pet Shop Boys. Mas o fato curioso, é que dias antes, meu pai, tinha comprado o vinil deles – justamente um dia antes. E eu sempre ouvia em casa, cantando aos berros. Era um tipo de catarse e de expiação dos meus pequenos crimes sexuais cometidos – culpa e medo rondavam estes sentimentos. Aí, eu punha o vinil e cantava tudo.

Àquela época eu não sabia muito o idioma, mas me esforçava bastante para entendê-lo. Can you forgive her ironizava uma relação heterossexual, permeada pelas desconfianças da namorada. A different point of view me trouxe a perspectiva de uma relação gay e suas problemáticas – claro, falo assim partindo da premissa do eu do autor assumidamente gay – e embora eu me questionasse estas coisas eu assumia que existia muita poesia para disfarçar desejos tão simples como complexos do amar e desejar. Aí vinha I wouldn’t normally do, que literalmente quer dizer, eu normalmente eu não faria isso. Novamente a ironia, o fato de se questionar o que normalmente faríamos se pudéssemos controlar estes desejos. Depois Liberation, uma canção tão linda sobre amor e cumplicidade. Este amor tão sociável e desvinculado do sexo, me trazia uma paz e uma sensação de possibilidade de viver tudo aquilo sem culpa. The Theatre fala sobre nossa pequenez como seres humanos; da nossa mesquinhez diante da miséria dos outros: “Where are the dums you step over, when you leave the theatre?”. Em One and one make five questionando a fidelidade das relações – presumo e assumo das relações gays – nas quais ainda resistem um medo de vive-las completamente e, por outro lado, a facilidade de desconstruí-las ao ponto de reinventá-las. Mas deixando uma mensagem positiva – será? – de que pode resistir uma monogamia sadia:

“So, tell me that you love me
Sort out this confusion
Say our love is still alive
For people must be jumping
to the wrong conclusion
that one and one make five.”

Então, diga-me que você me ama
Resolva esta confusão
Diga que nosso amor ainda está vivo
Para as pessoas que devem estar chegando
À conclusão errada
De que um mais um são cinco

Em To speak is a sin o amor fica com medo de se declarar, a paquera é antecipação de tudo. Talvez por conta desta música eu leve em alta consideração o flerte do que uma transa imediata.

To speak is a sin
You look first, then stare
and once in a while
a smile, if you dare

Falar é um pecado
Você olha primeiro, e depois olhar
e de vez em quando
um sorriso, se tiver coragem.

Depois de tanto cantar estas músicas numa quase perfeita imitação fonética, eu me perdia nestas ideias que vinham e invadiam me natureza ainda a descobrir o amor que eles falavam de uma forma que eu ainda não entendia – tampouco sentira.

“One in a million men
Could change the way you feel
One in a million men
Baby, it’s up to me

I won’t stand in your way
I can’t make you stay
Though of course, I’ll feel rejected
You’re a part of me
You’re the family
I can’t bear to leave.”

A porta se abre levemente. Meu pai, que também estava assistindo o programa do Amaury Júnior, adentra o quarto e pergunta: “Roberto, estas músicas falam sobre o quê?”.
Eu – naquele momento eu eu meu pai estávamos ainda sem saber um da verdade do outro – então eu respondi numa mistura de altivez e medo:
“Sobre amor, meu pai. Sobre amor!”

Não por coincidência, a última música do álbum é uma regravação do Village People – papai a esta altura já deveria saber a verdade –, a música Go West. Não precisei mais dizer nada sobre o que os Pet Shop Boys cantava. Era claro que era sobre uma forma diferente de amar, mas que não era muito difícil de enteder.

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