Eventos da Semana da Diversidade LGBTI
21/09/2017

Por que Trilogia do desejo?

 

Não foi um projeto deliberado a confecção de uma trilogia, nem mesmo cogitei na escolha de um personagem-narrador para compor minhas narrativas em prosa. Esta escolha é completamente subjetiva, não demonstra um plus ou um demérito para a narrativa em si. No entanto, desde as primeiras escolhas por temas e enredos, escolhi por usar o eu autodiegético por perceber que a fala do narrador sempre instaura um locus de fala. Eu quis dar força para a visão do testemunho, mais do que um relato de quem tudo vê.

Sem querer teorizar sobre a questão do eu narrativo, lançando mão de expressões que vão individualizar este narrador por denominações diversas: focalização do texto, perspectiva narrativa, ponto de vista narrativo intenciono aqui falar da postura assumida pelas escolhas assumidas: a primeira pessoa.

Naturalmente, a primeira pergunta do leitor-padrão é identificar a experiência vivida pelo personagem e a experiência vivida pelo escritor. O texto, embora ficcionado, sempre nos suscita a questão: teria o autor (escritor) vivido esta passagem relatada? Também não quero elucidar este questionamento apenas com uma tendência à negativa ou afirmativa. Porém, dependendo como o narrador se posiciona dentro de uma estória, ele permite ao leitor a focalização do enredo por um narrador interno ou um narrador externo. Bem, como disse a intenção deste texto não é teorizar acerca dos pontos de vista; mas transcender este eu narrativo além do testemunho.

Por esta razão, submeti meus textos a avaliações que viam-nos como relato de experiências vividas somente. Mas a questão pode ser teorizada – ai entra a questão de entender as minhas três novelas de uma forma holística – acerca do que caracteriza as narrativas do eu. Segundo Antônio Pádua Dias da Silva as narrativa dos eu que têm uma genealogia lá nos textos de Foucault, seriam uma nova perspectiva de estudos da narrativa de estética queer ou gay que ainda não foram dignas de estudo de forma acadêmica. No entanto, os textos autobiográficos já foram objetos de discussão de diversos estudos em literatura comparada e amplamente discutido, sendo que ainda existem um ranço pejorativo, dentro do gênero literário, do valor menor das escritas autobiográficas.

Neste ponto fica a minha prosa registrada como elementos para os novos estudos dentro deste gênero, que se apropriam desta narrativa homoafetiva como forma de avaliar os defensores de um gênero da literatura gay. Pronto. Estes novos estudos procuram uma didatização das leituras destas narrativas gay. Segundo DA SILVA, “há uma preocupação, entre os estudiosos do gênero literatura gay, homoerótica…por considerar as vivências no campo do desejo dos sujeitos que, quando escrevem, conseguem ultrapassar os limites do apenas confissão, testemunho, autobiografia e metaforizam no tecido literário as relações de identidade sexual, política de reconhecimento da diversidade sexual e suas implicações pessoais e sociais, ou de forma mais abrangente, psicossociais” (DA SILVA, 2011). Está aqui, em resumo, a intenção, além do valor literário que possa ter, contribuir para a análise destes textos que não foram apropriadamente avaliados. O projeto era bem maior; era analisar uma linha de um possível cânon de uma literatura gay.

Pois bem, depois de tanta explicação resta entender a leitura de minhas três obras, quais sejam: Adeus a Aleto; Um buquê improvisado e Urânios, que remetem à construção de suas narrativas segmentadas, a estruturação de um homem gay, ou como os estudiosos gostam de usar o termo Bildungsroman, ou romance de formação. Então aí está minha contribuição para o entendimento de uma epistemologia e uma construção de um homem gay.

Nas três narrativas citadas temos personagem em experiências diferentes sob uma perspectiva homossocial (SEDGWICK), englobando uma variedade de situações em que os personagens-narradores, de uma forma geral, experimentam sobre a pele a construção de uma determinada subjetividade. Dentro do romance de formação temos um homem que aprende com as vicissitudes da vida a se formar um homem – homem aqui tem a conotação taxativa de um homem heterossexual, sendo discutível uma mulher passar por este processo. Enfim, a leitura dos três livros levam o leitor a se perguntar o que faz, ou constrói, um homem gay? E se não direciona para esse propósito, faz pensar na possibilidade de uma construção, mesmo que errática, para a “formação” de uma subjetividade pouca estudada dentro da literatura. A autorreferência é apenas um ponto de partida para compartilhar as experiências de sujeitos diferentes, mas na iminência de transformações psicossociais. Aí reside toda uma teleologia de uma trilogia construída pela ficção e pelo confessionário.

E depois de uma trilogia formadora de um indivíduo e de uma subjetividade, como fica o autor dentro de uma perspectiva de fim?

Esta é uma pergunta interessante, pois agora a escolha da primeira pessoa não passa de uma questão de escolha. O personagem-narrador parece ter chegado a vida adulta, na sedimentação de seus anseios como homem, ou seja um homossocial. Há uma certa coincidência de objetivos, mesmo que ainda os objetivos de um homem não se resumem apenas em suas experiências pessoais. Como autor, as perspectivas de formação estão sempre ativas. Escrever é um devir, não um propósito pacífico e completamente delineável. Há a esta hora uma certo senso de dever cumprido. Eu criei personagens que deram sua contribuição para entender este indivíduo em formação, mas não se trata de um indivíduo pronto. Pelo contrário, ainda é uma subjetividade por se concretizar, mas que com o tempo – o personagem não é um vampiro imortal – alcança certas fronteiras que não pode mais avançar. A cada experiência, a memória – tal qual na grandiosa obra de Proust – era a única forma de reconstruir o passado e definir o próprio futuro. A memória é um recurso estilístico exaustivamente usado em todas as minhas novelas. O espaço ente o tempo construído e o tempo passado estão sempre em contato, como se pudessem constituir na mesma coisa, só que não. O homem revive o passado apenas para relembrar o que foi; já não é mais o mesmo homem.

A morte, o delírio e o onírico parecem inaugurar uma nova perspectiva tanto para leitores, autores e seus personagens. Todos estão enredados por essas alternâncias mesmo que elas não sejam lineares e contemporâneas. Acho que estas três instâncias definem bem o propósito de qualquer escritura daqui pra frente. A morte flerta com o novo, o fim; o delírio se relaciona com o não real, o absurdo e o onírico instaura a possibilidade além do irrealizável. E, respondendo à pergunta do leitor – ou seria a do próprio autor? –, eu estaria agora nessas alternâncias na forma mais doce, mais misturável, mais possível de possibilidades que elas possam criar. Eu, eu, eu estou no entre-tempo ou entre-lugar de suas definições, posso estar também no limiar delas quaisquer que sejam estes lugares limítrofes. Eu estou numa quase desistência, entre o começo e o reinventar.

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